Refletindo História, Memória e Patrimônio

[6] Conclusao: Quem escolhe o que lembrar e esquecer

Embora a sociedade esteja vivendo os efeitos da modernidade e vivencie dia-a-dia este medo do “tudo esquecer” e, se apegue portanto, aos novos discursos de memória e isto desencadeie o que presenciamos hoje acerca da criação de novos espaços museológicos, da conservação de parques, paisagens naturais, monumentos, ainda devemos considerar um outro lado da moeda, aquele não aparente que está atrelado a satisfação de interesses de grupos e instituições específicas que sabem usar o discurso a seu favor. Seja por interesses políticos ou econômicos, com o poder de sedução exercido pela memória nas pessoas desta sociedade inflamada por esta sina do “tudo lembrar”, “tudo esquecer”, os grupos e/ou instituições interessadas em se favorecerem podem ter em suas mãos uma potente arma de “controle” desta sociedade que já está “viciada” nestes discursos de memória. O grande público – o público que lê a História pela lente do senso comum – não està preparado com os filtros e instrumentos necessarios para observar e apreender com clareza e autonomia de julgamento toda a simbologia presente nesta atmosfera de “mercantilização da memória”, desta forma, ficam expostos a diversas mensagens subliminares (conflitantes ou não) por parte dos que “vendem” ou oferecem estas memórias. Seja em museo, seja passando por uma praça onde tem um determinado monumento, seja aravés de um programa de TV ou mesmo de campanhas publicitárias nos rádios e ruas, as pessoas são o tempo toda atingidas e estimuladas pelas imagens presentes nestes espaços e, não são capazes de ler nas entre-linhas o teor destes discursos histórico-ideologicos. Cabe também observar o crescente numero de nao-historiadores que cada vez mais se dedicam a tratar de Historia (dentro ou fora do contexto da internet).

Embora por um lado o que descrevemos pareça “vulgarizar” a disciplina História, entendemos que, pelo contrário, os problemas presentes na conjuntura exposta aqui apresentam excelentes objetos para serem explorados pelo historiador do século XXI e que este terá ainda maiores desafios a medida em que o tempo passar pois se intensificam os conflitos de interesses, se aumentam as transformações e desta forma, as variantes deste problema contemporâneo da História se tornam cada vez mais complexas. Vale assinalar a problematica que este site escolheu para debater em primeiro plano, qual seja, a das novidades que a historiografia digital traz para o campo, tematica cuja discussao esta apenas no seu alvorecer.

Antes de encerrar o texto, mais duas palavras sobre o interesse economico e a aplicabilidade política destes discursos de memória atuais. Estes podem ser usados para enfatizar uma determinada “visão” de um fato, uma interpretação, podem ser usados para reforçar um ideal patriótico, presentificar/lembrar um personagem/um evento, como também podem acabar – propositalmente ou não – causando outras impressões no “receptor” da mensagem. Para ilustrarmos, digamos que em uma construção do século XIII tenham sido feitas várias restaurações sem se seguir a “anastilose” (queé pela restauraçaodo conjunto original), possívelmente o que estará sendo lembrado na atualidade não será extamente o prédio do século XIII; Outro exemplo são os monumentos erguidos “ao esquecimento”, como a metáfora do escrever para lembrar e acabar esquecendo, isto é, existem monumentos que ao invés de fazer presente aquilo que representam acabam por catalisar o seu esquecimento, tornando um determinado objeto corriqueiro, introduzindo-o de tal forma na rotina das pessoas que em certa medida lhe atribui uma sorte de banalidade capaz em alguns casos de fazer com que o referido “evento” ou “personagem” lembrado ali passe sem ser percebido em determinadas paisagens.

Em suma, o papel do historiador diante do fenômeno da patrimonializaçao enquanto um problema da contemporaneidade deve começar por um olhar meticulosamente crítico, sem preconceitos, e atento aos não-ditos [ver CASSIRER, Ernst] de todos os novos discursos de memória. Desta forma, a leitura da Carta de Atenas apresenta uma expressiva carga simbólica do que representam (ou se quer que representem) estes monumentos – “obras-primas nas quais a civilização se tenha expressado em seu nível mais alto”. Abaixo transcreve-se a letra “b” do item “VII – A Conservação dos Monumentos e a Colaboração Internacional”:

“A conferência, profundamente convencida de que a melhor garantia de conservação de monumentos e obras de arte vem do respeito e do interesse dos próprios povos, considerando que esses sentimentos podem ser grandemente favorecidos por uma ação apropriada dos poderes públicos, emite o voto de que os educadores habituem a infância e a juventude a se absterem de danificar os monumentos, quaisquer que eles sejam, e lhes façam aumentar o interesse de uma maneira geral pela proteção dos testemunhos de toda a civilização.”

Parece, a partir da leitura da carta e, específicamente desde trecho, que a sociedade não só busca por conta própria se agarrar às memórias dos monumentos, como também é incentivada a isto, como se ve a parti desta recomendaçao, como um discurso de cima pra baixo, ao quel se recomenda muita atençao porque como se ve os monumentos patrimonializados aos quais as pessoas se “agarram” nao sao plenamente escolhidos por elas, mas sim por uma instituiçao. Tal escolha, sem duvidas, nao é nem casual, nem despretensiosa.

One comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s