Refletindo História, Memória e Patrimônio

[4] Contra o pavor da perecibilidade: Memória (Vide Bula)

Parece, portanto, que aquela aceleração relativa de tempo iniciada com a modernidade juntamente a todas as mudanças impostas por aquela experiência imprimiram no homem um “pavor da perecibilidade”. Tudo é efêmero. A sensação de que tudo lhe escapa não é confortável, ainda que seja a este homem já experimentado pela modernidade. O mesmo homem que “empreende novidades” é o que busca também um certo refúgio no passado, o que constroe seus museus particolares, sejam esses coleçoes, albuns de fotografias, uma caixa de cartas velhas ou ainda as modalidades de cultuar a propria memoria online, sejam albuns de fotografia, videos, recados de amigos, depoimentos, historico de conversas etc. Esta especie de auto-musealizaçao para o homem contemporaneo é uma das tentativas de se criar um sustentáculo, algo que possa aplacar esta aceleração que transcende a ele mesmo. Entao temos um paradoxo aqui: ao mesmo tempo que a contemporaneidade parece se acelerar cada vez mais, o homem busca subterfúgios na memória para conter ou confortar o seu “pavor da perecibilidade”.

“Pavor da perecibilidade”. Direi que o pavor que o homem sente não é exatamente o de perecer, mas o de perder definitivamente seus referenciais no passado, nas suas supostas origens ou em qualquer coisa que pudesse lhe oferecer sustento, apoio, estabilidade, tendo em vista que o seu “horizonte de expectativas” é cada vez mais amplo e não se sabe o que esperar do futuro. No devir o imprevisivel assusta entao olhamos para tras, como se tudo no passado fosse estatico e pudesse nos dar alguma certeza. A denuncia feita por Marc Bloch (1949) de que no senso comum as origens “sao um começo que explica” ou que “basta para explicar”, como vemos, continua atual.

E futuro… O que é futuro? Aliás, o que é passado e como delimitar o que é presente hoje se a todo tempo, devido a já referida aceleração, parece que o que aconteceu ontem já “virou história”? Ao discutirmos historia, memoria e patrimonio devemos sempre ter presente esta “dificuldade” em delimitar exatamente as fronteiras temporais. A distinçao entre passado, presente e futuro hoje tem linhas muito diafanas. Aqui cabe ainda uma observaçao acerca da aceleraçao do tempo: nao podemos deixar de considerar que o advento da internet contribuiu muito significativamente para as modificaçoes na relação do homem com as informaçoes e o tempo. As notícias chegam a todo tempo pela TV e pela internet, jornais e revistas fisicos e eletronicos, a correspondencia eletronica, o viajar o mundo virtualemente, o “estar” em mais de um lugar ao mesmo tempo… um sujeito acaba por participar deste novo processo de comunicaçao seja ativo que passivamente, quero dizer, estas transformaçoes afetam a vida mesmo daqueles que nao acessam diretamente a internet e que inevitavelmente participam desta nova cadeia comunicativa ainda que involuntariamente/indiretamente. Sobre o par internet e historia, escreve Stefano Vitali do Arquivo de Estado de Florença que quem navega nao tem como nao ficar impressionado com o “caleidoscopio multiforme de representaçoes do passado” (traduçao livre) que se encontra na rede e ainda. Fica a sensaçao de que todo este “novo” ja nao pode mais ser definido pela palavra globalizaçao. Contudo, definir o “novo” e indicar as modalidade de participaçao de cada individuo e o grau mutaçao que cada uma pode trazer para a sociedade nao é o nosso objetivo aqui, porém é indispensavel ter em mente essa discussao do novo modus operandi do mundo da comunicaçao e das relaçoes interpessoais se queremos discutir memoria hoje.

Voltando: a ruptura pela modernidade na pré-existente concepção do tempo linear, fez também com que a humanidade tivesse suas referências no passado, de certa forma, “embaçadas”. Desta forma, desenhou-se este panorama de procura exagerada pela memória, como um recuo no tempo capaz de garantir a manutençao dos referenciais. Mas nao pensemos que isto se de de maneira completamente consciente. Participamos do culto a memoria quase sempre sem perceber, instintivamente. Como quando compramos um produto do qual fomos cativados atravées de um propaganda nao muito explicita e demensagens subliminares, no esfera de nossas vidas em que fazemos apelo ao passado nao costumamos classificar e interpretar nossas atitudes, simplesmente agimos, agimos “naturalmente”. Seria um pouco esquizofrenico pensar um mundo em que cada individuo que cumprisse um ato em prol da sua memoria o analizasse e interpretasse metodicamente, porém me parece muito mais estranho pensar em um mundo assim, no qual os profissionais encarregados da historia nao se detenham a analisar, problematizar e dessecar cada novo approuch do homem com a sua memoria e a memoria coletiva, quero dizer, cabe a nos historiadores estudar e sistematizar este “novo” se queremos evitar a nossa esquizofrenia e me parece que o conceito em questao agora é justamente o da memoria. A brincadeirinha “vide bula” é justamente para aludir que a memoria, nao é somente um conceito, uma abstraçao, que pertence a uma categoria da qual nos ocupamos, mas que essa memoria tem “usos”, finalidades e, como tal, tem consenquencias, tem seus efeitos colaterais. Para os grupos que ja perceberam e vivem esse novo mundo da memoria de forma consciente e se preocupam em estuda-la, nao é novidade que a memoria possa também ser um instrumento politico. Cabe a nos, portanto, escrever a bula!

*aguarde continuaçao no proximo post: [5] Monumento – Documento

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