Month: October 2014

Dossiê: História Oral e História do Tempo Presente

Gostaria de compartilhar o novo número da revista História Oral que acaba de sair do forno com um dossiê sobre História do Tempo Presente.

Fiquei muito feliz em poder contribuir com este número, já que a História do Tempo Presente é algo pelo que tenho dedicado bastante atenção em minha curta, curtíssima vida acadêmica. Recuando no tempo, antes da graduação na UFRJ, lembro que certa vez fui com minha escola e colegas de Ensino Médio a um evento chamado “PUC de portas abertas”, ou algo do tipo, para apresentar a instituição e alguns cursos aos estudantes vestibulandos. Foi a primeira vez na vida que entrei em uma universidade e também era a primeira vez que eu me via tão perto da disciplina História. Foi lá também que ouvi a expressão “História do Tempo Presente” pela primeira vez. De imediato, soou um paradoxo. Um belo e intrigante paradoxo com o qual eu me encontraria anos mais tarde. Aquele dia nunca esqueci, também porque saímos da PUC e fomos ao Teatro Maria Clara Machado, no Planetário, assistir ao espetáculo Utopia, dirigido por Moacir Chaves e inspirado no texto fundador de Thomas Morus (1478-1535). Voltei no ônibus da excursão para Teresópolis, minha terrinha, chocada com a atualidade das sátiras da peça, li, reli e 4 anos mais tarde reli ainda uma vez o Utopia para um exame oral durante o intercâmbio acadêmico na Universidade de Florença, para a Disciplina Doutrinas Políticas, com a Professoressa Lea Campos Boralevi, com quem aprendi a amar o ofício, o magistério e a interminável leitura que acompanha nosso trabalho de forma muito especial. Por tudo isso, pensar o presente e a história do tempo presente foi tão prazeroso pra mim desde que me “formei” (se é que nos “formamos” um dia).

Enfim, agradeço e parabenizo às professoras Carla Simone Rodeghero e Márcia Ramos pelo esforço concentrado na realização deste número e convido todos para a leitura. É uma satisfação enorme estar nesse número em tão boa companhia.

 História Oral v. 17, n. 1 (2014): História Oral e História do Tempo Presente

Sumário

Apresentação – História Oral e História do Tempo Presente (5-6) Carla Simone Rodeghero, Márcia Ramos de Oliveira

Dossiê

História Oral, cidade e lazer no tempo presente (7-37) Fernando Cesar Sossai, Ilanil Coelho

Conversas na antessala da Academia: o presente, a oralidade e a História Pública Digital (39-69) Anita Lucchesi

Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis (SC) 1970-1990) (71-88) Silvia Maria Fávero Arend

Os outros rostos de “La Noche de los Lápices”: memória e testemunho dos sobreviventes de um episódio emblemático da repressão durante a última ditadura civil-militar argentina (1976-1983). (90-117) Marcos Oliveira Amorim Tolentino

História Oral e Tempo Presente: as entrevistas realizadas com pacientes/moradores do Hospital Colônia Itapuã (Viamão/RS) (119-134) Viviane Trindade Borges, Juliane Primont Serres

Multimídia

Luto, Identidade e Reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira e o testemunho no tempo presente (135-161) Sônia Maria Meneses

Artigos

Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser? (163-192) Angela Maria de Castro Gomes

Un largo camino a la privatización, memoria y resistencia en los trabajadores de los talleres de Tafí Viejo (Tucumán – Argentina) (193-218) Alberto Oscar Sosa Martos

“DOMINGO DE REMINISCERE”: TRAMAS MNEMÔNICAS DA ROMARIA DO SENHOR DOS PASSOS DE SERGIPE (219-242) Magno Francisco de Jesus Santos

Escre(vivência): a trajetória de Conceição Evaristo (243-265) Bárbara Araújo Machado

Entrevistas

A trajetória política de Sereno Chaise: da democracia de 1945 aos dias atuais (267-302) Claudira do Socorro Cirino Cardoso, Gustavo Coelho Farias, Laura Ferrarri Montemezzo Notas

JSTOR Daily: divulgação científica 2.0

jstordaily-emailO JSTOR lançou este ano um projeto paralelo: o JSTOR Daily. A novidade funciona basicamente como um blog que se propõe a publicar diariamente um conteúdo que ofereça ao leitor uma “nova forma de ver o mundo” (é mais ou menos assim que se descrevem), em linguagem acessível para o grande público e sempre bebendo na fonte do acervo digital do próprio JSTOR – um portal científico acessível para todos. Oferecendo tanto textos curtos, como textos um pouco mais longos, o projeto espera alcançar um público que não precise ter doutorado para entender as ideias de um pesquisador em seus artigos.

O tom da comunicação é diferente dos textões acadêmicos – monográficos, dissertativos, cheios de jargões e protocolos internos à comunidade pesquisadora, como as notas de pé de página. Mas, ainda assim, conserva certo rigor, resguarda uma autoridade, como se pode notar do que destaco das diretrizes editoriais do próprio projeto:

The voice is smart, curious, engaged, insightful, and friendly, but still authoritative. As readers make their way through a piece, they should feel smarter without feeling intimidated. The idea here is that scholars have interesting insights into the world, and one doesn’t have to hold a PhD to understand or appreciate those insights. Features will be written by a combination of journalists and scholars with the goal of highlighting the research in the JSTOR collection—every story will provide at least one link in to content on JSTOR.org. We’d like to tease out the still-relevant, newsworthy, entertaining, quirky, surprising, enlightening stories therein. Since JSTOR comprises primarily archival content rather than contemporary research, we imagine that each piece of content on the magazine site might tell a story about the present that is informed by the past, or at least provide a backstory to the stories of the present.

Por essas e outras, considero-o uma promissora iniciativa de história pública digital, porque:

1. Apresenta informações em diversos estratos, através de textos em camadas graças ao emprego de hipertextos (que fazem a ligação das referências dos textos com o acervo de fundo, além de sites externos);

2. Descentraliza a autoridade do pesquisador, empoderando o leitor para também produzir sentido para as fontes e bibliografias citadas no texto, não só disponibilizando os “créditos” da informação citada, mas o acesso instantâneo ao próprio documento ou literatura em questão, possibilitando processos de co-autoria, releitura, livre interpretação direta do original;

3. Promove uma experiência para além do texto (e da leitura), abrindo espaço para a curiosidade e o interesse próprio do leitor guiar a sua exploração do material além do texto-base, proporcionando uma experiência para além da leitura que apenas “escaneia” o texto e o abandona. No caso específico na história, essa proximidade com as evidências do texto e com a bibliografia trabalhado pode ser significativa na construção do pensamento histórico crítico da parte dos leitores “não especialistas”, favorecendo a percepção da historicidade das fontes históricas, bem como o caráter caráter construído da história como um produto social, mesmo quando se busca o conhecimento científico, e não uma equivalência de um passado que estaria dado nas fontes, tal e qual, “foi”.

O JSTOR Daily aparece com um proposta potente para divulgação de um acervo digital, especialmente porque adaptada à lógica da cibercultura e da Web 2.0 (só senti falta da seção de comentários para os textos), oferecendo a possibilidade de leituras mais rápidas e uma navegabilidade diferente da do impresso, que, contudo, não se perde, já que as referências estão lá para quem desejar “ir mais fundo”. Isso, porém, não é exatamente inédito. Procedimentos parecidos já vinham sendo feitos aqui e ali de maneira um pouco dispersa, intuitivamente, seguindo as facilidades da Web 2.0 para o compartilhamento do conhecimento. São inúmeros os pesquisadores que hoje em dia mantêm seus próprios blogs e perfis em redes sociais e fazem isso por conta própria, promovendo a sua produção autonomamente. No Brasil, temos crescentes exemplos dessa prática também em ambientes institucionais. Os dossiês da Biblioteca Nacional, por exemplo, e o Boletim Informativo “Sebastião” (AGCRJ), bem como a Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, realizam um trabalho similar de divulgação e promoção de acervos.

O que me despertou curiosidade em acompanhar o JSTOR Daily de perto, no entanto, para além do seu formato genuinamente digital (born digital, hipertextual), foi a proposta de uma publicação tão amiúde (diária), colaborativa e polifônica. A versão digital da Revista História Ciências Manguinhos, aliás, é um exemplo bastante próximo de divulgação científica no cenário brasileiro, guardadas as proporções e os diferentes escopos de um acervo como o JSTOR e desta revista. No post Diamantes, doenças e saúde em Angola (718 palavras), a divulgação via hiperlink do artigo  Cuidados biomédicos de saúde em Angola e na Companhia de Diamantes de Angola, c. 1910-1970, de Jorge Varanda, em um número recente da revista (vol. 21, n. 2, abr./jun. 2014), me parece uma estratégia de aspirações idênticas àquela do JSTOR Daily: convidar o leitor, seja ele especialista ou parte do “público em geral”, para ir diretamente às referências e, assim, promover maior acessibilidade àquele material, no caso da revista, os artigos dos seus números impressos, também disponíveis online na íntegra (via Scielo). No caso dessa revista, porém, é possível fazer login para deixar comentários nos posts, exatamente como em um blog. 🙂 Por outro lado, a avaliação, produção, edição e publicação de textos no blog da revista ainda se restringe a uma pequena equipe (10 pessoas, ainda que exista colaboração de convidados), enquanto o board de autores do JSTOR Daily promete se tornar gigantesco (qualquer pessoa interessada pode submeter uma postagem – longa ou curta, bem como propor uma coluna). Nada impede, porém, que amanhã a revista proponha novidades. Estou de olho! 😉

Por fim, deixo como recomendação a leitura do artigo “(Un)Catalogued: Finding Your Place by Looking at Maps” (932 palavras) de Megan Kate Nelson, do blog Historista, que também escreve para o JSTOR Daily. Num misto de linguagem acadêmica e jornalística, estilo que lembra um pouco o Blessay de Daniel Cohen, a autora parte de um diagnóstico do presente sobre orientação e memória, contextualizando a proeminência da tecnologia do GPS na geolocalização de pessoas hoje em dia e recua no passado para abordar a relação da história, da cartografia e da orientação num tempo em que mesmo os mapas de papel rareavam. Com esse movimento presente–passado, ela consegue engendrar as ligações internas para os materiais do JSTOR através de hiperlinks (ainda que o forte do JSTOR não sejam sobre o contemporâneo) e utilizar essas informações como argumentos de autoridade para o seu texto.

jstordaily

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