5o anos do golpe militar de 1964 e muita historinha

Temos muito que refletir sobre o modo como estamos lembrando esse passado duro e traumático. As tentativas de recontar, ressignificando a história, são inúmeras. Pode-se argumentar “toda história é interpretação”, mas coloquemos algum limite a essa transcendência do texto e dos signos aos fatos, pois limites. E fatos. Podemos falar deles de inúmeras maneiras, podemos até discordar aqui e acolá de algumas questões, mas não podemos negar que há fatos. Não deixemos que inventem ditabrandas com as caras mais lavadas. Não deixemos que encharquem as lembranças de dolorosas interjeições com um sem fim de conjunções adversativas (como bem observou o colega Rodrigo Turin sobre os últimos imputs da mídia). Não houve nada cor de rosa. Se, apenas se, houvesse uma cor, essa cor seria chumbo.

Chamou minha atenção a Folha começar essa noite um “past blogging” (narrando o passado como se fosse “ao vivo”). Fico pensando no quanto de jornalismo, no quanto de história e no quanto de ficção pode haver aí nesse instantâneo anacrônico, especialmente depois da publicação hoje de um edital mea culpa bem comprometido, num discurso rapidamente identificável como apologético a esse negociado passado ditatorial por quem não esqueceu das coisas, mesmo depois de quererem passar tanta borracha, não é, Demian Melo? Um edital que começa afirmando o óbvio merecimento do repúdio à Ditadura hoje só poderia tomar o torto caminho, linhas abaixo, de afirmar que “aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro”. Sim, pois não, foram necessários 50 anos para os senhores perceberem o desaparecimento de pessoas e descobrirem seus defuntos? Foram necessários 50 anos para que tivessem coragem ainda de vir a público com tão lamentável cinismo “lavar suas mãos”?

A verdade é dura, duríssima. A Globo, a Folha e uma penca apoiaram a ditadura e hoje ainda tentam retorcer a história para jogar pra debaixo do tapete os maiores podres.

Não somos “guardas” da história. Nem juízes. Mas não é preciso fardar ou embecar nenhum historiador para justificar que precisamos ficar atentos com o que acontece sob nossos narizes. Não vamos confundir distanciamento para a crítica com distanciamento político, acrítico.

Esses últimos causos são uma pedra no sapato para aqueles que ainda acham que o Tempo Presente não é coisa para historiadores. Não nos furtemos dessas discussões. O coloboracionismo dá as caras (de pau) em pleno 2014 e não levar isso a sério é de chorar, por razões diferentes das que dizia Ronaldo Vainfas em seu polêmico desafo esses dias no Facebook. Para mais a respeito do tal desabafo, recomendo a leitura de outro desabafo, a brava resposta da Caroline Silveira Bauer às colocações do colega.

Sigo de olho no “past blogging” da Folha, soou tão sofisticado que dá arrepio. Interessante para o pessoal da História Pública acompanhar o que esses caras vão fazer. Vamos acompanhar, mesmo que nauseados.

 

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