20 anos da World Wide Web neste março

Rafael Capanema escreveu um artigo bem pontual no dia 13 de março para o portal da Folha Online, na parte dedicada a assuntos de informática. Copio e colo o texto na íntegra e abaixo teço alguns comentários.

Autores de grandes invenções nem sempre se dão conta imediatamente da importância daquilo que criaram.
Durante a concepção da WWW, que comemora 20 anos nesta sexta-feira (13) em um evento na Suíça, Tim Berners-Lee e Robert Cailliau imaginavam que ela atingiria a onipresença de que desfruta hoje?
Martial Trezzini/Efe
Tim Berners Lee (esq.)e Robert Cailliau (dir.), posam juntos ao primeiro servidor de internet durante a celebração de aniversário da WWW, na Suíça
Tim Berners Lee (esq.) e Robert Cailliau (dir.), posam com o primeiro servidor que usaram, na celebração de aniversário da WWW
“Sim, senão não a teríamos chamado de World Wide Web [rede mundial] antes mesmo de ter qualquer código em funcionamento”, responde Cailliau à Folha.
Cailliau é o cientista computacional belga que auxiliou o colega inglês Tim Berners-Lee na audaciosa empreitada.
A web nasceu na Suíça, no laboratório onde trabalhavam os dois cientistas, a Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear) –centro responsável também pelo LHC (Grande Colisor de Hádrons).
Em março de 1989, Berners-Lee escreveu “Information Management: A Proposal” (gerenciamento de informação: uma proposta), em que apresentava sua ideia: um conjunto de documentos de hipertexto interligados, acessíveis pela internet. Coautor da proposta, Cailliau atuou para viabilizar o projeto dentro da instituição e angariar recursos para seu desenvolvimento.
É comum a confusão entre internet e World Wide Web, que não são a mesma coisa. Sistema global de comunicação de dados, a internet remonta à década de 1960 e tem a WWW como um de seus serviços.
Por meio de páginas interligadas, que combinam texto e imagem, a WWW democratizou o acesso à internet, antes restrito ao círculo acadêmico.
Em fins de 1990, Berners-Lee já tinha desenvolvido todas as ferramentas necessárias para o funcionamento da rede: o protocolo HTTP (HyperText Transfer Protocol), a linguagem HTML (HyperText Markup Language), o primeiro software de servidor HTTP, o primeiro navegador (chamado WorldWideWeb) e, ainda, as primeiras páginas -blocos ainda rústicos de textos e links, que explicavam o funcionamento da própria WWW.
Mas a popularização da web só se consolidou em 1993, com o lançamento da versão 1.0 do navegador Mosaic, criado pelo estudante de computação norte-americano Marc Andreessen. O programa inovou por ser totalmente gráfico, tornando a navegação na rede mais amigável e acessível.
Em 1994, o Mosaic virou software comercial e foi rebatizado como Netscape Navigator. O programa foi líder absoluto do mercado até ser esmagado pelo concorrente Internet Explorer, da Microsoft, durante a guerra dos navegadores.
Para organizar a quantidade de informação na rede em crescimento vertiginoso, surgiram diretórios de sites e mecanismos de pesquisa como Yahoo! e Altavista –que foram suplantados, mais tarde, pelo Google, cujo nome deixou de ser sinônimo de buscador eficiente para representar a hoje gigante empresa que oferece uma vasta gama de serviços on-line.
Em meados da década de 1990, o Brasil plantava suas primeiras sementes na rede, com o lançamento de sites como o portal UOL, do Grupo Folha, e o buscador Cadê?.
Quando ficou evidente o potencial de geração de lucro na web, foram investidos milhões de dólares em sites supostamente promissores. Mais tarde, porém, boa parte deles mostrou-se inviável economicamente. O fenômeno gerou perdas igualmente milionárias, na chamada bolha do pontocom, que estourou em 2000.
Web 2.0
Na esteira do novo milênio, nasceram termos como “conteúdo gerado pelo usuário” e “web 2.0”. Os blogs facilitaram a criação e disseminação de conteúdo por qualquer pessoa, e explodiram em popularidade redes sociais como Facebook e sites colaborativos emblemáticos, como a enciclopédia Wikipédia e o YouTube, que fez os vídeos se propagarem na rede.
E conteúdo gerado pelo usuário, afinal, era a intenção original de Berners-Lee e Cailliau, cuja invenção foi celebrada nesta sexta-feira, na Cern, em evento que terá palestras do próprio Berners-Lee e de outros protagonistas da história da World Wide Web.

É curioso que o grande boom da Web 2.0 seja coincidente com esse aniversário de 20 anos. Mas nas acredito que a Web 3.0 virá somente quando a WWW for completar 30 anos.  Vale rever o post que escrevi sobre Web Semântica ano passado, que agiria menos como um catálogo e mais como um guia. Já existem páginas de testes, esse pessoal não brinca em serviço.

É inegável que esta invenção tenha transformado a sociedade, mas a sociedade também sofreu mudanças inerentes a ela mesma independentes do que acontecia na virtualidade, mas a WWW seguiu se adaptando a estas mudanças e correspondendo cada vez mais às expectativas dos usuários que, mesmo não sendo especialistas, utilizam o serviço se forma intuitiva e deixam aqui e ali traços rastreáveis dos desejos e intenções de pessoas diferentes entre si que usam a rede ao redos do mundo. Demanda e oferta neste caso se equilibraram, mas a criação inicial do projeto, merece todo o reconhecimento pela genial capacidade de inventatividade. Hoje o hipertexto parece tolo, mas pensá-lo no final dos anos 80 não o foi.

O lançamento, como mostra a matéria da Folha, não foi logo no início, a coisa demorou a se popularizar, mas isso aconteceu e de lá pra cá veiosomente num crescente. A demanda só cresce e a WWW se transforma e aumenta as suas faculdades.

Web for Open: Tim Berners-Lee, o criador da WWW, fala neste video sobre a sua experiência 20 atrás e o seu novo projeto, que pretende fazer com número o mesmo que a sua primeira invenção possibilitou fazer com palavras,imagens e videos, desbloqueando os nossos dados e instaurando um novo caminho de utilizá-los juntos.

No meu modo de ver, palpitando, a primeira fase foi marcada pelo COMUNICAR enquanto a segunda fase, bem como o novo projeto de Berners-Lee, está marcado pelo COMPARTILHAR. Neste sentido, o que já existe de trabalhos sendo realizados a quatro ou mais mãos graças a recursos que permitem a determinados acessarem seus Databases abertamente (ainda que fique restrito a um grupo pré-determinado, com regulamentos pré-estabelecidos). Desta forma, a escrita da História, por exemplo pode ser potencializada. Às vezes imagino, na época de Hobbes e Locke, se isso fosse possível, quão mais profundo teria sido o debate sobre algumas questões, como o papel do Estado, por exemplo. Compartilhar a escrita de um trabalho, abrindo seu Database para outra pessoa, é algo muito diferente de lhe mostrar um manuscrito, uma prova. É tornar mais visível ainda, para o outro, o seu percurso na pesquisa, é mostrar todas as notas, os rascunhos, aquilo que foi apagado, as edições e re-edições. Claro, isto era possível também antes, de forma mais lenta e arcaica, mas o que estamos falando hoje é, por exemplo, da possibilidade de duas pessoas, uma da Suiça e uma da Australia, trablharem juntas num projeto. Este tema inspira muita reflexão.

Os historiadores metidos com a Historiografia Digital que se preparem!

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