Month: June 2008

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[6] Conclusao: Quem escolhe o que lembrar e esquecer

Embora a sociedade esteja vivendo os efeitos da modernidade e vivencie dia-a-dia este medo do “tudo esquecer” e, se apegue portanto, aos novos discursos de memória e isto desencadeie o que presenciamos hoje acerca da criação de novos espaços museológicos, da conservação de parques, paisagens naturais, monumentos, ainda devemos considerar um outro lado da moeda, aquele não aparente que está atrelado a satisfação de interesses de grupos e instituições específicas que sabem usar o discurso a seu favor. Seja por interesses políticos ou econômicos, com o poder de sedução exercido pela memória nas pessoas desta sociedade inflamada por esta sina do “tudo lembrar”, “tudo esquecer”, os grupos e/ou instituições interessadas em se favorecerem podem ter em suas mãos uma potente arma de “controle” desta sociedade que já está “viciada” nestes discursos de memória. O grande público – o público que lê a História pela lente do senso comum – não està preparado com os filtros e instrumentos necessarios para observar e apreender com clareza e autonomia de julgamento toda a simbologia presente nesta atmosfera de “mercantilização da memória”, desta forma, ficam expostos a diversas mensagens subliminares (conflitantes ou não) por parte dos que “vendem” ou oferecem estas memórias. Seja em museo, seja passando por uma praça onde tem um determinado monumento, seja aravés de um programa de TV ou mesmo de campanhas publicitárias nos rádios e ruas, as pessoas são o tempo toda atingidas e estimuladas pelas imagens presentes nestes espaços e, não são capazes de ler nas entre-linhas o teor destes discursos histórico-ideologicos. Cabe também observar o crescente numero de nao-historiadores que cada vez mais se dedicam a tratar de Historia (dentro ou fora do contexto da internet).

Embora por um lado o que descrevemos pareça “vulgarizar” a disciplina História, entendemos que, pelo contrário, os problemas presentes na conjuntura exposta aqui apresentam excelentes objetos para serem explorados pelo historiador do século XXI e que este terá ainda maiores desafios a medida em que o tempo passar pois se intensificam os conflitos de interesses, se aumentam as transformações e desta forma, as variantes deste problema contemporâneo da História se tornam cada vez mais complexas. Vale assinalar a problematica que este site escolheu para debater em primeiro plano, qual seja, a das novidades que a historiografia digital traz para o campo, tematica cuja discussao esta apenas no seu alvorecer.

Antes de encerrar o texto, mais duas palavras sobre o interesse economico e a aplicabilidade política destes discursos de memória atuais. Estes podem ser usados para enfatizar uma determinada “visão” de um fato, uma interpretação, podem ser usados para reforçar um ideal patriótico, presentificar/lembrar um personagem/um evento, como também podem acabar – propositalmente ou não – causando outras impressões no “receptor” da mensagem. Para ilustrarmos, digamos que em uma construção do século XIII tenham sido feitas várias restaurações sem se seguir a “anastilose” (queé pela restauraçaodo conjunto original), possívelmente o que estará sendo lembrado na atualidade não será extamente o prédio do século XIII; Outro exemplo são os monumentos erguidos “ao esquecimento”, como a metáfora do escrever para lembrar e acabar esquecendo, isto é, existem monumentos que ao invés de fazer presente aquilo que representam acabam por catalisar o seu esquecimento, tornando um determinado objeto corriqueiro, introduzindo-o de tal forma na rotina das pessoas que em certa medida lhe atribui uma sorte de banalidade capaz em alguns casos de fazer com que o referido “evento” ou “personagem” lembrado ali passe sem ser percebido em determinadas paisagens.

Em suma, o papel do historiador diante do fenômeno da patrimonializaçao enquanto um problema da contemporaneidade deve começar por um olhar meticulosamente crítico, sem preconceitos, e atento aos não-ditos [ver CASSIRER, Ernst] de todos os novos discursos de memória. Desta forma, a leitura da Carta de Atenas apresenta uma expressiva carga simbólica do que representam (ou se quer que representem) estes monumentos – “obras-primas nas quais a civilização se tenha expressado em seu nível mais alto”. Abaixo transcreve-se a letra “b” do item “VII – A Conservação dos Monumentos e a Colaboração Internacional”:

“A conferência, profundamente convencida de que a melhor garantia de conservação de monumentos e obras de arte vem do respeito e do interesse dos próprios povos, considerando que esses sentimentos podem ser grandemente favorecidos por uma ação apropriada dos poderes públicos, emite o voto de que os educadores habituem a infância e a juventude a se absterem de danificar os monumentos, quaisquer que eles sejam, e lhes façam aumentar o interesse de uma maneira geral pela proteção dos testemunhos de toda a civilização.”

Parece, a partir da leitura da carta e, específicamente desde trecho, que a sociedade não só busca por conta própria se agarrar às memórias dos monumentos, como também é incentivada a isto, como se ve a parti desta recomendaçao, como um discurso de cima pra baixo, ao quel se recomenda muita atençao porque como se ve os monumentos patrimonializados aos quais as pessoas se “agarram” nao sao plenamente escolhidos por elas, mas sim por uma instituiçao. Tal escolha, sem duvidas, nao é nem casual, nem despretensiosa.

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[5] Monumento – Documento

Do mesmo modo que um historiador interroga um documento histórico (fonte) ele pode também interrogar um monumento, ainda que para isso use metodologias diferentes, mas na essência, aquele prédio/contrução antes de se tornar monumento, tinha seu valor histórico adormecido, e só quando convocado a “monumentalização” é que este valor se evidenciava de fato. É como um documento ao qual o historiador dirige uma pergunta o tornando uma fonte (salvo as suas especificidades), no processo que Michel de Certeau chama de “operação histórica”. Nesta comparação, entendemos que se podemos extrair dos documentos algum sentido histórico, o mesmo pode ser feito com um monumento, a partir do qual, algumas pistas, alguns indícios, sob o olhar de um especialista podem revelar detalhes sobre o passado poispatrimonializar é também uma forma de ritualizar a passagem do tempo.

Ja compreendemos que o processo de patrimonialização em discussão é fruto desta demanda exagerada pela memória na sociedade contemporânea filha da modernidade da qual já falamos longamente neste texto. Tendo isto em vista, consideramos que também o papel do historiador diante destas modificações todas deve ser o de ter um olhar sem preconceitos, capaz de somar esforços com outras áreas (arquiteturas, arqueologia, museologia, antropologia) para se debruçar sobre estes novos problemas da memória social e ser capaz de extrair de sua análise algum conhecimento sobre o passado. Jamais houve um período em que tanto se conservou e se destruiu tanto como estes últimos anos após a Segunda Guerra Mundial, é Choay quem nos chama atenção para isto e também para o fato de que “é impossível tudo conservar” no seu prefácio à obra de Riegl O culto moderno dos monumentos. O historiador deve estar antenado a todas estas modificações e pronto para investigar, além das aparências, o que estas significam. O historiador precisa compreender em seus detalhes o que significa a atual tensão entre lembrar e esquecer, já antecipada por Freud quando ele dizia que a memória é apenas uma forma de esquecimento e o esquecimento uma outra forma de memória. Só podemos lembrar de algo quando o esquecemos e não é possível lembrar tudo ao mesmo tempo, uma recordação total é impossível e, neste sentido, há de se olhar desconfiados para o exagero entorno da monumentalização de “tudo”. Até mesmo patrimonios imaterias de nossa cultura estão sendo “patrimonializados”, cadastrados, salvaguardados por recomendações de um órgão como a UNESCO.

*aguarde continuaçao no proximo post: [6] Conclusao: Quem escolhe o que lembrar e esquecer

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[4] Contra o pavor da perecibilidade: Memória (Vide Bula)

Parece, portanto, que aquela aceleração relativa de tempo iniciada com a modernidade juntamente a todas as mudanças impostas por aquela experiência imprimiram no homem um “pavor da perecibilidade”. Tudo é efêmero. A sensação de que tudo lhe escapa não é confortável, ainda que seja a este homem já experimentado pela modernidade. O mesmo homem que “empreende novidades” é o que busca também um certo refúgio no passado, o que constroe seus museus particolares, sejam esses coleçoes, albuns de fotografias, uma caixa de cartas velhas ou ainda as modalidades de cultuar a propria memoria online, sejam albuns de fotografia, videos, recados de amigos, depoimentos, historico de conversas etc. Esta especie de auto-musealizaçao para o homem contemporaneo é uma das tentativas de se criar um sustentáculo, algo que possa aplacar esta aceleração que transcende a ele mesmo. Entao temos um paradoxo aqui: ao mesmo tempo que a contemporaneidade parece se acelerar cada vez mais, o homem busca subterfúgios na memória para conter ou confortar o seu “pavor da perecibilidade”.

“Pavor da perecibilidade”. Direi que o pavor que o homem sente não é exatamente o de perecer, mas o de perder definitivamente seus referenciais no passado, nas suas supostas origens ou em qualquer coisa que pudesse lhe oferecer sustento, apoio, estabilidade, tendo em vista que o seu “horizonte de expectativas” é cada vez mais amplo e não se sabe o que esperar do futuro. No devir o imprevisivel assusta entao olhamos para tras, como se tudo no passado fosse estatico e pudesse nos dar alguma certeza. A denuncia feita por Marc Bloch (1949) de que no senso comum as origens “sao um começo que explica” ou que “basta para explicar”, como vemos, continua atual.

E futuro… O que é futuro? Aliás, o que é passado e como delimitar o que é presente hoje se a todo tempo, devido a já referida aceleração, parece que o que aconteceu ontem já “virou história”? Ao discutirmos historia, memoria e patrimonio devemos sempre ter presente esta “dificuldade” em delimitar exatamente as fronteiras temporais. A distinçao entre passado, presente e futuro hoje tem linhas muito diafanas. Aqui cabe ainda uma observaçao acerca da aceleraçao do tempo: nao podemos deixar de considerar que o advento da internet contribuiu muito significativamente para as modificaçoes na relação do homem com as informaçoes e o tempo. As notícias chegam a todo tempo pela TV e pela internet, jornais e revistas fisicos e eletronicos, a correspondencia eletronica, o viajar o mundo virtualemente, o “estar” em mais de um lugar ao mesmo tempo… um sujeito acaba por participar deste novo processo de comunicaçao seja ativo que passivamente, quero dizer, estas transformaçoes afetam a vida mesmo daqueles que nao acessam diretamente a internet e que inevitavelmente participam desta nova cadeia comunicativa ainda que involuntariamente/indiretamente. Sobre o par internet e historia, escreve Stefano Vitali do Arquivo de Estado de Florença que quem navega nao tem como nao ficar impressionado com o “caleidoscopio multiforme de representaçoes do passado” (traduçao livre) que se encontra na rede e ainda. Fica a sensaçao de que todo este “novo” ja nao pode mais ser definido pela palavra globalizaçao. Contudo, definir o “novo” e indicar as modalidade de participaçao de cada individuo e o grau mutaçao que cada uma pode trazer para a sociedade nao é o nosso objetivo aqui, porém é indispensavel ter em mente essa discussao do novo modus operandi do mundo da comunicaçao e das relaçoes interpessoais se queremos discutir memoria hoje.

Voltando: a ruptura pela modernidade na pré-existente concepção do tempo linear, fez também com que a humanidade tivesse suas referências no passado, de certa forma, “embaçadas”. Desta forma, desenhou-se este panorama de procura exagerada pela memória, como um recuo no tempo capaz de garantir a manutençao dos referenciais. Mas nao pensemos que isto se de de maneira completamente consciente. Participamos do culto a memoria quase sempre sem perceber, instintivamente. Como quando compramos um produto do qual fomos cativados atravées de um propaganda nao muito explicita e demensagens subliminares, no esfera de nossas vidas em que fazemos apelo ao passado nao costumamos classificar e interpretar nossas atitudes, simplesmente agimos, agimos “naturalmente”. Seria um pouco esquizofrenico pensar um mundo em que cada individuo que cumprisse um ato em prol da sua memoria o analizasse e interpretasse metodicamente, porém me parece muito mais estranho pensar em um mundo assim, no qual os profissionais encarregados da historia nao se detenham a analisar, problematizar e dessecar cada novo approuch do homem com a sua memoria e a memoria coletiva, quero dizer, cabe a nos historiadores estudar e sistematizar este “novo” se queremos evitar a nossa esquizofrenia e me parece que o conceito em questao agora é justamente o da memoria. A brincadeirinha “vide bula” é justamente para aludir que a memoria, nao é somente um conceito, uma abstraçao, que pertence a uma categoria da qual nos ocupamos, mas que essa memoria tem “usos”, finalidades e, como tal, tem consenquencias, tem seus efeitos colaterais. Para os grupos que ja perceberam e vivem esse novo mundo da memoria de forma consciente e se preocupam em estuda-la, nao é novidade que a memoria possa também ser um instrumento politico. Cabe a nos, portanto, escrever a bula!

*aguarde continuaçao no proximo post: [5] Monumento – Documento

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[3] Na pós-modernidade patrimonializamos

A pós-modernidade é imersa em grandes transformações. A todo tempo o homem “empreende novidades”. São novos desejos; novas culinárias; novos modelos de carro, de casa, de roupa; descobertas no espaço; a invenção e as constantes inovações do ciberespaço; se fazem muitas descobertas também no campo das biologias, inclusive biotecnologias; etc. A globalização é real e a metáfora da diminuição do globo é somente virtual, o que não significa que as pessoas estejam mais próximas. A vulgarmente chamada “correria” é apenas uma das formas que denunciam a revaloraçao do tempo. Tudo é aindamuito fluido para se dizer que novo valor é esse. Nem mesmo sabemos se queremos de fato atribuir um valor. Na pos-modernidade a liquidez dos conceitos é a queda dos absolutos. Por outro lado porém, o contraste:a patrimonializaçao parece querer resgatar a concretude, parece fazer, vulgarmente falando, um back-up dos nossos referenciais, teoricamente acessivel a todos… uma busca por estabilidade e absolutos em meio a um surto de relativismos numa realidade por nada estatica.

Entao por que monamentalizar e patrimonializar? De onde vem este apego ao passado, este querer de memória?

A resposta para esta questão tem uma dimensão subjetiva que só pode ser compreendida a luz da história cultural, que nao teve muito espaço com a historia social. Para entendermos esta crescente busca pela memória, podemos recorrer às causas do que Beatriz Sarlo chama de “mercantilização da memória”. Isto é, o processo de vender e comprar memória, o que implica dizer, necessariamente, que existe uma demanda por esta memória e, se vem num crescente este processo, isto nos aponta que esta demanda encontrou ecos e està aumentando continuamente.

A razão para uma simples busca pela memória poderiam ser muitas e variadas, imaginemos por exemplo que algumas pessoas poderiam – destacadamente – querer comprar ou preservar objetos que lhes resgatassem a memória simplesmente por um despretensioso capricho ou por uma mania, o que poderiamos ler também como um hobby, entretanto seria ingênuo e muito simplista usar o hobby como explicação para o que vivemos hoje e seria inadequado pensar desta forma pois teríamos que conceber a grande coincidência de um hobby de massas. A questão que se coloca por trás deste grande apego à memória tem raízes em todas aquelas transformações que explicitamos anteriormente. É sob esta perspectiva que nos convém pensar a patrimonialização, entendendo que este é um fenômeno que reflete toda esta grande busca pela memória, algo que é sintomático e, apesar de esta parecer uma discussão muito do campo das idéias, medidas concretas foram tomadas para “normatizar” ou viabilizar a normatização, a criação de códigos comuns para que os países pudessem “cuidar” (no sentido de conservação) dos seus patrimônios. Atualmente existe todo um aparato estatal envolvido na conservação do patrimônio e este assunto vem sendo discutido, inclusive em conferências internacionais, começando pela que originou a Carta de Atenas, de 1931, onde se discutiu, pela primeira vez em um âmbito supra-nacional, a questão da preservação dos monumentos históricos, se dedicando principalmente a estabelecer regras sobre a administração, restauração e conservação dos monumentos.

Para ilustrar apenas um caso onde junto com a patrimonializaçao outras medidas que dizem respeito ao tratamento da “memoria” sao tomadas vale dizer que em 2005 a ONU instituiu o dia 27 de janeiro como o Dia Mundial da Memoria (em memoria das vitimas do holocausto), nao por acaso em 2003 começava a a ser construçao do Memorial para os Judeus Assassinados da Europa, em Berlim, cujo projeto tinha sido idealizado em 1999 pelo parlamento alemao, assim como o dia 27 de janeiro ja era considerado desde 1996 o dia da memória das vítimas do nazismo, pois a data marca a libertação dos judeus do campo de concentração de Auschwitz em 1945.

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[2] Aceleraçao do tempo e o culto aos monumentos

Nos paragrafos introdutorios dessa reflexao insistimos bastante sobre a importância da modernidade para a discussão das mudanças na concepção da temporalidade pois, no que concerne a nossa proposição em refletir sobre o fenômeno da patrimonialização, a modernidade introduz um elemento indispensável à nossa argumentação sobre os porquês de tal fenômeno, qual seja este elemento, a aceleração do tempo. Ou seja, aquela sensação que coloquialmente descrevemos como um tempo que “passa voando”.

A modernidade inaugura desta forma um momento no qual a velocidade das transformações, dos acontecimentos e eventos, tambéem em escala mundial se elevou consideravelmente. Após as revoluçoes industriais dos séc. XVIII e XIX e com as novas tecnologias de transporte e comunicação, as distâncias físicas entre os espaços foram relativamente reduzidas o que implica em mais transformações, como por exemplo, na maneira do homem utilizar o seu tempo no dia-a-dia, de se relacionar com as pessoas, nas formas de trabalho, mudanças na paisagem seja urbana ou rural, etc. Então, este contexto transformações tem marcos de expoência distinta, como a Revolução Francesa e, com um olhar mais antropológico, as pequenas, porém significativas mudanças no cotidiano das pessoas. Assim, compreendemos que a modernidade traz consigo uma nova visão de mundo ou, para melhor servir à nossa argumentação, um novo homem, com novos desafios, novos conflitos, novas tendências, novos medos e poderes (capacidades).

As ciências tecnológicas se dedicam a novas descobertas e as ciências humanas ganham também importantes contribuições de caráter inédito. Lembremos que o século XIX instaurou a História como disciplina e, embora o nosso interesse aqui não seja meditar sobre a significação da instituição desta disciplina, isto não pode ficar omisso no panorama de transformações que ensejamos traçar aqui. Há de se considerar portanto, o peso de se dedicar a esta disciplina uma cadeira exclusiva, isto é, admiti-la como autônoma e que deve, necessariamente, ser ensinada como tal. Há também de se somar no mesmo aspecto, a emergência da psicanálise de Sigmund Freud para, que da seus primeiros passos em um periodo de grande efervescência artística, cultural, social e científica que marcou a Viena contemporânea de Aloïs Riegl, que escreve O culto moderno dos monumentos, dedicando-se a pensar a questão como nos descreve Choay:

“Ele se vale de todo o seu saber e experiência como historiador de arte e conservador de museu para empreender uma análise crítica da noção de monumento histórico. Este não é abordado apenas sob uma perspectiva profissional, como a de Boito, mas tratado como um objeto social e filosófico. Só a investigação do sentido ou dos sentidos atribuídos pela sociedade ao monumento histórico permite fundar uma prática. Daí uma dupla abordagem – histórica e interpretativa.”

Riegl escreve sobre o culto aos monumentos de forma que nos leva a compreender a obsessão pela preservação, pela conservação destes, demonstrando-nos que de certa forma estes monumentos foram “sacralizados” pela sociedade. Se tornamos ao pensamento anterior sobre a aceleração do tempo percebemos a realação que se estabelece entre esta, o culto aos monumentos e a modernidade, já denunciada por Viollet-le-Duc quando a respeito de restauração – esta diretamente relacionada a preservação dos monumentos – nos diz “a palavra e o assunto são modernos”.

*aguarde continuaçao no proximo post: [3] Na Pos-Modernidade patrimonializamos

Refletindo História, Memória e Patrimônio

Estamos vivendo um intenso movimento de preservação da memória. As sociedades contemporâneas sofreram uma profunda alteração na sua relação com o tempo e o conjunto de fatores responsáveis por este processo culminou na instauração de um regime presentista do tempo atrelado à experiência moderna. Estas transformações trouxeram consigo uma mudança também no que diz respeito à relação do homem com o seu passado, revelando-se questão de escopo muito maior no tocante às mutações na compreensão da temporalidade e o papel do historiador diante dos novos problemas que desta forma se apresentam para pensar a passagem do tempo na contemporaneidade. E’ sob esta exacerbada patrimonialização experimentada atualmente em escala internacional que os proximos posts vao discutir, recuperando e editando um artigo meu elaborado para o final do curso de Historia, Memoria e Patrimonio, com o Prof. Manoel Salgado no II semestre 2007.

[1] Introduçao: Uma nova concepçao do tempo

É inescapável, para compreender as alterações nas relações do homem com o tempo, lançarmos mão das categorias “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” de Koselleck, que as pensa no âmago da experiência moderna. Segundo ele, elas fecundam a modernidade marcada por um esgarçamento entre estas categorias, que ele chama de antropológicas, pois são inerentes à condição humana enquanto recordações ou lembranças do que passou e esperança, prognósticos do que estar por vir. Koselleck não pensa o tempo como um dado da natureza e tão pouco segue a concepção de cronologia de Descartes. Para ele, o passado pode ser compactado no presente e o futuro, por sua vez, como ainda admite diversas possibilidades de realizações, é também presentificado, mas fica disperso numa infinidade de momentos. A modernidade passa a comportar sob esta perspectiva um forte presentismo, pois se presentificam passado e futuro, ainda que de maneiras distintas, a partir da ruptura com uma perspectiva linear da História, simbolizado pelo ja referido esgarçamento, que torna a modernidade um lugar de novidade no qual se pode assumir a existência de um imprevisível, ou o “impredizivel” [ARENDT, Hannah], que permite a transcendentalização da História.

Embora seja impreciso datar suas exatas origens, fica patente com isso que a modernidade é a “mãe” das transformações que nos propusemos a analisar, pois foi no bojo da experiência moderna que foi modificada radicalmente a maneira do homem lidar com a dimensão temporal e a passagem do tempo, logo se alteraram e se criaram-se novas formas de narrativas de passado, o que implica dizer que o historiador passa a se defrontar com uma nova semântica do tempo experimentada sobretudo a partir da Revolução Francesa. Ainda outra experiência a causar impactos na maneira de se compreender a História, alterando a forma do homem lidar com a memoria, é a atordoante experiencia do Holocausto (posteriormente resignificada e “globalizada”). Foi no embalo destas experiências que se configurou então, a nova relação do homem com a memória.

*aguarde continuaçao no proximo post: [2] Aceleraçao do tempo e o culto aos monumentos

Referências textuais na Era do Digital

A escrita da Historia, na concepção antiga, pretendia registrar e relatar os grandes feitos dos homens, mas este não seria mais um relato das musas, seria agora um relato comprometido em “expor os fatos como eles foram”. Para diferenciar-se das narrativas fantasiosas e poéticas de até então, a partir de Heródoto, torna-se necessário recorrer a um mecanismo de “fazer crer”,que legitimaria “ alguma verdade” na narrativa, ainda que ela contivesse algum remanescente traço fantasioso . E’ neste entendimento, de que é necessário “validar” a narrativa para atender a estes pressupostos que Heródoto vai recorrer como trata Hartog em seu “O Espelho de Heródoto” ao mecanismo da autopsia como um dos possíveis, e principal meio para alcançar o escopo de “tornar crível” a narrativa. Através da referencia “eu vi” era possível convencer o leitor de que o autor realmente teria presenciado aquilo que narrava e por esta razão recobraria à sua narrativa uma maior fidedignidade em relação àquelas escritas por narradores que não foram testemunhas oculares, que só ouviram a narrativa de determinado fato. O “ver”, portanto era para aquela concepção de historia uma espécie de chancela de qualidade, de confiabilidade, uma característica “marca de enunciação”. Hoje chamamos de referencia aquilo que lemos, e a voz “eu li” vem subentendida nas nossas notas de rodapé, ou se quisermos, no cenário da nossa historiografia digital, este eu li vem na forma de hipertextos.

Entre aquilo que lemos e o que produzimos existe uma grande diferença, e podemos até dizer, uma distancia insuperável, na medida em que as interpretações são particulares e também variam de acordo com a institucionalidade e contexto de produção de cada texto.

Cada sujeito carrega consigo uma carga de subjetividade singular com a qual assina seus textos. Portanto não existe uma correspondência absoluta entre as fontes e o que vem produzido pelo historiador, este não faz simplesmente um “recorta e cola” de informações, pois o passado não é um dado objetivo a ser extraído das fontes como queria Ranke. A autopsia, então, não pode ser considerada um “legitimador” perfeito e indeturpavel para garantir a maior verdade de um texto chancelado por esta. O mesmo raciocínio serve também para o sistema referencial que usamos hoje, não é o numero de dezenas de fontes bibliográficas consultadas e nem a quantidade de links referidos a atribuir maior ou menos valor (de verdade) a um texto. A qualidade de um texto esta amarrada ao conjunto compressivo de todos os passos que constituem uma pesquisa, desde o surgimento de um questionamento, à seleção e tratamento das fontes, até as etapas finais de escrita e elaboração de hipóteses, a depender finalmente, recorrendo mais uma vez a Hartog, das chamadas “condições de visibilidade”, determinadas não só pela paisagem escolhida, mas também pelo observador-narrador e de como este participa as suas experiências pessoais no seu trabalho. São duas as historias que se misturam no processo de escrita, a “historia do visível” e a “historia do olho”.

Hoje a subjetividade nao é mais algo tao velado e estamos ja acostumados ao “esse é o MEU ponto de vista” embutido em cada texto. Porém, continua indispensavel respaldar aquilo que se esta dizendo, em quaisquer situaçao, logo continuamos em busca de chancelas de qualidade, selos para legitimar o que afirmamos. As marcas de enunciaçao, mas elas continuam presentes. Ainda é cedo para – do ponto em que me encontro da minha pesquisa (apenas no começo do começo) – afirmar algo categoricamente, e nem quero, apenas estive pensando como o uso dos hipertextos indiscriminadamente pode trazer confusão para a escrita de um texto. As clássicas referências bibliográficas são sempre verificáveis, e ainda se acessá-las manualmente se estas não estão disponíveis em formato digital exija mais tempo, a verificação pode ser feita em qualquer tempo. O problema que me coloco é como haver garantia de que o percurso de links que fazemos para construir um texto estará sempre disponível. Estou me referindo a velocidade como alguns endereços “saem do ar”, arquivos que se corrompem, e depois não conseguimos acessar o mesmo documento. O problema da conservação perante a obsolescência e fragilidade dos formatos digitais. Alguém se lembra dos disquetes? Eu assumo que fui vitima disso, não posso acessar muitos textos que guardei em disquete.

Então me pergunto: ao escrever um texto histórico a base de hipertextos qual será a chancela de qualidade (do nosso texto) e verificabilidade (das referencias usadas) para nossos leitores? Não nos serve somente indicar o “eu li” se não temos as garantias que o “lido” permanecera legível.

“Na Era Digital, se não fizermos nada para preservar a informação, perderemos tudo.” (Dietrich Schüller, IFAP Vice-President and Audiovisual Archive Specialist, 2007: Outcomes of the Open Thematic Debate on “Information Preservation”, UNESCO.)

Historiografia Digital

Buscando algumas informaçoes em Portugues sobre historiografia digital encontrei o paragrafo abaixo dentro ao Manifesto Historia a Debate que apresenta 18 proposta metodologicas, historiograficas e epistemologicas para os historiadores do séc. XIX.

As novas tecnologias estão a revolucionar o acesso à bibliografia e às fontes da história, ultrapassando os limites do papel tanto para a investigação como para a publicação, possibilitando o aparecimento de novas comunidades globais de historiadores. A Internet é uma poderosa ferramenta contra a fragmentação do saber histórico se for utilizada de acordo com sua identidade e possibilidades, isto é, como uma forma interactiva de transmitir informação instantânea de maneira horizontal a várias partes do mundo. Segundo o nosso critério, a historiografia digital deverá ser complementada com livros e outras formas convencionais de investigação, difusão e intercâmbio académicos, e vice-versa. Este novo paradigma da comunicação social não vai substituir, consequentemente, as actividades presenciais e as suas instituições seculares, mas formará parte, de uma maneira crescente, da vida académica e social real. A generalização da Internet no mundo universitário, e no conjunto da sociedade, assim como a educação informatizada dos jovens, tornará esta nova historiografia um factor  relevante da inacabada transição paradigmática entre o século XX e o XXI. [XI, Historiografia Digital]

Direi que o Manifesto resume bem as condiçoes nas quais nos deparamos com a historiografia digital. Resisto a aceitar, porém, que esta seja entao concebida como uma nova corrente historiografica, como uma proposta nova de fazer Historia, como parece indicar o paragrafo acima ao defender os metodos tradicionais de pesquisa. Entendo que a historiografia digital deva ser incorporada ao fazer cotidiano de cada historiador (e ja o é abondantemente sem que a percebamos), que nao deve ser vista como uma ferramenta guardada a 7 chaves para ser usada somente episodicamente quando necessaria na falta de “recursos” pelas vias aqui chamadas de convencionais a favor de conservar o romantico tradicional. Penso que nao deva ser a historiografia digital a ser complementada com o uso de livros (…etc etc), mas que a maneira convencional é que deve acolher mais este braço no auxilio de pesquisas, pois nao se trata de substituir ou sobrepor uma forma de pesquisa a outra, trata-se de compreender que enfim, nao podemos mais escapar à fatalidade que é ter a internet como aliada ao nosso trabalho. Nao percebo assim, a historiografia digital como uma nova proposta historiografica, direi que implica mudanças metodologicas (!) e “quissà” um ensinamento especifico do que esse novo metodo é capaz de oferecer.

Século XIX: História como disciplina

O século XIX foi marcado por uma série de debates intelectuais na Alemanha e havia também, uma disputa no que dizia respeito à interpretação da história, até o momento, dos outros, neste caso os franceses. Neste debate, Leopold Von Ranke se insere com um livro que trabalhava a construção da identidade alemã, no qual distanciou os alemães de qualquer relação com a idéia de barbárie, remontando uma ligação com a cultura greco-romana e esta obra foi recebida pela comunidade intelectual como uma resposta àquilo que ainda faltava ao povo alemão: entender quem ele é. Ao contrário dos franceses, que tinham como se identificar através de limites geográficos, os alemães, sem um território demarcado, ainda estavam perdidos, tentando levar em conta alguns critérios pouco objetivos como, por exemplo, a identificação através do idioma e outras maneiras ainda diáfanas de classificação. Ranke ofereceu aos alemães um trabalho que, valendo-se de uma abordagem factual, fez com que eles se identificassem finalmente. Em virtude desta contribuição de Ranke ao debate, foi criada para ele a cátedra de História na Universidade de Berlim, a partir disto, podemos imaginar o quanto foi importante, naquele momento, que se trabalhasse esta noção de identidade alemã e como fazer isto através da História se mostrou eficiente para pôr ordem no debate que estava estabelecido. A institucionalização da história como disciplina no espaço acadêmico prussiano, portanto, esteve diretamente ligada à criação da História da Alemanha, como parte da construção de uma identidade para o seu povo.

Esta nova disciplina se tornou uma forma de narrativa quase hegemônica sobre o passado, como tal, trouxe também toda uma metodologia própria, que num primeiro momento, foi pautada por aqueles aspectos que o próprio Ranke instaurou como necessários para a escrita da História, como ele a percebia. Sua percepção de História, diferentemente dos filósofos da história, partia da análise do particular para a compreensão do todo e isto era feito através da consulta de fontes históricas, que para ele, representavam o próprio passado. No entanto, precisava-se do historiador para “dar vida” a este passado. A partir da pesquisa documental, Ranke listava e organizava os fatos históricos, articulando-os com o contexto contemporâneo e dando-lhes forma. Para ele, isto seria a maneira mais imparcial, e por isso, correta, de fazer História, pois segundo ele, não caberia ao historiador emitir nenhuma opinião ou juízo de valor no que escrevia. Ranke acreditava no documento como o fato per se.

No entanto, esta maneira rankeana de conceber a história enfrentou algumas oposições, pois “a observação imediata só capta a concomitância e a seqüência das circunstâncias, jamais o contexto causal interno no qual exclusivamente se encontra a verdade essencial” [HUMBOLDT, Wilhelm] e em busca desta verdade e de tocar neste contexto interno, manifestaram-se outros projetos de escrita da história. A produção historiográfica do século XIX foi julgada, a posteriori, como homogênea, pela escola dos Annales. Tal julgamento deveu-se ao fato desta escola querer se opor à Ranke de forma que pudesse se classificar por aquilo que ela não é. Entretanto, o século em questão, apresentou sim, outras maneiras de produzir História, que não através da factualidade pura, que supervalorizava a pesquisa documental.

Como demonstrou Wilhelm von Humboldt em seu ensaio “Sobre a tarefa do Historiador”, fazer História pressupõe um trabalho que vai além da simples descrição dos fatos, baseados na pesquisa documental. Para Humboldt, este seria apenas um primeiro momento da escrita da História, uma fase descritiva, reprodutiva e não-criativa. É neste ponto em que há um embate com o modelo concebido por Ranke. Tomando o já citado trabalho de Humboldt para comentar este embate, podemos dizer que, justamente aquilo que Ranke considera execrável para a escrita da História, é o que completaria o seu trabalho. Estamos falando da etapa criativa desta produção, a etapa em que o historiador tem o papel principal e não as fontes. De posse dos resultados desta primeira etapa, o historiador buscaria aquilo que Humboldt chamou de “verdade interna”. E neste momento sua subjetividade, muito embora, fosse inerente, mesmo na primeira etapa, vai ajudá-lo a contemplar as demais exigências para um processo completo de uma escrita da história, que para Humboldt, seria cumprir uma etapa criativa, na qual o historiador é comparado a um poeta, pois faz uso de uma capacidade imaginativa, até mesmo de intuição, sem que, entretanto, isto constitua um “achismo”.

É possível, através da aplicação desta perspectiva de escrita da história (de Humboldt), uma nova percepção de realidade, divergente daquela implicada pelo método rankeano. Esta percepção de realidade possibilita, através da subjetividade, a emergência da individualidade na produção historiográfica bem como, permite que venha à tona uma série de questões a serem problematizadas devido às particularidades dos eventos históricos que no modelo rankeano acabavam sendo pouco exploradas, embora ele partisse delas para o “geral”. Desta maneira, abriu-se caminho também para uma análise que escapava às contingências impostas pela não-aceitabilidade do imprevisível. Esta dimensão do imprevisível não era contemplada pela concepção rankeana da História, e deste modo, o modelo se mostrou bastante obtuso, pois demonstrou pouca, ou quase nenhuma, flexibilidade para a problematização do factual, tomando o passado quase como um dado, como se bastasse acionar os documentos para fazer a História. Isto constituiu um problema na medida em que Ranke, não era apenas mais um produzindo História, mas ele havia se tornado “A referência” do modelo de escrita da História como disciplina, pois se fizera uma canonização da disciplina que subordinava a narrativa à academia, o que supõe, a partir de então, que era necessária uma autoridade para falar do passado. Entendendo o modelo da academia como aquele que se baseou puramente em pesquisa documental, podemos pensar que houve neste período, certo risco do engessamento da disciplina, mas como já foi falado, este não foi o caso, pois, como visto, houve um embate e, de maneira alguma a produção historiográfica do século XIX foi homogênea ou uniforme como quis mais tarde a Escola dos Annales.

Apesar de não ter havido, de fato, uma uniformidade no que diz respeito às formas como os historiadores produziriam a História, é importante compreender que o século XIX, sendo o século em que se consagrou a História como disciplina, será marcado por isto de forma inegável, visto que surgirá uma espécie de cultura da História, que já nasce maculada pela perspectiva acadêmica de fazer História, uma vez, que como já falamos, a partir de então, quem tinha o “direito” e a autoridade de falar sobre o passado com a intenção de produzir História era a academia, ou pelo menos, deveria passar por ela. Isto posto, entendemos que, o então fazer da História, passaria a atender, por força, a certos critérios. Critérios para a produção de um conhecimento científico sobre o passado advindos da academia. Em outras palavras, é como que se fosse assumida uma postura de que História só seria História se passasse pelos cânones acadêmicos. Isto, novamente, nos levaria a pensar no suposto engessamento dos modos de produção da História no período oitocentista. Contudo, é necessário que atentemos para a organização do começo desta disciplina, que foi operada por Ranke com “mão-de-ferro”. Ranke acreditava que a academia só poderia ensinar aquilo que produzisse, então, para ter a História como disciplina, era a academia quem a produziria. Isto, ao mesmo tempo em que profissionalizou o ofício do historiador também o “normatizou” demais e esta “normatização” não passou sem oposições a ela.

O que Ranke fez foi padronizar o ofício do historiador através desta normatização, como sendo o processo de dar forma às informações que tiramos dos documentos e transformá-los em História. No entanto, no século XIX já havia aqueles que pensavam que a História como um trabalho muito mais de problematizar do que, a partir de seqüência de eventos, tirar conclusões, ou ainda julgar que os próprios eventos falariam por si, e isto constituía umas das tensões vivenciadas naquele momento. Se por exemplo, um historiador, decidisse escrever sobre uma História Cultural, ou quisesse falar de algumas tendências e até mesmo levantar algumas hipóteses (suas) sobre determinado tema, ao invés de narrar acontecimentos, já estaria fugindo ao tradicional modelo rankeano, tinha-se aí, outra problema, considerar esta produção como História ou não. Se pensarmos que o trabalho do historiador, para ser reconhecido como tal, precisaria da aprovação de seus pares, teremos então um embate, pelo menos no espaço acadêmico prussiano do período em questão, pois poderia ser repelido aquilo que escapasse aos cânones acadêmicos, mas isto não impediu que houvesse uma pluralidade de produções. Produções estas que, senão o eram naquele momento e naquele lugar, poderiam ser aceitas mais tarde ou em outro lugar.

Por fim, resta-nos olhar com um pouco mais de atenção para o próprio Ranke, que deixava de fora do trabalho do historiador a dimensão interpretativa da tarefa, seu apego pelo fato e sua imparcialidade (suposta), na busca pela verdade, não davam ouvidos a outras formas de conceber a História. Ainda sobre esta imparcialidade de Ranke, há de se considerar que se trata do que ele considerava como imparcialidade, pois sabemos que, mesmo para ele, estava intrínseco “contaminar” sua escrita com um pouco de si – mesmo que não se desse conta – na medida em que, operava uma seleção de fontes e organizava os eventos e os fatos de acordo com uma ordenação escolhida por ele, já interferira na obra, “contaminando-a” mesmo que involuntariamente. Existe ainda, outro ponto importante a se observar, o contra-senso inaugurado pela análise posterior de suas obras que o classificam como positivista e historicista. Ora, tal classificação é inadequada visto que tais categorias não se associam. O Positivismo é marcado pela concepção de que leis naturais imutáveis constroem a sociedade, e, aplicado este conceito teórico-metodológico à História, o trabalho do historiador se resumiria no “dissecamento” dos fatos, pois estes representariam o passado e o historiador em nada influenciaria, pois o rumo natural dos fatos, por assim dizer, independe dele. O Historicismo, enquanto forma de se analisar o passado, tem como centro os fatos históricos e o encadeamento destes numa perspectiva construtivista. Caberia ao historiador então, ordenar os fatos. Ou seja, a História, na perspectiva historicista, não seguiria uma ordem natural, esta ordem seria tarefa, ofício, do historiador. Portanto, classificar Ranke como, ao mesmo tempo, positivista e historicista reflete um erro de compreensão destas formas de escrever a história.

*por Anita Lucchesi e Miguel Carvalho Rego (Julho de 2007)

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UPDATE: 07 de abril de 2013 – nota sobre as cirscunstâncias de escrita deste texto e seu histórico neste blog:

Curiosamente, quase cinco anos após a criação deste blog, este post tem sido um dos mais visitados e mais comentado. E o é embora não seja um texto com linguagem web friendly e, nem mesmo, trate do principal tema deste blog: Digital History / Storiografia Digitale. Até ontem (06.04.13), o termo de pesquisa “Leopold von Ranke” trouxe 913 pessoas a este blog. Apenas “Ranke”, 598. No total, este post recebeu neste período, 14.445 visualizações, sendo o mais visitado e comentado do blog, que conta com 109 postagens. Eu não sou uma especialista em Ranke e estou longe de ser uma autoridade em debates sobre historiografia alemã, gostaria que os leitores tomassem consciência disso. Sobretudo, pois notei através dos comentários recebidos, que alguns leitores talvez sejam, como eu à época, estudantes de graduação. Alguns buscando via Google respostas para as suas perguntas, possivelmente para suas provas e avaliações. É importante dizer que o texto, que assino com o colega Miguel Carvalho Rêgo, na verdade, foi produzido para uma avaliação da disciplina “Metodologia da História II”, ministrada pelo saudoso Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães, em 2007, na UFRJ (IFCS). Este professor, inquestionavelmente responsável pela minha escolha por este caminho da História, nos deixou precocemente, mas deixou também muita inspiração. O pensamento de Manoel (que amava ser professor), por si só, me lembra a feliz escolha de curso que fiz. Foi, provavelmente no curso (tópico especial) de “História, Memória e Patrimônio” que foi despertado em mim o desejo de estudar mais teoria, metodologia e me fez seguir, como tem sido até hoje, seduzida pelo tema até o mestrado. Reler o texto revela outra Anita (e provavelmente outro Miguel), revela a passagem inexorável do tempo e a imaturidade das ideias de uma menina de 21 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro para descobrir o que não era História. Obrigada, sempre, prof. Manoel Salgado.

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