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O século XIX foi marcado por uma série de debates intelectuais na Alemanha e havia também, uma disputa no que dizia respeito à interpretação da história, até o momento, dos outros, neste caso os franceses. Neste debate, Leopold Von Ranke se insere com um livro que trabalhava a construção da identidade alemã, no qual distanciou os alemães de qualquer relação com a idéia de barbárie, remontando uma ligação com a cultura greco-romana e esta obra foi recebida pela comunidade intelectual como uma resposta àquilo que ainda faltava ao povo alemão: entender quem ele é. Ao contrário dos franceses, que tinham como se identificar através de limites geográficos, os alemães, sem um território demarcado, ainda estavam perdidos, tentando levar em conta alguns critérios pouco objetivos como, por exemplo, a identificação através do idioma e outras maneiras ainda diáfanas de classificação. Ranke ofereceu aos alemães um trabalho que, valendo-se de uma abordagem factual, fez com que eles se identificassem finalmente. Em virtude desta contribuição de Ranke ao debate, foi criada para ele a cátedra de História na Universidade de Berlim, a partir disto, podemos imaginar o quanto foi importante, naquele momento, que se trabalhasse esta noção de identidade alemã e como fazer isto através da História se mostrou eficiente para pôr ordem no debate que estava estabelecido. A institucionalização da história como disciplina no espaço acadêmico prussiano, portanto, esteve diretamente ligada à criação da História da Alemanha, como parte da construção de uma identidade para o seu povo.

Esta nova disciplina se tornou uma forma de narrativa quase hegemônica sobre o passado, como tal, trouxe também toda uma metodologia própria, que num primeiro momento, foi pautada por aqueles aspectos que o próprio Ranke instaurou como necessários para a escrita da História, como ele a percebia. Sua percepção de História, diferentemente dos filósofos da história, partia da análise do particular para a compreensão do todo e isto era feito através da consulta de fontes históricas, que para ele, representavam o próprio passado. No entanto, precisava-se do historiador para “dar vida” a este passado. A partir da pesquisa documental, Ranke listava e organizava os fatos históricos, articulando-os com o contexto contemporâneo e dando-lhes forma. Para ele, isto seria a maneira mais imparcial, e por isso, correta, de fazer História, pois segundo ele, não caberia ao historiador emitir nenhuma opinião ou juízo de valor no que escrevia. Ranke acreditava no documento como o fato per se.

No entanto, esta maneira rankeana de conceber a história enfrentou algumas oposições, pois “a observação imediata só capta a concomitância e a seqüência das circunstâncias, jamais o contexto causal interno no qual exclusivamente se encontra a verdade essencial” [HUMBOLDT, Wilhelm] e em busca desta verdade e de tocar neste contexto interno, manifestaram-se outros projetos de escrita da história. A produção historiográfica do século XIX foi julgada, a posteriori, como homogênea, pela escola dos Annales. Tal julgamento deveu-se ao fato desta escola querer se opor à Ranke de forma que pudesse se classificar por aquilo que ela não é. Entretanto, o século em questão, apresentou sim, outras maneiras de produzir História, que não através da factualidade pura, que supervalorizava a pesquisa documental.

Como demonstrou Wilhelm von Humboldt em seu ensaio “Sobre a tarefa do Historiador”, fazer História pressupõe um trabalho que vai além da simples descrição dos fatos, baseados na pesquisa documental. Para Humboldt, este seria apenas um primeiro momento da escrita da História, uma fase descritiva, reprodutiva e não-criativa. É neste ponto em que há um embate com o modelo concebido por Ranke. Tomando o já citado trabalho de Humboldt para comentar este embate, podemos dizer que, justamente aquilo que Ranke considera execrável para a escrita da História, é o que completaria o seu trabalho. Estamos falando da etapa criativa desta produção, a etapa em que o historiador tem o papel principal e não as fontes. De posse dos resultados desta primeira etapa, o historiador buscaria aquilo que Humboldt chamou de “verdade interna”. E neste momento sua subjetividade, muito embora, fosse inerente, mesmo na primeira etapa, vai ajudá-lo a contemplar as demais exigências para um processo completo de uma escrita da história, que para Humboldt, seria cumprir uma etapa criativa, na qual o historiador é comparado a um poeta, pois faz uso de uma capacidade imaginativa, até mesmo de intuição, sem que, entretanto, isto constitua um “achismo”.

É possível, através da aplicação desta perspectiva de escrita da história (de Humboldt), uma nova percepção de realidade, divergente daquela implicada pelo método rankeano. Esta percepção de realidade possibilita, através da subjetividade, a emergência da individualidade na produção historiográfica bem como, permite que venha à tona uma série de questões a serem problematizadas devido às particularidades dos eventos históricos que no modelo rankeano acabavam sendo pouco exploradas, embora ele partisse delas para o “geral”. Desta maneira, abriu-se caminho também para uma análise que escapava às contingências impostas pela não-aceitabilidade do imprevisível. Esta dimensão do imprevisível não era contemplada pela concepção rankeana da História, e deste modo, o modelo se mostrou bastante obtuso, pois demonstrou pouca, ou quase nenhuma, flexibilidade para a problematização do factual, tomando o passado quase como um dado, como se bastasse acionar os documentos para fazer a História. Isto constituiu um problema na medida em que Ranke, não era apenas mais um produzindo História, mas ele havia se tornado “A referência” do modelo de escrita da História como disciplina, pois se fizera uma canonização da disciplina que subordinava a narrativa à academia, o que supõe, a partir de então, que era necessária uma autoridade para falar do passado. Entendendo o modelo da academia como aquele que se baseou puramente em pesquisa documental, podemos pensar que houve neste período, certo risco do engessamento da disciplina, mas como já foi falado, este não foi o caso, pois, como visto, houve um embate e, de maneira alguma a produção historiográfica do século XIX foi homogênea ou uniforme como quis mais tarde a Escola dos Annales.

Apesar de não ter havido, de fato, uma uniformidade no que diz respeito às formas como os historiadores produziriam a História, é importante compreender que o século XIX, sendo o século em que se consagrou a História como disciplina, será marcado por isto de forma inegável, visto que surgirá uma espécie de cultura da História, que já nasce maculada pela perspectiva acadêmica de fazer História, uma vez, que como já falamos, a partir de então, quem tinha o “direito” e a autoridade de falar sobre o passado com a intenção de produzir História era a academia, ou pelo menos, deveria passar por ela. Isto posto, entendemos que, o então fazer da História, passaria a atender, por força, a certos critérios. Critérios para a produção de um conhecimento científico sobre o passado advindos da academia. Em outras palavras, é como que se fosse assumida uma postura de que História só seria História se passasse pelos cânones acadêmicos. Isto, novamente, nos levaria a pensar no suposto engessamento dos modos de produção da História no período oitocentista. Contudo, é necessário que atentemos para a organização do começo desta disciplina, que foi operada por Ranke com “mão-de-ferro”. Ranke acreditava que a academia só poderia ensinar aquilo que produzisse, então, para ter a História como disciplina, era a academia quem a produziria. Isto, ao mesmo tempo em que profissionalizou o ofício do historiador também o “normatizou” demais e esta “normatização” não passou sem oposições a ela.

O que Ranke fez foi padronizar o ofício do historiador através desta normatização, como sendo o processo de dar forma às informações que tiramos dos documentos e transformá-los em História. No entanto, no século XIX já havia aqueles que pensavam que a História como um trabalho muito mais de problematizar do que, a partir de seqüência de eventos, tirar conclusões, ou ainda julgar que os próprios eventos falariam por si, e isto constituía umas das tensões vivenciadas naquele momento. Se por exemplo, um historiador, decidisse escrever sobre uma História Cultural, ou quisesse falar de algumas tendências e até mesmo levantar algumas hipóteses (suas) sobre determinado tema, ao invés de narrar acontecimentos, já estaria fugindo ao tradicional modelo rankeano, tinha-se aí, outra problema, considerar esta produção como História ou não. Se pensarmos que o trabalho do historiador, para ser reconhecido como tal, precisaria da aprovação de seus pares, teremos então um embate, pelo menos no espaço acadêmico prussiano do período em questão, pois poderia ser repelido aquilo que escapasse aos cânones acadêmicos, mas isto não impediu que houvesse uma pluralidade de produções. Produções estas que, senão o eram naquele momento e naquele lugar, poderiam ser aceitas mais tarde ou em outro lugar.

Por fim, resta-nos olhar com um pouco mais de atenção para o próprio Ranke, que deixava de fora do trabalho do historiador a dimensão interpretativa da tarefa, seu apego pelo fato e sua imparcialidade (suposta), na busca pela verdade, não davam ouvidos a outras formas de conceber a História. Ainda sobre esta imparcialidade de Ranke, há de se considerar que se trata do que ele considerava como imparcialidade, pois sabemos que, mesmo para ele, estava intrínseco “contaminar” sua escrita com um pouco de si – mesmo que não se desse conta – na medida em que, operava uma seleção de fontes e organizava os eventos e os fatos de acordo com uma ordenação escolhida por ele, já interferira na obra, “contaminando-a” mesmo que involuntariamente. Existe ainda, outro ponto importante a se observar, o contra-senso inaugurado pela análise posterior de suas obras que o classificam como positivista e historicista. Ora, tal classificação é inadequada visto que tais categorias não se associam. O Positivismo é marcado pela concepção de que leis naturais imutáveis constroem a sociedade, e, aplicado este conceito teórico-metodológico à História, o trabalho do historiador se resumiria no “dissecamento” dos fatos, pois estes representariam o passado e o historiador em nada influenciaria, pois o rumo natural dos fatos, por assim dizer, independe dele. O Historicismo, enquanto forma de se analisar o passado, tem como centro os fatos históricos e o encadeamento destes numa perspectiva construtivista. Caberia ao historiador então, ordenar os fatos. Ou seja, a História, na perspectiva historicista, não seguiria uma ordem natural, esta ordem seria tarefa, ofício, do historiador. Portanto, classificar Ranke como, ao mesmo tempo, positivista e historicista reflete um erro de compreensão destas formas de escrever a história.

*por Anita Lucchesi e Miguel Carvalho Rego (Julho de 2007)

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UPDATE: 07 de abril de 2013 – nota sobre as cirscunstâncias de escrita deste texto e seu histórico neste blog:

Curiosamente, quase cinco anos após a criação deste blog, este post tem sido um dos mais visitados e mais comentado. E o é embora não seja um texto com linguagem web friendly e, nem mesmo, trate do principal tema deste blog: Digital History / Storiografia Digitale. Até ontem (06.04.13), o termo de pesquisa “Leopold von Ranke” trouxe 913 pessoas a este blog. Apenas “Ranke”, 598. No total, este post recebeu neste período, 14.445 visualizações, sendo o mais visitado e comentado do blog, que conta com 109 postagens. Eu não sou uma especialista em Ranke e estou longe de ser uma autoridade em debates sobre historiografia alemã, gostaria que os leitores tomassem consciência disso. Sobretudo, pois notei através dos comentários recebidos, que alguns leitores talvez sejam, como eu à época, estudantes de graduação. Alguns buscando via Google respostas para as suas perguntas, possivelmente para suas provas e avaliações. É importante dizer que o texto, que assino com o colega Miguel Carvalho Rêgo, na verdade, foi produzido para uma avaliação da disciplina “Metodologia da História II”, ministrada pelo saudoso Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães, em 2007, na UFRJ (IFCS). Este professor, inquestionavelmente responsável pela minha escolha por este caminho da História, nos deixou precocemente, mas deixou também muita inspiração. O pensamento de Manoel (que amava ser professor), por si só, me lembra a feliz escolha de curso que fiz. Foi, provavelmente no curso (tópico especial) de “História, Memória e Patrimônio” que foi despertado em mim o desejo de estudar mais teoria, metodologia e me fez seguir, como tem sido até hoje, seduzida pelo tema até o mestrado. Reler o texto revela outra Anita (e provavelmente outro Miguel), revela a passagem inexorável do tempo e a imaturidade das ideias de uma menina de 21 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro para descobrir o que não era História. Obrigada, sempre, prof. Manoel Salgado.

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