Sábado “Divino, Maravilhoso” no Pré-vestibular Social (JAC)

Este sábado (19.10.2013) a aula foi diferente. Ao invés da exposição dialogada costumeira, com apoio no quadro ou no datashow, resolvi levar documentos e textos de apoio para serem discutidos em grupo pelos alunos. O tema era Ditadura Militar no Brasil, mas em geral, o subtexto era: censura, repressão, centralização do poder.

Cada grupo teve 2 minutos para apresentar sua análise à turma. Entre uma apresentação e outra tivemos espaço para comentários meus e de outros grupos sobre o assunto apresentado. Trabalhei os mesmos conjuntos de documentos com todas as turmas e desde o início do dia, havia 06 kits com distintos documentos, de modo que realizamos a atividade em até 06 grupos, nas turmas maiores.

Alguns registros da atividade

Alguns registros da atividade

Para fazer a análise dos documentos, a orientação foi a seguinte: identificar natureza e autoria do documento, bem como localizá-lo no tempo; selecionar um trecho ou uma imagem para ser lido/mostrada para a turma e justificar a seleção feita pelo grupo em face ao tema da aula. Muito interessante como cada aula foi singular nesse aspecto, a seleção dos trechos e das imagens mudando de grupo para grupo. Gostaria muito de ter tido mais tempo para desenvolver essa atividade. Um tempo de aula deixou na vontade. Preenchemos juntos um quadro com palavras-chave extraídas e/ou inspirada nas “fontes”. Cada grupo pode escolher duas palavras, se a palavra escolhida já estivesse no quadro, poderia ser apagada e reescrita maior.

Em dois conjuntos de documentos havia materiais sobre o Tempo Presente (presentíssimo) de 2009 e 2013. Meu objetivo com esta seleção era problematizar a diferença recentemente cobrada na prova da UERJ entre as manisfestações daquele tempo (1968) e as atuais: o fato de as primeiras estarem inscritas em um período ditatorial e as últimas em um Estado de Direito (veja a resolução comentada da questão nº 57 do 2º Exame de Qualificação 2014 na Revista Eletrônica do Vestibular Estadual). Para adicionar um quê da cultura material das manifestações mais recentes, levei para a sala a máscara e os óculos de proteção que tenho sido obrigada a utilizar em alguns atos por conta dos excessos da PMRJ nos “confrontos com manifestantes”, como diz o mainstream da nossa mídia, mesmo em pleno estado de direito.

Neste sábado a aula foi pra mim. Aprendi tanto tanto, do quanto precisamos reinventar todos os dias o nosso lugar e do quanto é maravilhosa essa profissão professora que nos últimos dias me fez chorar de verdade.

O resultado do quadro, ao final do dia, fala por si:

Ditadura me lembra...? Quadro preenchido pelxs alunxs

Ditadura me lembra…? Quadro preenchido pelxs alunxs

Os documentos trabalhados foram:

  • Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968
  • Lei nº 7.170, de 14 de dezembro de 1983 (que define os crimes contra a segurança nacional e a ordem social)
  • Charge de Fortuna publicada no Correio da Manhã em 07/10/1966
  • Charge do Latuff sobre a morte do Herzog + foto do Herzog encontrado morto
  • Cartaz “Saia conosco da sombra”, Movimento Feminino pela Anistia no Brasil, 1975.
  • Livro “Brasil nunca mais”, projeto “Brasil: nunca mais
  • Trecho do livro “Violência pra quê?” (2011) de Anselm Jappe
  • Capa de O Globo de abril de 04 de abril de 1968
  • Capa de O Globo de 17 de outubro de 2013
  • Reportagem “Apologia a atos de violência nas redes sociais pode ser considerada crime, diz delegado” (O Globo, 15/10/2013)
  • Reportagem  “STF derruba Lei da Imprensa editada durante a ditadura” (Jornal da Cidade 01/05/2009)
  • Postagem da página do Facebook “Ninja” (Mídia Ninja) intitulada “Ditaruda 2.0” de 16 de outubro de 2013.
  • Foto de uma manifestação em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro na tarde desta quinta-feira, 17 de outubro de 2013, em solidariedade aos presos políticos do dia 15.
  • Foto da Passeata dos Cem Mil, 1968

Textos de apoio:

  • O AI-5, Maria Celina de Araujo (FGV)
  • Censura nos meios de comunicação, Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg (Memórias Reveladas)
  • Movimento pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, ABC de Luta

Outro material de apoio:

Afixei em um canto do quadro para consulta uma cronologia de todos os presidentes do 1964 a 1985, com foto e destaque para principais características do governo. Foi um recurso importante para que xs alunxs pudessem localizar de que período eram as informações encontradas nos documentos e textos de apoio.

Outro recurso utilizado foi o áudio. Lei uma playlist de canções de protesto, com textos de contestação e denúncias. Durante a aula, deixei o som ligado em volume baixo e em alguns momentos oportunos, durante a análise das fontes ou entre a apresentação de um grupo e outro, eu aumentava o volume e chamava atenção para um trecho específico da composição, mencionava o ano, o compositor e relembrava as estratégias para furar a censura.

A playlist pode ser ouvida via Youtube clicando na imagem abaixo (não sei porque o WordPress não está incorporando-a diretamente aqui). Em seguida, alguns trechos destacados das composições:

playlist

1.Panis Et Circensis, Caetano Veloso e Gilberto Gil (1968)

“(…)Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer (…)”

2. Novena, Alceu Valença e Geraldo Azevedo (1972)

“(…) Enquanto família reza a novena
As notícias
Que montam cavalos ligeiros
Vão tomando todo o mundo
Na casa, no lar
Esquecidos, todos ficam longe
De saber o que foi que aconteceu
E ali ninguém percebeu
Tanta pedra de amor cair
Tanta gente se partir
No azul dessa incrível dor

(…)

De orações a fala se faz
E lá fora se esquece a paz
Uma bomba explodiu por lá
Sobre os olhos de meu bem
E assim me mata também
Enquanto a novena chega ao fim
Bambas, bandeiras, benditos
Passando pela vida
E a novena se perde esquecida
De nós (…)”

3. A massa, Raimundo Sodré (1980)

“(…) A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

(…)

Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

(…)

A massa que eu falo é a quepassa fome, mãe
A massa que planta a mandioca, mãe (…)”

4. Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré (1968)

“(…) Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

(…)

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição (…)”

5. Mosca na sopa, Raul Seixas (1973)

“(…) E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar (…)”

6. Divino, Maravilhoso, Caetano Veloso e Gilberto Gil (1968)

“(…)Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
(…)
Pro palavrão, para a palavra de ordem
Atenção para o samba exaltação
(…)
Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão (…)”

7. Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio (1973)

“(…)Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou (…)”

8. Apesar de Você, Chico Buarque (1978)

“(…) Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar (…)”

9. Cálice, Chico Buarque e Gilberto Gil (1973)

“(…)Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue (…)”

10. Ponteio, Edu Lobo e Capinam (1967)

“(…) Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro…

Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar (…)”

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