Carte de Istambul

[recebida por e-mail]

Querida X,

Antes de mais nada, estamos todas bem. Fomos expostas ao gás lacrimogêneo, mas está tudo bem. Depois de algumas experiências de dor inexplicável, você se acostuma. Não, não, nós estamos viciadas em gás lacrimogêneo agora. Eu pessoalmente prefiro me beneficiar desse serviço público todos os dias.🙂 E pela primeira vez, tenho óculos de mergulho. Agora já posso fazer mergulhismo no verão.🙂

Se tenho que te contar tudo, deixa-me fazer um resumo. Havia manifestantes pacíficos acampados em um parque na praça Taksim bloqueando as máquinas de construção que vinham construir um novo shoping. Durante 4 dias, elxs durmiram nas suas barracas de campismo e nada aconteceu. Mas era sexta-feira de manhã quando a polícia atacou com gás lacrimogêneo e canhões de água, e queimando as barracas. Na sexta-feira de tarde, as pessoas começaram a marchar até Taksim desde todas as ruas possíveis. Havia milhares lutando para entrar no parque, contra o gás lacrimogêneo em mais de 5 frentes. Outra vez, nos encontramos com o terror da polícia. No sábado de manhã, lutamos de novo. Ainda milhares em cada frente. Não, desta vez, dezenas de milhares vieram. Durante a tarde, toda a polícia teve que se retirar da praça Taksim. Ah, X, você devia ter visto aquela cena. Agora, centenas de milhares estavam na praça Taksim, no parque Gezi, na rua İstiklal e todas as ruas à volta estavam cheias de pessoas celebrando. Agora Taksim era uma zona salva. A polícia não podia entrar lá. Mas, na noite passada eles atacaram pessoas que tinham se juntado à volta de Beşiktaş. Elas queriam marchar até ao escritório do Primeiro Ministro, lá. Então a gente estava lá também. E era assim, a gente marchava dois passos, e eles jogavam gás lacrimogêneo, e a gente recuava um pouco. Depois mais dois passos, e outra vez o gás.

Bem, deixa que eu te conte algumas coisas sobre o movimento. A questão não é defender nenhuma ideologia mas estar lado a lado contra o fascismo. E é mais do que a defesa de um parque. Esta foi a chispa que acionou todas as pessoas que estavam descontentes com o governo. Este é o dia de acerto de contas por tudo o que o governo fez ao longo da última década. Massacres em massa, em Hatay, em Maio de 2013 (mais de 170 pessoas); em Uludere, em Dezembro de 2011 (40 pessoas), as proibições de realizar encontros, pelo terror policial com gás lacrimogêneo a cada vez que algumas pessoas fazem um encontro, pelos meios de comunicação censurados, pelas tentativas de proibição do uso de álcool depois das 10 da noite, os escândalos nos exames públicos das universidades ou concursos públicos, a destruição das florestas para as obras que eles planejam, as torturas sofridas por todas as pessoas oprimidas: xs Kurdxs, as Mulheres, xs Gays, Lésbicas e Bissexuais. Então, há muitas pessoas que estão lutando lado a lado. Alguns (eu diria que é outro tipo de fascismo) grupos nacionalistas turcos em favor da ideologia de Atatürk; gente da esquerda, filhas e filhos da pequena burguesia, as torcidas dos times de futebol, xs muçulmanxs socialistas, xs ecologistas… Nós lutamos juntas, ajudamos umas às outras, compartilhamos a comida, servimos o leite umas às outras e aplicamos a água morna com limão nos rostos umas das outras depois de cada um dos ataques de gás lacrimogêneo. Nós somos tão fortes quanto somos diversas. Porque o que nós queremos é uma e a mesma coisa: a resignação de Tayyip (nosso sultão).

Bem, parece que o Tayyip não vai dar nenhum passo atrás. Então, nós vamos resistir. E, eu sinto que esta excitação não vai se dissipar tão rapidamente. Nossas barricadas são fortes e nós aguentamos firmemente. Agora, a Anarquia, uma Anarquia pacífica paira por Taksim e seus arredores. As pessoas vendem e bebem bebidas alcóolicas na rua. Todas as paredes (todas as paredes mesmo) estão pintadas com palavras contra o fascismo, contra Tayyip, contra a polícia e a favor da solidaridade, das barricadas e da queima de carros da polícia e de meios de comunicação cúmplices com a polícia.

Querida X, você devia ver Istambul agora. Ela nunca foi tão bonita. Quando eu acordo, eu acordo feliz, sorrindo. E nas ruas, você vê isso em cada rosto. E então eu digo a mim mesma, se há algo tão bonito quanto o Amor, deve ser a Revolução. Eu não sei o que vai acontecer, mas tenho a certeza de que em breve tudo vai melhorar.

Você pode compartilhar qualquer parte desta carta, ou a carta toda, em qualquer lugar que você quiser. Porque não dá pra confiar em nenhuma notícia que fale da Turquia nos meios de comunicação. A gente precisa que você espalhe a nossa voz tanto quanto você puder.

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Para pensar. Mais um pouco: algumas imagens que capturei internet afora

A “delicadeza” dos jatos d’água

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Vermelho que cinza que chumbo: “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza / A palavra no muro / Ficou coberta de tinta”

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O melhor “diálogo”

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A “violência” das ideias na sutileza do gesto

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Todxs. Estão todxs unidos.

 

 

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