Jorge Luis Borges, trecho de uma poesia de sua obra tardia.
É real, e não de hoje, um problema que a sociedade como um todo experiementa, mas que é muito mais gritante para nós historiadores: a avalanche de informações produzidas todos os dias, a super oferta de dados e informação que ser quer assumir é maior que a nossa capacidade de assimilação.
A relação da história (e consequentemente, do historiador) com esta inflada sociedade de informação, que nada quer descartar, é cada vez mais tensa. Provocado, entre outras razões, pela inquietante relação entre a memória, o esquecimento e as práticas historiadoras contemporâneas mediante este problema de informação em abundância, o Prof. Andre de Lemos Freixo está ministrando este semestre no Instituto de Filosifia e Ciências sociais (IFCS/UFRJ) um curso que promete discussões interessantíssimas sobre “História e Memória”.
Em favor do esquecimento, ao meu ver, sadio e necessário para avançar em qualquer pesquisa, compartilho com os colegas leitores alguns trechos do texto introdutório proposto pelo Prof. Andre, btw, recomendando a leitura. É curtinho, mas muito rico:
Excertos do capítulo X do livro “Lete – Arte e crítica do esquecimento“, entitulado “Armazenado, quer dizer, esquecido” de Harald Weinrich:
p. 283: “Onde está nesta época pós-moderna aquela consideração atemporal que se pode produzir com visão clara uma contabilidade entre utilidade e desvantagens da informação para a vida, de modo que em caso de necessidade esta possa ser modificada rejeitando-se corajosamente a informação supérflua?”
p. 285: “Desde então tornou-se evidente que vivemos numa sociedade super-informada, na qual a verdadeira sabedoria não consiste em adquirir informações – qualquer criança pode fazer isso na Internet hoje -, mas em rejeitá-las – e para isso ainda não há programas na Internet.”
p. 291: “Quem hoje, talvez como jovem cientista, entra no campo da pesquisa e aprendeu o ofício e a arte de abter informações, em breve, em todas as disciplinas e em quase todos os temas, se defronta com uma oferta de informações arrebatadora que precisa de anos para escalar essa montanha de informações, e chegando em cima, onde o seu próprio buscar e pesquisar ía ter início, ainda constata que, enquanto trabalhou o “estado da pesquisa”, há muito cresceram outras montanhas de materiais que precisam ser conhecidos. Pois centenas de milhares de cientistas produzem milhões de livros, artigos de revistas e outras ofertas de dados, que vão inapreensivelmente além da capacidade do indivíduo“
E segue Weinrich, a favor do oblivionismo científico – da árdua tarefa de selecionar e descartar-, pois como afirma mais adiante “perto do cume, onde age a pesquisa de ponta, só se chega levando pouca bagagem” (p.294)
Selecionem, pois! Certos de que esquecendo algumas coisas a subida vai ser mais leve: boa escalada!
Para fechar:
p.296: “Mas de outro lado as ciências humanas e sociais, tendo de andar a passo com o tempo, são submetidas às regras de jogo e de linguagem do oblivionismo científico. A arte está aqui para ligar as duas coisas, desafiando a lei das contradição. Para que ela dê certo é preciso sacrificar – com um politeísmo moderado – nos altares de duas divindades: Mnemosyne e Lete.“
Mnemosyne: nome grego para a mãe das musas e titã da memória.
Lete: na mitologia grega um dos Rios do Hades. Palavra do grego antigo oposta à expressão grega alétheia (verdade), Lete ou Lhete, significa literalmente “esquecimento”
PS: aos hard usuários de pcs, vejam se a máquina não roda mais leve aliviando o hd e “de-letando” algumas coisinhas supérfluas.




