Rebloging: Notas sobre uma máscara e muitas memórias

Compartilho abaixo o interessante artigo de Camila Dantas Guimarães sobre a recente recuperação da memória de Guy Fawkes. Vale a pena conferir.  Post original em “O passado em bits“. Boa leitura! 

Por todos os lados e telas nos deparamos com as máscaras de Guy Fawkes, o conspirador inglês morto em cinco de novembro de 1605. Logo após a descoberta da conspiração liderada por Robert Catesby, o ainda frágil estado inglês instituiu a queima de bonecos de Fawkes na fogueira. O que se celebrava e como se comemorava o Cinco de Novembro foi se transformando ao longo da história1. No século XIX a imagem de Fawkes começa a ser reapropriada por movimentos urbanos, alguns de tendência anarquista de acordo com Lewis Call.

Mas como é que que neste século XXI a mascara de Guy Fawkes acabou por se tornar um símbolo de resistência em escala global ?

Para entender a carreira internacional desta imagem há que se apontar pelo menos dois objetos culturais que se apropriaram do símbolo de maneira muito bem sucedida: a novela gráfica V for Vendetta de Alan Moore e David Lloyd (1986) e o filme de mesmo nome nela baseado, dirigido por James McTeigue e produzido pela Warner em 2006<2. É neste contexto de circulação em massa que a imagem extrapolou as fronteiras anglo-saxãs e passou a povoar o imaginário global. O grupo de hackers Anonymous adotou a máscara de Guy Fawkes nos seus comunicados sobretudo via Youtube. Um dos vídeos mais recentes fala até de um possível atentado ao Facebook neste cinco de novembro.

Na internet a máscara salta em múltiplas versões. A Biblioteca Britânica colocou online uma coleção especial sobre o evento com imagens que destacam sobretudo os fogos de artifícios, itens comuns na celebrações do Cinco de Novembro na Inglaterra e no mundo anglo-saxão.

No Twitter a hashtag #5thnovember já está em plena atividade, embora com uma predominância siginificativa da língua inglesa.

A utilização ampla das mascaras de Guy Fawkes nos protestos dos indignados não é uma unanimidade (aliás como quase nada no movimento e isto não é necessariamente uma crítica). Há uma polêmica no ar já que os royaties da sua venda vão diretamente para a Time Warner (devido ao filme V de Vingança), o que tem gerado críticas que remetem uma contradição frente aos objetivos anti-capitalistas do movimento.

Aqui, na marca da efeméride e antes da fumaça se dissolver em bits, o que eu gostaria de apontar é meramente a importância de se pensar sobre a circulação global de memórias. É um tema que de certo modo já vem sendo tratado há algum tempo no campo de estudos da memória social, sobretudo relacionado com a banalização das memórias do holocausto3. Agora estamos diante de uma crescente imbricação da memória com as novas mídias, ou para utilizar o termo de Andrew Hoskins, estamos imersos em uma crescente distribuição da memória social ( o que ele chama de memory-on-the-fly, utilizando um termo que se refere a possibilidade de programar e processar simultaneamente em um computador).

Versos do século XVII agora estão cravados em código binário:

http://extraordinaryintelligence.com/2695/holidays/remember-remember-the-5th-of-november-guy-fawkes-day/

Essas palavras, que atravessaram quatro séculos , adquirem na contemporaneidade outros sentidos. Quais? Como refletir sobre as mediações da memória nas interfaces digitais e suas relações com a representação histórica? Como pensar sobre a memória social um pouco além das questões identitárias que marcaram a emergência deste campo de estudos4? Em recente coletânea sobre o tema das memórias globais, Aleida Assman defende a necessidade de se pensar sobre a circulação das memórias a partir de uma perspectiva que, embora observando as especificidades nacionais, amplie o foco para uma abordagem transnational5. Para mim essa possibilidade faz todo o sentido quando olho as máscaras de Guy Fawkes. E vamos ao próximo cinco de novembro…

* * *

PS: E por falar nisso, alguém sabe de um estudo ou pesquisa que trate das especificidades brasileiras na utilizaçãoda máscara de Guy Fawkes?

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Camila Guimarães Dantas é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Memória Social ( UNIRIO) e bolsista da CAPES.

1O livro de James Sharpe “A cultural history of Guy Fawkes day” é uma referência central e mapeia a história dessa memória no Reino Unido. (Harvard University Press, 2005.)

2Sobre o filme ver:OTT, Bryan. The Visceral Politics of V for Vendetta: On Political Affect (in Cinema, Critical Studies in Media Communication, 27:1, 39-54 , 2010.

3Andreas Huyssen ao pensar sobre a museificação no ensaio “Seduzidos pela Memória” (Rio de Janeiro: Aeroplno, 2000) já desenvolve uma reflexão importante sobre as apropriações globais do Holocausto. Em sentido semelhante, Tzvetan Todorov chama atenção para os abusos de uma banalização da memória do mal em seu livro “Tentação do mal, Memória do bem”(São Paulo: Artz,2002).

4Algumas considerações sobre essa questão neste artigo.

5 Assman , A e Conrad, S. memory ina a Global age. Ney ork, Palgrave macmilliam, 20010.

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