Em seu texto Entre o Passado e o Futuro Hannah Arendt coloca o esvaziamento do protagonismo das açoes do homem e dos eventos particulares em funçao de uma concepçao especifica da historia, qual seja, a concepçao moderna.
A concepçao moderna da historia, segundo Arendt, encara a historia como um processo quase natural, que se movimenta autonomamente para um telos, uma historia que nao se detem às açoes do homem para entender politica, mas sim ao conjunto de acontecimentos representado por um “todo” unico que caracteriza a esta concepçao processual da historia. Este todo se moveria por natureza, estando além e independente das particulares contingencias das singulares situaçoes, escapando assim do dominio do homem. Logo a historia enquanto processo seria supra e transcendente às açoes do homem e aos eventos cotidianos, uma grande engrenagem independente das partes menores do processo.
Arendt argumenta que neste modo de entender a historia é como se os eventos perdessem o seu vigor porque a historia ja estaria de alguma forma “tramada” e os homens sofreriam-na ao invés de agi-la.
No entento, este aspecto de “naturalidade” nesta forma de conceber a Historia vai de certa forma banir dela aquilo que Arendt chama “impredizivel”, fazendo com que se acreditasse numa possivel previsibilidade de tudo, como se fossem realizaveis leis para esta disciplina capazes de sistematizar a exploraçao deste processo e torna-lo nao so compreensivel, mas previsivel, em detrimento de toda sorte de factualidade.
Porém esta forma de tratar a historia como independente do factual (algo que ja estaria traçado e “funcionando” de acordo com este processo implacavel) tem consequencias serias, algumas destacaveis, como segundo a propria autora, os regimes totalitarios do século XX. Explicando: aceitar a historia como este “ente” superior ao homem é como relegar a experiencia humana ao “correr solto”, pois presença de regras e o respeito ou desrespeito a estas seria indiferente na concepçao processual da historia, na qual o todo é imutavel em relaçao às pequanas e particulares açoes do homem. Isto alteraria o modo do homem compreender o mundo e atuar nele e segundo a autora este novo relacionar-se do homem com o mundo se daria na forma de mudanças na moral e na politica. A comprometimento do homem com a politica seria diminuido e fragilizado, enquanto a moral seria afetada por uma grave crise ética e isto seria causado pela drastica reduçao ou ausencia do senso de responsabilidade deste homem em relaçao ao “todo” que entao significa a historia, uma vez que esta nao està mais atrelada às açoes do homem,este também se descompromete eticamentecom esta. O ponto nevralgico apontado por Arendt dentro desta concepçao moderna de historia é que “isento” de responsabilidades e com seu codigo de ética fortemente alterado e corrompivel o homem se permitiu cometer e assistir experiencias injustificavies como o caso dos regimes nazifacistas.
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CIÊNCIA MODERNA E HISTÓRIA do Prof. Dr. Silvio Medeiros, Publicado no Recanto das Letras em 20/11/2006


