História: Arte, Cultura e Indivíduos*

O historiador holandês Johan Huizinga, vivia e escrevia imerso no debate acerca do estatuto científico ou não científico da História. Huizinga pressupunha uma afinidade entre Arte e História que conferiria a história o estatuto de uma ciência verdadeira, não pelos seus métodos, mas pelo seu compromisso em buscar a verdade. O que a história faz em relação ao passado “não é nunca fotografar, mas é representar”[1], diz Huizinga, para quem a subjetividade deste “representar” constitui uma marca indelével para as narrativas que se faz do passado, as quais são marcadas pela imaginação histórica do seu autor. Neste sentido, o trabalho do historiador para Huizinga, tal qual acenara Wilhelm Humboldt, não se limita à crítica documental, mas vai além e passeia pela arte, pela criatividade histórica – o historiador se aproxima do poeta.[2]

Jacob Burckhardt, antes de Huizinga, alertou para a impossibilidade de se fazer história sem a sutileza e a sensibilidade necessária para compreender, imaginar e organizar, numa narrativa lógica, os elementos culturais de uma sociedade, tal como ele mesmo fez em seu clássico livro sobre a cultura do Renascimento na Itália[3].

As reflexões sobre a história, tanto de Burckhardt quanto de Huizinga, merecem um grifo para a atenção particular que estes autores concedem ao elemento individual, particular e subjetivo devido à ênfase que ambos dão à dimensão cultural e artística da história. Sobre o primeiro, Sabina Loriga nos diz:

“Para Burckhardt (…) o centro permanente da história era o homem mortal, geralmente sofredor, ‘o homem com suas dores, suas ambições e suas obras, tal como ele foi, é e será sempre’! Não o homem da providência dos filósofos e nem mesmo essa impostura romântica que é o herói, mas antes o indivíduo independente, livre (…) que conhece e admite sua dependência em relação aos acontecimentos gerais do mundo.”[4]

Esta característica também marca um outro traço da concepção de história nestes dois autores, que é a negação de uma história providencial[5], majoritariamente compreendida assim pelos historiadores mais positivistas, que acreditavam no Espírito hegeliano, que reduzem a importância das ações individuais e subordinam as artes, valorizando em contrapartida os grandes movimentos da história, pois para eles “as qualidades pessoais, inclusive as dos grandes homens, não bastavam para explicar o curso dos acontecimentos, e era preciso levar em consideração as instituições e o meio (a raça, a nação, a geração e etc.)”[6].

A desvalorização do significado das ações individuais traz consigo também o esvaziamento da responsabilidade dos homens frente aos rumos que a história toma e para Burckhardt este é um problema moderno:

“Burckhardt aponta uma diferença fundamental entre a pólis grega e o Estado moderno: enquanto na primeira os altos valores cívicos influenciavam positivamente a discussão filosófica, as artes e toda a vida social, o segundo torna servil toda manifestação do espírito humano, transformando pensadores, artistas e criadores em burocratas assalariados sem autonomia” [7].

O que Paula Vermeersch apresenta em seu trabalho, da cujo trecho acima fora extraído, sobre as anotações de aula de Burckhardt, é o ponto fulcral da nossa discussão – o ponto em que se cruzam história, indivíduos e ética, e que tem, como pano de fundo a querela entre antigos e modernos. Se pensarmos, portanto, na dimensão ética da história, quem melhor poderia representar os mais comprometidos com a ética, os antigos ou os modernos? Para Burckrhardt, a resposta mais acertada seriam os antigos, ou até mesmo os fiorentinos da Itália renascentista, uma vez que para o autor, Florença poderia ser comparada à Atenas. Achamos válido destacar aqui mais uma passagem do texto de Vermeersch que ilustra esta crítica de Burckrhardt à modernidade:

“O Estado e a Religião, por serem repressores, massificadores, contribuem negativamente para o florescimento de grandes individualidades, e isso é, para Burckhardt, o grande mal da modernidade: a massa vence o indivíduo, existe uma nivelação por baixo, todos se transformam em meros números da burocracia, todos se iludem que podem ser cultos, belos e jovens sem esforço ou dedicação.”[8]

Ora, se considerarmos que a modernidade é a geradora desta burocracia despersonalizante e produtora do businessman e, em se tratando de história, autora de muitas generalizações, começamos a entender porque Burckhardt vai tratar do Renascimento italiano com tanta nostalgia, ele que tanta atenção dedicou aos detalhes. E sendo assim, mais uma vez fica clara a recusa da parte dele a concepções mais positivistas da história, a história não caminha sempre em um sentido de progresso positivo, não é evolucionista.

Assim como Burckhardt, Huizinga também vai criticar esta máxima setecentista de que a razão aponta sempre para frente, bem como a racionalização exacerbada de tudo então, até mesmo da história que, para ele, permite e necessita de lirismo, de uma certa dose de amor pelo passado, que cada historiador soma aos trabalhos que se propõe a fazer. Neste sentido, Huizinga faz um forte apelo a tudo o que é lúdico, a imaginação, às faculdades humanas de criar e sentir, seu Homo Ludens, de que nos falou Naiara Ribeiro.

Percebe-se portanto, que não é somente a concepção de história que mudou no decorrer dos séculos, o indivíduo enquanto ente também veio sofrendo transformações e destas mudanças decorrem e incorrem novas situações políticas e surgem novos padrões comportamentais, outro sistema de valores e princípios passam a reger a ação humana, quais sejam, aqueles de uma sociedade regida pela racionalidade e obcecada pelo progresso a qualquer preço, a mesma que fora enfaticamente criticada por Nietzsche em todo o legado filosófico que nos deixou.[9]


[1] HUIZINGA apud RIBEIRO

[2] HUMBOLDT, Wilhelm von. “Sobre a tarefa do historiador” (1821). Anima 1(2), 2001.

[3] BURCKHARDT, Jacob. La civiltà Del Rinascimento in Itália. Roma: Newton Compton Editori, 2008.

[4] LORIGA, Sabina. “A biografia como problema”. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 239

[5] A recusa à Filosofia da História.

[6] Idem. p. 231

[7] VERMEERSCH, Paula. Jacob Burckrhardt e suas reflexões sobre a história. História Social – Revista dos pós-graduandos em História da Unicamp, No 10 (2003). Este artigo resume uma parte da monografia “Pão e circo: a imaginação como contra-poder”, defendida por Vermeersch em dezembro de 1998 sob a orientação da profa. dra. Amnéris Maroni, no departamento de Ciência Política, IFCH-Unicamp. Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/historiasocial/article/view/92 acessado pela última vez em: 09 de dezembro de 2009.

[8] Idem.

[9] MAYER, Arno J. “5. Concepções de mundo: darwinismo social, Nietzsche e Guerra”. In: força da tradição: a persistência do antigo regime, 1848-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 267-317.

VER TAMBÉM:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das letras, 1999.

JASPERS, Karl – Introdução ao Pensamento Filosófico – Ed. Cultrix, São Paulo, 1965.

RIBEIRO, Naiara. Johan Huizinga e a História da Cultura: a dimensão ética e estética da História Disponível em: http://revistadiscenteppghis.files.wordpress.com/2009/05/naiara-ribeiro-johan-huizinga-e-a-historia-da-cultura_a-dimensao-etica-e-estetica-da-historia.pdf Acessado pela última vez em 09 de dezembro de 2009.

*Este texto é parte do trabalho de conclusão do curso “Antigos e Modernos – A escrita da História” (Tópico Especial em Metodologia da História II, graduação em História), ministrado pelo Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães durante o segundo semestre de 2009, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ).

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s