O RETORNO: É PRIMAVERA EM ZWICKAU, ALEMANHA.

Preciosa pescada na página do Tempo Presente por sugestão do Prof. Dilton Maynard. É preciso encarar este passado de outra maneira. Mas como? 

—-

Por Francisco Carlos Teixeira da Silva

É comum que mulheres e homens voltem-se para o futuro com esperanças e expectativas de mudança deixando para trás o passado. Mesmo a poesia – como em Drummond, de versos tão belos sobre o tempo presente – costuma valorizar o presente e adivinhar um futuro sempre melhor. Mesmo no cotidiano, nosso dia a dia, a vasta e vaga sabedoria popular nos diz “para esquecer o passado” e viver “para frente!”. Mesmo o famoso verso da “Internacional Comunista” (a canção) propunha “fazer do passado tábua rasa!”.

Possivelmente tudo isso é certo, bom e vantajoso para as pessoas. Talvez não seja o mesmo para as nações. Compreender bem o passado, entender como se chegou a situações atuais – boas ou más – e o que homens e mulheres fizeram em situações difíceis, tempos de provação, é uma lição importante para as sociedades. Hoje, a sociedade alemã defronta-se mais uma vez com seu próprio passado. Um escândalo dito em meias palavras: durante 13 anos uma organização neonazista – Nationalsozialisticher Untergrund (“Clandestinidade Nacional-Socialista”) assassinou pelo menos 10 pessoas, fez mais de 14 ataques contra propriedades turcas e lugares de memória judeus, além de assaltar bancos. Ainda, assim, e apesar da conhecida eficácia da polícia alemã (ou talvez com o conhecimento dela, segundo o jornal “Tagesspiegel”), os terroristas permaneceram livres e atuantes, até novembro de 2011 – quando, sob perseguição, buscaram o suicídio.  Hoje, o Parlamento pede um inquérito visando estabelecer as ramificações e as condições em que agiram os três principais acusados, bem como as relações do grupo nazista e a polícia.

Não repetir o passado!
Mais uma vez,  por um tempo, vivo na Alemanha e busco entender este passado que se faz vivo a cada momento. O primeiro impacto, para olhos treinados,  é o exercício de conviver quotidianamente com os signos e ícones vivos de duas grandes guerras – a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1945-1991).  Além, é claro, da presença avassaladora dos genocídios – judeus, opositores, simples gente denominada de “anti-sociais”, gays, testemunhas de Jeová, ciganos, doentes mentais e deficientes físicos, todos considerados “sub-humanos” ( “Untermenschen” ) ou “gente de pouco valor racial”. Assim, ao esbarrar em cada ícone deste mundo que não passa, mais entendo o passado como algo vivo, real, pujante de signos. Aqui tropeçamos, literalmente,  na história, seja no caminho do trabalho, de casa ou do simples quando vamos barzinho para beber uma cerveja.

Aqui e ali a guerra mostra sua dura face: no pátio interno do meu prédio, na Rua da Comuna de Paris, os buracos de balas e as crateras dos morteiros soviéticos da Batalha de Berlin ainda são visíveis nos remendos apressados feitos nos fundos ( “Hinterhof” ) do prédio. A história banida para as paredes dos fundos, mostra uma cara cheia de cicatrizes.  Acordo e olho esta cara sem maquiagem do passado.  Diariamente estou  face a face com a guerra que foi a guerra de todas as guerras. Na esquina atravesso a Karl-Marx-Allee, que já foi a gloriosa “Avenida Stálin”, e que a revisão de Nikita Kruschev decidiu, em 1956, com mais pudor, denominar tão somente Karl-Marx-Allee.

No fim da minha rua o muro sobrevive com sua falsa alegria de pichações coloridas: são bons 200 metros de passado, com sua curva separando ruas, prados, quarteirões… E pessoas!

Para além dos lugares materiais, de pedra e concreto, a guerra sobrevive na mente de todos, um pouco zipada, para não fazer volume, mas está lá… Nos museus, em Karlshorst, onde o Marechal Keitel se rendeu ao Marechal Jukov, em maio de 1945, adolescentes correm com suas pranchetas e computadores, copiando datas, nomes, lugares, cifras… Nenhuma geração possui o direito de esquecer…

Rua da Primavera, Alemanha
E, no entanto esquecem… Em Zwickau, uma cidade industrial de 120 mil habitantes no estado da Saxônia, uma célula neonazista assassinou inúmeros estrangeiros (a polícia ainda trabalha para descobrir a extensão do grupo e dos mortos, até o momento chegou-se oito turcos, um grego e um policial alemão, como as vítimas conhecidas).  O grupo,  autodenominado “Clandestinidade Nacional-socialista” ( leia-se, nazista ), era composto – em sua base – por Beate Zschäpe, 36 anos; Uwe Mundlos, 38 anos e Uwe Bönhardt, 34 anos… Todos residentes na Rua da Primavera, 26, Zwickau. Eram quietos, calmos, respeitadores dos vizinhos, não cantavam ou faziam baderna durante jogos de futebol, e nunca ouviam música alto demais… O aluguel era pago pontualmente todo dia 25 do mês, incluindo todas as taxas. Identificados pela polícia, os dois Uwe se mataram e Beate explodiu a casa, na tentativa de evitar a identificação da rede nazista. Antes, porém, de forma piedosa pediu a vizinha para cuidar de seus dois gatos…
Beate escapou, e está presa: a polícia tenta estabelecer as relações da “Clandestinidade Nacional-socialistas” com outros grupos neonazistas em Berlin, Kassel e Hannover – e muito possivelmente com o Partido Nacional Republicano, que reclama a herança hitlerista. 

 O grupo era conhecido da polícia, que possivelmente tinha um agente infiltrado na rede. Os arquivos policiais sabiam também das reuniões e dos “cultos” praticados em honra do Terceiro Reich, além de atos de vandalismo e agressão contra judeus e estrangeiros. Além disso, o grupo havia divulgado (em 2010), com venda livre na Internet, um cd denominado “Adolf Hitler lebt!” (Adolf Hitler vive!), com um tremendo “hit” denominado “Donner Killer” – Donner, kebap, é a comida, e ao mesmo tempo o nome das pequenas lojas de lanches rápidos, dos turcos residentes na Alemanha.
Os crimes, cometidos ao longo de treze anos,  que estavam sem solução, eram conhecidos como “os assassinatos do kepab”!

Entender o ódio
A pergunta que não se cala é imediata: por quê? Ou melhor: por que ainda? Nenhum dos três principais acusados – são jovens – viram a guerra, não conheceram o Partido nazista em sua época de apogeu e não participaram de suas massivas demonstrações cenograficamente preparadas. Ou foram “doutrinados” pela imprensa do Dr. Goebbels…  Como historiador, e acima de tudo como educador, gostaria de refazer o percurso destas pessoas e voltar à escola, aos livros e aos professores que tiveram…

Gostaria de saber como estudaram história: o que leram, se foram levados a algum museu ou exposição sobre a guerra ou se leram sequer cinco páginas sobre o holocausto?  Teriam vista sequer um filme, um documentário sobre os horrores na Rússia ou Polônia ocupada? Sabiam o significado de Auschwitz ou Treblinka? 

O mal não é inato, não deve ser algo inscrito no DNA ou no “solo e no sangue” (“Blut und Boden”), como os próprios nazistas queriam… Não, a resposta não deve residir aí, ou caso contrário os nazistas teriam razão: a história seria construída pela determinação de raça. Não, a falha que permitiu o retorno do mal em Zwickau está, com certeza, em outros fatores. 

Houve uma falha, algo que quebrou no fundo da vida dessas pessoas banais, num bairro banal, de uma cidade industrial interiorana e também banal.  Em algum momento a educação – não só o ensino da história – mas, todo o processo educativo, falhou! A escola não soube, ou não pode com seus meios, evitar o nazismo (de novo)! O grupo de Zwickau é uma derrota da escola, para além de comprovar a leniência histórica da polícia alemã com a extrema-direita fascista.

Podemos, é claro, falar de uma sociedade hierárquica, por demais organizada, pronta para sacrificar o individual e o humano, ao rigor das agendas, das normas, dos parágrafos e artigos dos códigos, dos quais não se pergunta, ou questiona, a origem e significado.   

Podemos, é claro, falar de pessoas massivamente sozinhas, em rotinas enfadonhas, sem espaço para o diferente, onde até um passeio, uma “Pils” no bar da esquina, obedece a regras, horários e normas, que não podem ser contrariadas. 

Podemos é claro, falar de pessoas que não se cumprimentam, ou o fazem quase como um rosnado, que fingem não ver o outro e que lêem sempre o mesmo livro barato da “Reclamen” na viagem de metrô só para não falar com o passageiro ao lado.

Podemos, ainda, falar de uma pequena classe média, de uma burguesia de lojistas, de funcionários públicos e agentes do estado – todos na beira da proletarização ao estilo europeu! – que desconfiam naturalmente de estrangeiros.  Pouco importa que você fale alemão, já estão disponíveis a não entender, a não ajudar, a recusar uma informação ou mesmo um serviço. 

Mas, nada disso explica por si só o retorno. Mesmo rotineiros e solitários a grande maioria dos alemães é partidária da República, apóia a Constituição democrática e convive de forma normal com os seus vizinhos, mesmo se eles são estrangeiros. Muitos preferem bares, restaurantes e quiosques de turcos, gregos ou italianos e gostam de  pizza, kebap e de caipirinhas.

Mas, podemos também acreditar que existem aqui e ali pessoas caladas, bons vizinhos, que gostam de gatos e pagam suas contas em dia, que não fazem barulho e não perturbam os vizinhos, como Beate, e que tramam coisas terríveis.

Quem deseja o passado
Há, então, uma minoria disponível ao retorno da história, a sua repetição – e ainda esta vez não é como burla, comédia ou farsa, como atestam os mortos de Zwickau. Há um componente autoritário, há um componente de recusa ao diferente e de frieza nas relações interpessoais – incluindo aí as relações entre os próprios alemães, com seus próprios filhos – e, em torno disso tudo, uma profunda falha de educação – no seu sentido mais largo.

Por isso mesmo, pelo papel dos educadores, que o passado não é algo morto, não é um lugar que não existe mais. Muitos historiadores, colegas de grande valor, foram conquistados por matizes diferentes de uma leitura narrativista da história, onde o objeto do historiador não é o passado e sua reconstrução, mas sim as “falas” sobre o passado, todas dotadas do mesmo estatuto de valor. Penso que não. Nem todas as narrativas possuem o mesmo valor heurístico, para não falar em valor ético. Da mesma forma que as diversas vivências são irredutíveis.  A narrativa sobre os campos de concentração feita pelos seus guardas SS não possui o mesmo valor da narrativa de um prisioneiro do mesmo campo, embora ambos tenham vivido no mesmo espaço e tempo e inter-agido. O que cada um vive difere intrinsecamente da vivência do outro. E cada vivência é única, precisa ser resgatada e exposta. Ela é a verdade? Não toda a verdade, é a verdade vivida de cada um, ou seja, o passado num mosaico interminável. A multiplicação de verdades vividas, juntas, comparadas, cruzadas, constitui uma rede de veracidade.

Temos que nos apressar  em relatar estas vivências, num esforço contínuo para evitar rupturas nesta vasta rede de verdades vividas. Uma falha na malha, ampla, diversa, como uma tela iluminada de Matisse, é o bastante.  O risco de ignorar o que foi vivido avoluma-se, condenando-nos a viver de novo e de novo o “já existido” enquanto experiência única. 
Se os assassinos de Zwickau tivessem visitado, quando adolescentes, o Campo de Sachsenhausen ou Dachau teriam eles organizado o grupo neonazista que torturou e matou durante anos impunemente? Eis uma questão importante.

Quando na Alemanha, ou ainda agora no Chile, ou mesmo no Brasil muitas vozes declaram que o passado está morto ( “quem vive de passado é museu”! ) e não vale à pena ressuscitá-lo, cometem um erro basilar: nenhum passado é morto. São vivências, próprias e dos outros, que continuam a existir, alimentar-se mutuamente e, formando uma rede que envolve todos nós… e no limite, a repetir-se.
Olhando agora pela minha janela, vejo  todo o passado nos tijolos remendados apressadamente no bloco de apartamentos da Rua da Comuna de Paris – formam uma outra rede de buracos e ausências. O passado está lá, está na Rua da Primavera e está com aqueles que morreram porque o passado vive.

Francisco Carlos Teixeira Da Silva/Tempo Presente/UFRJ

——

E ainda do Tempo Presente, outra recomendação de leitura para quem quiser descobrir um pouco mais sobre o neofascismo no Chile comentado pelo Prof. Francisco Carlos, fica o link para o neonazis.com: A nova extrema-direita chilena em tempos de internet de Luyse Moura. Deste artigo também fica outra pergunta aos colegas historiadores: Como lidar com os extremismos (e extremistas!) que driblam a clandestinidade de seus projetos racistas usando as ferramentas da Web como aliadas e a rede em si como espaço para fóruns, militância e cultos de ódio? Até quando a pesquisa e o comprometimento do historiador-professor-de-história-educador com o conhecimento histórico vai se limitar a (tentar) explicar aquele falso defunto convencido de ser passado sobre o qual líamos há pouco? Viveremos, tomando emprestado o termo irritantemente pós-moderno de Sygmunt Bauman, em tempos de ética líquida

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s