Readability: porque não estamos prontos para a dispersabilidade

“Um jeito melhor para ler na Web” é assim que se divulga o simples, mas poderoso, aplicativo (add-on) para “facilitar leituras” na Web – o Readability.

Assista ao vídeo de apresentação:

O desenvolvimento de um software deste tipo é um caso interessante para se pensar a leitura em tempos de Internet. Ora, se há um dispositivo para ler melhor e, segundo o vídeo, “mais confortável, sem distrações” na Web, é porque, de fato, a dispersabilidade e a diversa arquitetura de informação e disposição imagética das páginas de Web estão alterando influenciando nosso modo de ler. Como argumenta Steve Krug (Don’t Make Me Think – A Common Sense Approach to Web Usability, 2005, 2ªed), não se trata mais, exatamente, de leitura de páginas da Web, mas de um scaneamento.

Segundo Krug, consultor de Web usability, os sites foram desenhados pensando inicialmente no padrão mais linear de leitura dos usuários. Entretanto, notou-se que os leitores se comportam de maneira um pouco diferente na Web, prestando menos atenção ao conteúdo integral e detalhes da página em ordem linear (direita-esquerda, de cima para baixo), e mais propriamente scaneando a página em busca daquilo que mais lhe chamou atenção.

A ilustração presenta no capítulo 2 do seu livro “How we really use the Web” tem alto poder de síntese explicativa:

Testei o Readability e gostei, vou continuar usando, combinando-o ao Zotero e aproveitando sua função de “envio para o Kindle”. Além de ser um ótimo modo para programar leituras através do botão “read later” (essencial para quando  você está navegando e encontra algo interessante mas não tem tempo para ler na hora), o APP é realmente um ótimo “limpador” de páginas: despolui as márgens laterais dos artigos, retira anúncios e gifs que ajudam a dispersar a atenção, permite ao usuário escolher se retira ou não as imagens do corpo do texto e – o que achei mais surpreendente – possui também a função facultativa de transformar os hiperlinks ao longo do texto em notas de rodapé que correm para o final da página.

Sensacional como estímulo à reflexão crítica sobre a opacidade que o historiador Antonino Criscione (Sopravviverà la Storia all’ipertesto?, 2003) atribui à Web, que, de minha parte, me ajudou a formular também a noção de “dispersabilidade” característica marcante da navegação 2.0. Para mim, confrontar estas tecnologias com as arcaicas ferramentas do trabalho clássico de um historiador (basicamente, papel e caneta) é tarefa urgente da comunidade histórica neste século XXI. Não é possível, ao meu ver, passarmos por essa revolução da comunicação e da informação, inalterados. Algo para pensar sobre o Readability e o nosso trabalho diário é que talvez a leitura seja uma das habilidades mais imprescindíveis para os historiadores da cultura alfabética. Talvez uma nova concepção de leitura na presente cultura digital exija uma nova habilidade.

Algo que tenho buscado para mim, sem muito sucesso nos últimos anos de historiadora e internauta, é driblar a dispersabilidade gerada pela abundância de informações, links e estímulos na Web. Estamos, como havia previsto o historiador Roy Rosenzweig (Scarcity or Abundance? Preserving the Pas in the Digital Era), no tempo da abundância.

Como diria Drummond, E agora, José?

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