Arrumando as bagagens [ou: questões de (des)ordem pessoal]

[contém spoilers]

Desde 2008, quando criei este blog, venho procurando entender como a tecnologia digital pode contribuir com o ofício do historiador e em que medida isso pode (ou não) ter reflexos em nossas práticas – para o bem, ou para o mal, sem acepções maniqueístas, simplesmente tentando olhar essa relação por um viés qualitativo, sem grandes fanatismos ou ceticismos tecnológicos. A reboque desse meu interesse, cresceu a curiosidade pelo que seria a tal da história pública também, e como essas duas “coisas”,  digital e pública, se relacionam.

Ano passado (2014) foi bastante especial para mim, tanto pela coisa digital, quanto pública. Em março defendi minha dissertação, Digital history e storiografia digitale: estudo comparado sobre a escrita da história no tempo presente (2001-2011) e, no embalo, um outro artigo, mais curto e simplão, cujo o maior intento, assim como a dissertação, era pedir mais atenção ao debate sobre a história/historiografia digital. No segundo semestre, a Rede Brasileira de História Pública (RBHP) realizou o II Simpósio Internacional de História Pública e eu fiquei muito contente em ver que o tema do digital encontrou espaço nos fóruns organizados, em princípio, para a discussão da coisa pública. Houve mesa, grupo de trabalho e oficina.

Também foi ano passado que eu mergulhei de cabeça na prática em um projeto público e digital como o @Rio450, cuja experiência pude apresentar na UFF, no evento da Rede Brasileira de História Pública e, depois, em Amsterdam, na conferência anual da Federação Internacional de História Pública – IFPH (há um post dos estudantes com as impressões sobre o projeto aqui). Lidei de perto, diariamente, com as vantagens e desvantagens da comunicação para “o grande público” via uma plataforma social como o Instagram. Foi bom pra pensar sobre crowdsourcing, mas também muito aprendizado sobre como é trabalhoso fazer essa “tradução” ou “transcriação” do “academiquês” para um textinho aberto de 1000 caracteres. Vivendo e aprendendo, o exercício foi muito gratificante, com alguns percalços, verdade, mas o diálogo compensa tudo. Bota um cadinho mais de experiência na bagagem e simbora!

Para minha alegria, 2014 também me proporcionou entrar em novas salas, tendo por tópico principal a história digital (!). E como se aprende em sala de aula! Agradeço à pacientíssima amiga e Profa. Marcella Albaine por me acompanhar com tanta generosidade nesses primeiros passos em salas de aula do Ensino Superior. Não é segredo pra quem me conhece que eu adoro uma sala – de qualquer nível, em qualquer posição. Se pudesse, no meu aniversário estaria sempre em aula. É nesse lugar que muito da minha paixão historiadora se realiza. E 2014 me presenteou com novidades… UFRRJ, UFRN. Ô coisa boa!

Nesse mesmo ano, enquanto tudo acontecia na minha vidinha, a revista Estudos Históricos publicou um dossiê sobre História Pública, sublinhando o crescente interesse de historiadores brasileiros pelos debates acerca da chamada história pública, dentre outras coisas, comentando a criação da RBHP. Não tão longe de nós, o periódico colombiano História 2.0 – conocimiento en clave digital também lançava um dossier sobre História Pública (convocando para artigos em espanhol e português!). O corre-corre não permitiu mandar artigos pra esses dossiês, mas deu tempo de ler, aprender, compartilhar.

Já em 2015, foi a vez da História da Historiografia lançar chamada para o dossier A história e seus públicos. A circulação do conhecimento histórico: espaços, leitores e linguagens (envios até 31/08!) e da revista do Liinc divulgar outro dossiê fundamental sobre Memória na era digital: novos desafios às humanidades e aos estudos da informação, assunto que atravessa debates de história pública e digital.

De certa maneira, tudo isso que se desenrolou me fala um pouco das minhas angústias lá trás em 2008 (nem tão lá trás assim, mas o tempo presente -só ele? – voa). Mas juro que há sete anos eu não teria sido capaz de imaginar tudo isso. Aquilo foi quando o tema da minha monografia era aquela coisa “esquisita” e algumas pessoas que sabiam que eu era “a moça do digital” costumavam entender que eu também seria uma espécie de nerd, guru da informática, quase hacker. Nada disso (rs).

Hoje, além de estar feliz na comissão de comunicação da RBHP, também estou membro do Comitê de Estudantes de Novos Profissionais da IFPH, ansiosa pelos eventos que vão rolar em 2016 no Brasil (III Simpósio Internacional de História Pública, Nordeste) e em na Colômbia (III Conferência Anual da IFPH, Bogotá). Hoje estou feliz e ansiosa também por estar me preparando para uma mudança bastante grande: deixarei o Brasil por um tempo para iniciar em setembro os estudos de doutorado na Universidade de Luxemburgo, no seu recém-criado Laboratório de História Digital, sob a orientação do Prof. Andreas Fickers.

Graças à mesma tecnologia que me encafifou em 2008, essa partida não será tão drástica, mas devo confessar, deixando aflorar minha veia mais romântico-dramática: há sempre certa  antecipação de nostalgia em se saber em/de/sobre um exílio, neste caso, a escolha é livre e o choro também. Sentirei saudades de casa, da família, dos amigos, dos gatos… Do Rio e de São Cristóvão e Aracaju, onde arranjei um segundo pouso acadêmico com os queridos colegas do Grupo de Estudos do Tempo Presente.

Mas tudo há de valer a pena nesse caminho, sou baixinha mas suspeito que minha alma tem mania de se achar grandona. Depois desse agitado 2014-2015 de experiências, é hora voltar a sentir friozinho na barriga do primeiro dia de aula. Hora de empacotar tudo e partir, sabendo, desde já, que será mais duro escolher os livros do que as roupas que vão na mala. Sabendo que não dá pra despachar na esteira uma casa inteira, com seus enfeites, poeiras e avulsos nas gavetas. Que nossa senhora da eliminação de papel acumulado me ajude no descarte, que os amigos possam me encontrar para aquela série de saideiras (que estão mais para expulsadeiras como quer o preço dos cardápios cariocas). Que mamãe e papai não chorem tanto agora que estou ao alcance de um “zap-zap”. Que o mundo continue indo além e além e além do Soberbo pra essa teresopolitaninha aqui.

Drama à parte, vou tranquila porque ver que todo o debate que está rolando aqui só me anima e me dá mais gás para ir buscar elementos pra botar nessa roda. Vou, mas volto. Pelo menos, espero, em 2016, vir para a conferência da International Network for Theory of History na UFOP (propostas de trabalho até 15/12/15, quem vamos?) e aproveitar para comer umas canjiquinhas e tomar umas pingas no Rancho da pracinha em Mariana – porque Minas é amor e a História também me mostrou isso de bom). Aiai…

Um obrigada especial ao Prof. Dilton Maynard pelo incentivo de sempre.

E muito obrigada à minha querida Érika Melek pelo exemplo de coragem e apoio que me dá e me inspira de qualquer lugar do globo terrestre.

Invertendo as ideias do poeta: haja hoje para tanto amanhã.

Preciso de caixas de papelão.

Vamos em frente. Luxemburgo, aí vou eu!

Quando voltar, espero que o Cunha já tenha dado adeus há algum tempo, o aborto tenha sido legalizado, a maconha liberada, a homofobia criminalizada e que, finalmente, ser pobre deixe de ser um delito nesse país. Pedindo muito para três, quatro anos? Bem, não custa nada sonhar. Nada deve parecer impossível de mudar. E a luta continua, aqui ou do lado de lá. 

Por ora, Äddi / Au Revoir / Auf Wiedersehen!

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