História do Tempo Presente

Revista TransVersos: Dossiê As NTICs e a escrita da história no tempo presente

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Século XVI, Impressora de tipos móveis

No início deste século, refletindo acerca das mutações pelas quais passava o mundo da escrita, Roger Chartier afirmou que a “resistência” e o “estranhamento” do historiador à utilização ou a interveniência das novas tecnologias da informação e da comunicação (NTICs) no seu fazer pareciam-lhe “lamentações nostálgicas”. Por outro lado, completava, outros olham para esse novo espaço de interação e produção textual com “entusiasmos ingênuos” (2009:09).

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1959, IBM Stretch (Veja outros modelos na linha do tempo do Museu da História do Computador)

Passada quase uma década dessas palavras, o que mudou na discussão sobre essa questão no Brasil e no mundo? Com certeza, muitos escritos já se somaram às ideias apresentadas pelo

historiador francês na 10ª. Bienal Internacional do Livro. Mas, basta uma rápida visita aos trabalhos produzidos no país e verifica-se que a maioria discute formas de utilização das NTICs, relatam experiências, principalmente em sala de aula, mas, poucos se arriscam a romper a fronteira – ainda entendida como limitadora – de uma discussão funcional e auxiliar dessas tecnologias à escrita da história no tempo presente.

A proposta do presente dossiê pela linha de pesquisa Escritas Contemporâneas de História, do Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades – LEDDES/UERJ, pretende dialogar com aqueles profissionais – acadêmicos ou não – que ousam romper o “estranhamento” dessa fronteira e compreender, lembrando mais uma vez Chartier, sem o objetivo de profetizar, que a história se escreve no e para o presente, refletindo seus problemas e incorporando as tecnologias e as ferramentas existentes para essa escrita. Compreendendo, acima de tudo, “os significados e os efeitos das rupturas que implicam os usos” das NTICs nas escritas da história nos dias de hoje, seja a escolar, a pública, ou a historiográfica.

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2017 CVCE / C²DH, HistoGraphHistoGraph

Convidamos historiadores e demais profissionais que pensam a escrita da história ou a produção de narrativas, fundamentais para a concretude do conhecimento histórico, a enviarem suas reflexões acerca do tema, compreendendo a fronteira que se estabelece nessa discussão como lugar de encontro e não apenas de limites.

As colaborações serão aceitas até o dia 25 de outubro, na Plataforma da Revista TransVersos. As regras de submissão podem ser encontradas em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/transversos/about/submissions#authorGuidelines. Serão aceitos artigos em português, espanhol e inglês.

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6e Assises de l’historiographie luxembourgeoise

I am happy to share the upcoming event on the Historie du Temps Présent at the University of Luxembourg (UL). The Assises will be opened by a conference of Pieter Lagrou, from the Université Livre de Bruxelles, on November 19, 19:00, and the last session will be on November 21, in the afternoon, with a discussion about Media and Popular History, in which my supervisor, Prof. Andreas Fickers will give a talk together wth his colleague Paul Lesch, also from UL.

I am interested in attending it, not only because of my interest in the migration discussion in Luxembourg – which will be an issue for at least one session – but bescause the theme of the event itself, as it has been something of interest to me since my undergrad in Brazil: o Tempo Presente. I would like my colleagues from the Grupo de Estudos do Tempo Presente to be here, and join us in the discussion, even if the focus is the Luxembourgish Historiography.

You can find the full program below (click to enlarge), or access it here.

Registration by e-mail, contact: Elisabeth Boesen elisabeth.boesen@uni.lu

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Spread the word! 🙂

II Seminário Debates do Tempo Presente: Educação, Guerras, Extremismos

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No próximo mês (10 a 12 de dezembro), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) vai receber o II Seminário Debates do Tempo Presente, promovido pelo Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET-UFS) e pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPE (PPGE-UFPE). Este ano, o evento abordará a tríade Educação, Guerras, Extremismos.

Com variada oferta de Simpósios Temáticos, o evento promete uma atmosfera de convivência e debate positiva para trocas sobre a História do Tempo Presente (claro!), mas também para a História Pública, fazendo pontos com cinema, literatura e artes, ensino de história, relações internacionais, mídias e, para a alegria desta que vos escreve, história digital (ver ST 08). 😉

Pelo novo cronograma, o prazo para inscrições é 16 de novembro. Mais informações no site do evento.

Confira abaixo os Simpósios Temáticos

ST 01 – “História, Literatura e Arte”
Coordenadores: Profa. Dra Marizete Lucini (PPGED/GET/UFS)
Prof. Dr.Fábio Alves dos Santos (DED/UFS)

O simpósio temático História, Literatura e Arte propõe-se a acolher trabalhos que discutam aspectos da narrativa histórica e da narrativa de ficção como gêneros que comunicam experiências temporais. Nesse sentido, reflexões sobre romance, cordel, poesia, cinema, música, biografia e contos são aqui compreendidos para além de sua característica documental. Mais que documento, a literatura, o cinema, a poesia, o cordel, o conto, o romance e a música possibilitam ao leitor/ouvinte vivenciar diferentes experiências. Experiências que podem ser reinterpretadas, permitindo aos leitores/ouvintes estabelecerem relações de pertencimento e de identificação com os textos acessados, bem como permitem aos sujeitos do presente, habitar o passado e transformá-lo em memória. Memória que também o constitui como sujeito histórico no presente. Sujeito que se compõe a partir dos múltiplos agenciamentos de subjetividades experienciados nas diversas interações sociais que constituem sua singularidade.


ST 02 – “Produção e usos escolares da história do tempo presente”
Coordenadores: Prof.Dr. Itamar Freitas (PPGED/Rede Tempo Brasil/GETUFS)
Prof.Dr. Lucas Victor Silva (Rede Tempo Brasil/UFRPE)
Prof.Dr. Francisco Egberto Melo (URCA)

Este simpósio temático acolhe resultados de pesquisas que relacionem as expressões “tempo presente” e “usos da história”, sobretudo em sua dimensão escolar. Aqui, reiteramos a nossa preocupação com as diferentes noções de presente, as formas de organização desse presente nos currículos, nos livros didáticos e na historiografia de síntese voltada para o público adulto que fundamenta, em grande medida, a historiografia consumida pelos alunos da escolarização básica no Brasil e no exterior.


ST 03 – “ História, Cinema & Tempo Presente”
Coordenadores:
Prof.Dr. José Maria Neto (UPE)
Profa.Dra. Andreza S.C.Maynard (DCR-FAPITEC/GET/Pós-Doutoranda PPGH/UFRPE)

Discutir as aplicações do cinema na formação da cultura histórica, buscando, assim, estabelecer diálogos entre a disciplina e a arte cinematográfica, e estabelecendo trilhas e percursos para a utilização do cinema como elemento para a compreensão da recepção das eras históricas e também para o ensino desta disciplina.


ST 04 – “Educação Colonial, Catolicismo e Salazarismo”
Coordenadores: Prof.Dra. Giselda Brito Silva (Rede Tempo Brasil/ PPGH/UFRPE)
Prof.Ms.Carlos André Silva de Moura (UNICAMP)

Durante o período do salazarismo as produções historiográficas se esforçaram para legitimar as relações do regime com as colônias africanas, como justificativa de “civilizar o indígena”. Além da alfabetização, a ação defendia a constituição linguística em comum como condição para o desenvolvimento das colônias. A formação doutrinária da juventude também foi fundamental para a organização das instituições autoritárias, como a Mocidade Portuguesa e Legião Portuguesa, com a meta de educar “sob a medida das necessidades do regime”. No particular da educação da Juventude Salazarista aos interesses do império colonial, o Estado Novo contou particularmente com intelectuais e católicos militantes que circulavam entre Brasil e Portugal. Nossa proposta de simpósio temático é abrir um espaço de debate para os estudos das relações nos dois países, política e catolicismo e suas práticas no campo educativo.


ST 05 – “História e Relações Internacionais: debates e problemas”
Coordenação:
Prof. Dr. Daniel Chaves (Unifap/Rede Tempo Brasil)
Prof. Dr. Lucas Pinheiro (NURI/UFS)

Diante do consagrado encontro entre as áreas de conhecimento da História e das Relações Internacionais, o objetivo deste Simpósio Temático é o de promover encontros entre pesquisadores sêniores e jovens, suscitar perspectivas inovadoras e recensear debates clássicos entre tais áreas e campos de discussão. Tanto ao historiador quanto ao internacionalista, bem como profissionais de áreas contíguas – sociólogos, cientistas políticos, economistas, entre outros – tal encontro buscará promover um duplo movimento: o da contextualização de discussões globais, por um lado, e o da internacionalização das discussões  regionais e brasileiras, por outro, afinando tendências emergentes e estabelecidas. Não menos importante, temáticas contemporâneas em corte histórico como Defesa, Segurança, Cooperação e Mundialização encontrarão espaço para articulação e destaque para a comunidade acadêmica presente.


ST 06 – Ensino de História do Tempo Presente
Coordenação:
Prof. Dr. Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ/UCAM/Rede Tempo Brasil)
Prof. Dr. Karl Schurster (PPGE- UFPE/ Rede Tempo Brasil)

A grande questão sobre o papel da escola no ensino das ditaduras e regimes de ódio se coloca perante os insucessos ocorridos em países – como Alemanha, Itália, Áustria e Espanha – onde, malgrado a excelência das condições escolares, o ensino, os currículos e os recursos pedagógicos não foram suficientes para formar uma nova juventude crítica e desvinculada de brutais atos de racismo e de violência, simbólica e física, contra o outro. Nas ruas, nos estádios de futebol, nos bares e mesmo em ambientes de trabalho, multiplicam-se atos de racismo e de exclusão. Daí a relevância, crucial, dos estudos e de debates sobre o papel da escola e do ensino da história contemporânea, no tocante às ditaduras modernas e seu caráter de ódio ao outro e a questão central que se coloca: estamos nós mesmos, no Brasil, construindo recursos pedagógicos necessários para a construção de uma convivência, presente e futura, fraterna e despida dos tremendo efeitos nefastos do racismo e da negação do outro? Conseguiremos superar, debater criticamente, o que já foi denominado de fascínio, die Schöneschein, de uma cultura da violência e da rejeição ao outro nas nossas escolas? Claro está, que não apenas os currículos e instrumentos pedagógicos disponíveis para os professores, resolverão, de per si, tais questões. O próprio estado geral da educação básica no Brasil, com seu ônus nas séries iniciais de alfabetização, é um elemento de incapacitação crítica, um óbice ao processo educacional como ato emancipatório, como queria Anísio Teixeira. Assim, esse simpósio busca propostas de pesquisam que se debrucem sobre o ensino de história do tempo presente, suas variadas formas e possibilidades, procurando entender limites e desafios para essa área de conhecimento.


ST 07 – Educabilidades políticas no tempo presente
Coordenadora: Profa.Dra. Adriana Maria Paulo da Silva (PPGE/UFPE)
Prof. Dr. André Ferreira (PPGE/UFPE)

Interessa-nos discutir as pesquisas a respeito das maneiras pelas quais os indivíduos e grupos têm operacionalizado intenções e propostas educativas, em ambientes escolares e não-escolares, tendo em vista a promoção de ações políticas (potencialmente transformadoras de alguma situação individual ou coletiva existente e/ou das ações sociais de grupos e/ou indivíduos) ou o fomento de estratégias de atuação política.


ST 08 – História Digital: conceitos, fontes, métodos e experiências
Coordenadores:   Prof.Dr. Dilton C.S. Maynard (PPGED-UFS/Rede Tempo Brasil)
Profa.Ms. Anita Lucchesi (Rede Tempo Brasil)

Este simpósio pretende congregar trabalhos que se dediquem a refletir sobre o estudo e a representação do passado a partir de novas tecnologias da comunicação, assim como a produção e a preservação de fontes digitais, considerando as potencialidades dos recursos digitais para a pesquisa e para o ensino da História. Esperamos colaborar para o debate sobre os desdobramentos da emergência dos registros digitais no ofício do historiador e sobre as transformações nas experiências de leitura, acompanhamento e argumentação em torno de questões históricas.


ST 09História, Mídias e Tempo Presente
Coordenadora: Sônia Menezes (URCA/Rede Tempo Brasil)

Este simpósio tem como objetivo refletir diferentes formas de escrita do passado na contemporaneidade: artes plásticas, séries e livros jornalísticos, séries de televisão, internet, novelas, materiais didáticos, documentários, jogos, fotografia, etc. Produtos que quase sempre se situam fora do campo científico da história e que se materializam em narrativas históricas de grande apelo social. Nossa intenção é abrir um espaço para trabalhos que investiguem tais produções e suas narrativas sobre o passado; pensar como estas interferem na compreensão histórica do nosso tempo.

ORIENTAÇÕES GERAIS: 

ENVIO DE RESUMOS PARA OS SIMPÓSIOS TEMÁTICOS via debates@getempo.org

As inscrições serão efetuadas mediante envio do resumo até 07 de novembro de 2014 para o e-mail debates@getempo.org. Confira as instruções abaixo:

  1. ATENÇÃO: O arquivo com o resumo deve ser enviado em formato doc ou docx (Word for Windows) e identificado da seguinte maneira: Nome e sobrenome do AUTOR e do CO-AUTOR (se houver)_CÓDIGO DO SIMPÓSIO. Ex: JULIA ASSAD e EDUARDO DENNIS_ST01

O arquivo deverá conter:

  1. Título do Trabalho em caixa alta, destacado em negrito, centralizado.
  2. Nome do autor e co-autor (se houver), destacado em negrito.
  3. Informações sobre o autor e co-autor (se houver): curso, instituição de 
fomento, e- mail.
  4. Será aceito apenas um trabalho em co-autoria.
  5. Nome e titulação do orientador e departamento ao qual pertencem, destacado em negrito.
  6. Simpósio selecionado (a indicação de um segundo simpósio temático, 
em caso de não aprovação no primeiro, é opcional).
  7. O resumo virá abaixo deste cabeçalho e deve possuir de 600 a 1000 
caracteres com espaçamento, contando ainda com três palavras-chave.

Os trabalhos serão avaliados pelo Comitê Científico do Seminário com base nos seguintes critérios:  a) Relevância e pertinência do trabalho;  b) Consistência na argumentação;  c) Respeito às normas de formatação estabelecidas pela Organização do evento Os trabalhos que não atenderem aos critérios acima serão AUTOMATICAMENTE EXCLUÍDOS.

Os trabalhos aprovados serão divulgados em 16 de novembro de 2014 através do site do evento: http://debates.getempo.org

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO DOS TRABALHOS COMPLETOS:

Os trabalhos completos, juntamente com os comprovantes de depósito digitalizados, deverão ser enviados entre 17 e 26 de novembro para o e-mail debates@getempo.org, obedecendo às seguintes normas:
Cabeçalho: Título do Trabalho em caixa alta, destacado em negrito, centralizado; nome do autor e co-autor (se houver), destacado em negrito; informações sobre o autor e co-autor (se houver): curso, instituição de fomento e e-mail; nome e titulação do orientador e departamento ao qual pertence, destacado em negrito. Simpósio temático selecionado. O trabalho deve possuir de 8 a 12 páginas, fonte Times New Roman, letra tamanho 12, espaçamento 1,5, formatação justificada.
O sistema de citações será o AUTOR-DATA. As citações deverão ser indicadas no texto, informando o sobrenome do(s) autor(es) mencionados, na sequência (AUTOR, ano, página). Notas de rodapé poderão ser utilizadas apenas em caráter explicativo.

PAGAMENTO: valor único R$ 25,00

CONTA PARA DEPÓSITO IDENTIFICADO: Banco do Brasil Agência: 0673-4 Conta corrente: 44.103-1 ALANA DE MORAES LEITE

No ar: nº16 da revista eletrônica Cadernos do Tempo Presente

Confiram o novo número (n. 16) dos Cadernos do Tempo Presente. Agora no Open Journal Systems, para a comodidade de todos, autores e leitores.

Acesse aqui.

#‎Artigos‬

E se (com) vivêssemos todos juntos? Ensaio sobre a história do tempo presente
*Karl Schurster*

A História do Tempo Presente no Exame Nacional do Ensino Médio (1998-2012): um Mapa de Conceitos, Competências e Habilidades
*Kleber Luiz Gavião Machado de Souza e Maria Inês Sucupira Stamatto*

Caracterizações do governo de Hugo Chávez na ótica dos estudos acadêmicos
*Eduardo Scheidt*

Formas de provimento do cargo de gestor escolar em Alagoas: tendências e configurações atuais na rede de educação pública municipal
*Isabela Macena dos Santos e Edna Cristina do Prado*

Trajetória e Identidade Cultural na Comunidade Negra Rural de Lagedo – Mirangaba-BA
*Marcelo Nunes Rocha e Carmélia Aparecida Silva Miranda*

A “Civilização do Couro”: Desenvolvimento do Capital Transnacional no Sul do Mato Grosso (1870-1920)
*Carlos Alexandre Barros Trubiliano*

#‎Resenhas‬

Atuação de Joel Silveira na imprensa carioca entre 1937 a 1944
“Cleverton Barros de Lima*

Münchener Post: o Periódico que Combateu o Nazismo
*Fábio Fiore de Aguiar*

 

NOTA: Cadernos do Tempo Presente é uma revista eletrônica trimestral do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET), ligado ao Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Recebe artigos e resenhas para publicação que em fluxo contínuo. E não é restrita apenas à História, seguindo a própria inspiração e composição do GET, seão bem-vindas produções de historiadores, geógrafos, cientistas sociais, filósofos, jornalistas, economistas, psicólogos, estudiosos das relações internacionais, dos meios de comunicação e demais áreas das ciências humanas.

Boletim Historiar

No ar a nova revista discente “Boletim Historiar“, nascida das boas ideias e do empenho dos colegas da Universidade Federal de Sergipe, do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS). Parabéns, pessoal!

Neste número, faço uma pequena contribuição, com o artigo Por um debate sobre História e Historiografia Digital, mas deixo o convite para que confiram o número na íntegra, que trás discussões sobre o filme na história, música, patrimônio e tempo presente, além de resenhas quentíssimas.

Boletim Historiar, n. 2 (2014)

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Artigos

Além do que se vê: o filme, objeto da história
Dilton Maynard
Entre a Alternância e a Hegemonia Política: o Paraguai no Tempo Presente
Karl Schurster, Márcio Brito
Retóricas identitárias no circuito do Choro de Aracaju
Daniela Bezerra
Patrimônio aos olhos de quem? Um breve estudo sobre a construção do conceito ‘Patrimônio Histórico’
Jandson Soares, Wendell Souza

 

Resenhas

Integração Sul-ameriana no Tempo Presente
Gabriela Resendes
Redes de Indignação e Esperança: Movimentos sociais na era da internet
Paulo Teles

5o anos do golpe militar de 1964 e muita historinha

Temos muito que refletir sobre o modo como estamos lembrando esse passado duro e traumático. As tentativas de recontar, ressignificando a história, são inúmeras. Pode-se argumentar “toda história é interpretação”, mas coloquemos algum limite a essa transcendência do texto e dos signos aos fatos, pois limites. E fatos. Podemos falar deles de inúmeras maneiras, podemos até discordar aqui e acolá de algumas questões, mas não podemos negar que há fatos. Não deixemos que inventem ditabrandas com as caras mais lavadas. Não deixemos que encharquem as lembranças de dolorosas interjeições com um sem fim de conjunções adversativas (como bem observou o colega Rodrigo Turin sobre os últimos imputs da mídia). Não houve nada cor de rosa. Se, apenas se, houvesse uma cor, essa cor seria chumbo.

Chamou minha atenção a Folha começar essa noite um “past blogging” (narrando o passado como se fosse “ao vivo”). Fico pensando no quanto de jornalismo, no quanto de história e no quanto de ficção pode haver aí nesse instantâneo anacrônico, especialmente depois da publicação hoje de um edital mea culpa bem comprometido, num discurso rapidamente identificável como apologético a esse negociado passado ditatorial por quem não esqueceu das coisas, mesmo depois de quererem passar tanta borracha, não é, Demian Melo? Um edital que começa afirmando o óbvio merecimento do repúdio à Ditadura hoje só poderia tomar o torto caminho, linhas abaixo, de afirmar que “aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro”. Sim, pois não, foram necessários 50 anos para os senhores perceberem o desaparecimento de pessoas e descobrirem seus defuntos? Foram necessários 50 anos para que tivessem coragem ainda de vir a público com tão lamentável cinismo “lavar suas mãos”?

A verdade é dura, duríssima. A Globo, a Folha e uma penca apoiaram a ditadura e hoje ainda tentam retorcer a história para jogar pra debaixo do tapete os maiores podres.

Não somos “guardas” da história. Nem juízes. Mas não é preciso fardar ou embecar nenhum historiador para justificar que precisamos ficar atentos com o que acontece sob nossos narizes. Não vamos confundir distanciamento para a crítica com distanciamento político, acrítico.

Esses últimos causos são uma pedra no sapato para aqueles que ainda acham que o Tempo Presente não é coisa para historiadores. Não nos furtemos dessas discussões. O coloboracionismo dá as caras (de pau) em pleno 2014 e não levar isso a sério é de chorar, por razões diferentes das que dizia Ronaldo Vainfas em seu polêmico desafo esses dias no Facebook. Para mais a respeito do tal desabafo, recomendo a leitura de outro desabafo, a brava resposta da Caroline Silveira Bauer às colocações do colega.

Sigo de olho no “past blogging” da Folha, soou tão sofisticado que dá arrepio. Interessante para o pessoal da História Pública acompanhar o que esses caras vão fazer. Vamos acompanhar, mesmo que nauseados.

 

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Holocaust Denial and the Web: a conference in Rome, April 10-11, 2014

via Serge Noiret |Original post here

sissco-logoOn April 10 and 11 at the University of Rome 3 (Dipartimento Fisolofia, Comunicazione, Spettacolo) the SISSCO, (Società Italiana per lo Studio della Storia Contemporanea), will hold an important academic conference about the role of contemporary historians confronted with Holocaust denial on the web.

Should legislation be voted in Italy contrasting Holocaust Negationism? And, more generally, should History, when unable to build a firm culture of the past widely accepted in societies, be ruled by legislation?

These issues have been discussed in many European countries; some laws aiming at governing legally the past and telling about politically correct memories and what exactly is the truth about the past, have been voted in France, in Spain, and in other countries. Professional historians are generally against the idea to force societies to adopt a so-called “correct history of their pasts” defined by law and, in France, a committee was born using its own very active blog to contest the idea that telling the truth in history could be enforced by the law: the Comité de vigilance face aux usages publics de l’histoire (Committee of vigilance on the public use of history) wrote a manifesto on June 17, 2005 against the “entrepreneurs of memory” and political uses or misuses of history.

The debate has entered the public sphere in Italy too and the main association of contemporary history academic historians, Sissco, collected a “dossier” analyzing the press debate about holocaust denials and promoted an official petition signed by many contemporary historians against the use of the law in history: “Modifiche all’articolo 414 del codice penale in materia di negazione di crimini di guerra e di genocidio o contro l’umanità e di apologia di crimini di genocidio e crimini di guerra“.

But the Holocaust of the Jews during the second world war is unique: should historians and the civil society accept that the Shoah be openly and publicly contested and denied and hate speech widely diffused through the Internet? Is it possible to use a penal legislation against negationist web contents published everywhere in the world and accessible also in Italy? Should the Italian legislator vote a law defending the truth against offensive, racist and anti-Semitic revisionist propaganda and condemn hate speech legally?

These activities and also the academic conference promoted in April in Rome described below, are showcasing the direct participation of academic historians in the policy in Italy, what was in the early ’90 defined by Nicola Gallerano as being part of the “uso pubblico della storia”. Will these political and academic activities be able to maintain also for the young generation the awareness of what happened in Europe during WW2 and about keeping alive a correct memory of the holocaust using properly the web?

It is of course my opinion that academic conferences are important but are not enough and that we need to act in the virtual space and promote the digital public history of the Shoah and of other genocides perpetrated by the Nazi and their allies looking at how best presenting the evidences of the Holocaust and engaging different communities about these issues.

 European Holocaust Research Infrastructure

 EHRI logo_3Building awareness of the past using a public history approach is being done by the ERIH project  (European Holocaust Research Infrastructure) in Europe to support the Holocaust research community, provide access to the primary sources dealing with the Holocaust and encourage collaborative research in the field. What could be the role of public historians in maintaining a correct perception of what has been the Holocaust and engage with fighting negationism on the web? How could the web itself, and social media, in close contact with other public activities, fight back an aggressive negationist approach like what is diffused online in Metapedia, the so-called alternative encyclopedia if you look for the non-existing keyword “holocaust”?

Metapedians redirected tJewish casualties during World War II - Metapediahe keyword “holocaust” -nothing to read about in a specific entry- to another Metapedia entry called “Jewish casualties during World War II” avoiding the use of what they call a useless and mystifying buzzword, the Holocaust of the Jews.
So I quote here a full paragraph (accessed on Wednesday March 12, 2014) of this entry in order to understand how far the negationist propaganda in the web can go, contradicting all the basic evidences of historical research and the memory of who suffered in the nazi camps. Reading this paragraph and the whole entry online, you will discover another history, the kind of narrative which is banned by law in other countries like in France and would be banned in Italy too voting a new legislation: “Some Jews controversially claim the German government had an “official policy” of extermination, where “6 million” were killed in homicidal gas chambers and turned into soap or lampshades. Confidence trickster, Elie Wiesel, applied the religious term “The Holocaust” to this framing in the 1970s. Since then, the construct has been used as a political weapon to promote Germanophobia and Europhobia in general. It is used as moral justification for the Zionist war on the Palestinians, as well as part of an illustrious money-making industry. In some countries it is illegal for historians and investigators to openly state a dissenting view and some have been incarcerated for thought criminality as prisoners of conscience.”

Digital Public Historians are present in other countries and monitoring this “negationist web” which engages -systematically in the case of Metapedia- in rewriting the past, all the past and supports nationalistic, fascist and Neo-Nazi ideologies. These holocaust deniers are using the web from many years now. They have embraced the web as their elected media to communicate a false narrative of many pasts in the Metapedia, not only about the Holocaust, and remove memories and evidences of scientific historical research from the web, when these results are not supporting their goals. These political propagandists are using the architecture and stylistic presentation of Wikipedia together with the so-called “objective way to present facts” that Wikipedia has promoted from its creation in 2001 to give a semblance of truth to their discourses and misuses of memories.

ERIH has already organized an important international conference in July 2013 Public History of the Holocaust - European Holocaust Research Infrastructure about Public History of the Holocaust: Historical Research in the Digital Age “that was hosted by the Jewish Museum in Berlin. Facilitated by EHRI and two other European infrastructure projects supporting humanities research, DARIAH and TextGrid, and sponsored by the German Ministry of Education and Research, the conference brought together policy makers, archival and memory institutions, and academics to reflect on the challenges and opportunities the digital age offers for the public history of the Holocaust.”

Negationism in the digital realm was one of the central issue of this discussion.  Georgi Verbeeck, Professor of German History at the University of Leuven, “…reflecting on the continuing problem of Holocaust negationism, arrived at a nuanced assessment of the efficacy of current research and educational practices to prevent similar atrocities from re-occurring. Many small narratives of concrete experiences may provide powerful mirrors that can spur individuals to effective responses and positive actions….” What is important to quote from Verbeeck’s speech about how to use and promote the sources and memories of the Shoah in the digital realm, reflects on the fact that “the web is particularly suited to organise and publish […] small narratives“.

The concluding debates were saying about “the effectiveness of legal tools to counter internet hate speech; the opportunities and limits of the digital environment for tackling new historical questions; the ever present danger of a (digital) de-historicisation and de-contextualisation of Holocaust discourse.”

We may hope that the Rome conference in April 2014 will engage with the later issues dealing with in the making digital public history of the Holocaust.

IBC- La storia a l  tempo di Internet
http://online.ibc.regione.emilia-romagna.it/h3/h3.exe/apubblicazioni/Fanalisi

Measuring the presence of contemporary history in the web, the use and misuses of history in the digital realm, was the aim of a project started at the end of the 20th century between 1999 and 2000 in Italy. The results were published by the IBC (Istituto per I beni Artistici, Culturali e Naturali dell’Emilia Romagna) in Bologna, in 2004, after three years of researches done by an interdisciplinary team of historians and public historians which looked at the Italian history web and collected Italian contemporary history web sites and proposed a critical method for analyzing them systematically. The project and the book were coordinated by Antonino Criscione, Serge Noiret, Carlo Spagnolo and Stefano Vitali: La Storia a(l) tempo di Internet: indagine sui siti italiani di storia contemporanea, (2001-2003)., Bologna, Pátron editore, 2004. The authors verified that an active revisionist narrative was populating the web and promoting alternative memories of WW2. Memories of the militias of the Salo Republic, allied with the Nazi between 1943 and 1945 and co-authors with the Germans of the deportation of Italian Jews, was finding a media and a place to proliferate without boundaries, these boundaries that Italian academic historians and European public historians are now discussing.

The web is easily accessible for everybody to produce its own vision of the past and is able to promote and diffuse alternative memories, something that I have explained in my essay in French,  La digital history : histoire et mémoire à la portée de tous.

So, the important conference in Rome will go forward in an extended academic reflection dealing with how the web could be used and misused to promote everybody’s memory and vision of the past and contrast hate speech and holocaust deniers activities in the digital realm.

This is the full program of the conference:

Shoah e negazionismo nel Web: una sfida per gli storici
Roma, 10 e 11 aprile 2014,
Università Roma Tre
Sede della Camera dei deputati
Giovedì 10 aprile 2014
(sede Università Roma Tre)
14,30
Mario Panizza, Rettore Università degli studi Roma Tre*
Paolo D’Angelo, Direttore Dipartimento filosofia comunicazione spettacolo
Agostino Giovagnoli, Presidente Società italiana per lo studio della Storia contemporanea
15,00
La storia, le memorie e la didattica nel Web
Presiede Michele Sarfatti (Fondazione Centro di documentazione ebraica contemporanea)
Alberto Cavaglion (Università di Firenze)
Usi e abusi della memoria
Guri Schwarz (University of California, Los Angeles)
La legge di Godwin:la Shoah nella rete e nell’immaginario collettivo
Laura Fontana (Memorial de la Shoah, Paris)
La trasmissione della Shoah nell’era virtuale: una deriva della lezione su Auschwitz?
Damiano Garofalo (Museo della Shoah, Roma)
Fonti orali, audiovisive e memoria della Shoah nel web e nel digitale
David Meghnagi (Università Roma Tre)
L’esperienza del Master “Didattica della Shoah” di Roma Tre
Laura Brazzo (Fondazione Centro di documentazione ebraica contemporanea)
I Linked Open Data per la storia della Shoah. Verso il Web 3.0
18,00
dibattito
Venerdì 11 aprile 2014
9,30
L’universo digitale del negazionismo
Presiede Renato Moro (Università Roma Tre)
Claudio Vercelli (Istituto di studi storici Gaetano Salvemini)
Il negazionismo nel web
Valentina Pisanty (Università di Bergamo)
I linguaggi del negazionismo nel web
Gabriele Rigano (Università per stranieri, Perugia)
I circuiti del negazionismo tra carta stampata e web
Emiliano Perra (University of Winchester)
Negazionismo e web: il caso inglese
Valeria Galimi (Università della Tuscia)
Leggi memoriali, negazionismo e web: la discussione in Francia
12,00
dibattito
14,30
(Sala Zuccari, Palazzo Giustiniani, Via della Dogana Vecchia da confermare)
Introduce
Ernesto De Cristofaro (Università di Catania)
La legislazione in Europa e in Italia
Contro il negazionismo: Una legge utile o dannosa?
Tavola rotonda
presiede Tommaso Detti
partecipano:
Marcello Flores, Anna Rossi Doria ed altri,
* In attesa di conferma

Sábado “Divino, Maravilhoso” no Pré-vestibular Social (JAC)

Este sábado (19.10.2013) a aula foi diferente. Ao invés da exposição dialogada costumeira, com apoio no quadro ou no datashow, resolvi levar documentos e textos de apoio para serem discutidos em grupo pelos alunos. O tema era Ditadura Militar no Brasil, mas em geral, o subtexto era: censura, repressão, centralização do poder.

Cada grupo teve 2 minutos para apresentar sua análise à turma. Entre uma apresentação e outra tivemos espaço para comentários meus e de outros grupos sobre o assunto apresentado. Trabalhei os mesmos conjuntos de documentos com todas as turmas e desde o início do dia, havia 06 kits com distintos documentos, de modo que realizamos a atividade em até 06 grupos, nas turmas maiores.

Alguns registros da atividade

Alguns registros da atividade

Para fazer a análise dos documentos, a orientação foi a seguinte: identificar natureza e autoria do documento, bem como localizá-lo no tempo; selecionar um trecho ou uma imagem para ser lido/mostrada para a turma e justificar a seleção feita pelo grupo em face ao tema da aula. Muito interessante como cada aula foi singular nesse aspecto, a seleção dos trechos e das imagens mudando de grupo para grupo. Gostaria muito de ter tido mais tempo para desenvolver essa atividade. Um tempo de aula deixou na vontade. Preenchemos juntos um quadro com palavras-chave extraídas e/ou inspirada nas “fontes”. Cada grupo pode escolher duas palavras, se a palavra escolhida já estivesse no quadro, poderia ser apagada e reescrita maior.

Em dois conjuntos de documentos havia materiais sobre o Tempo Presente (presentíssimo) de 2009 e 2013. Meu objetivo com esta seleção era problematizar a diferença recentemente cobrada na prova da UERJ entre as manisfestações daquele tempo (1968) e as atuais: o fato de as primeiras estarem inscritas em um período ditatorial e as últimas em um Estado de Direito (veja a resolução comentada da questão nº 57 do 2º Exame de Qualificação 2014 na Revista Eletrônica do Vestibular Estadual). Para adicionar um quê da cultura material das manifestações mais recentes, levei para a sala a máscara e os óculos de proteção que tenho sido obrigada a utilizar em alguns atos por conta dos excessos da PMRJ nos “confrontos com manifestantes”, como diz o mainstream da nossa mídia, mesmo em pleno estado de direito.

Neste sábado a aula foi pra mim. Aprendi tanto tanto, do quanto precisamos reinventar todos os dias o nosso lugar e do quanto é maravilhosa essa profissão professora que nos últimos dias me fez chorar de verdade.

O resultado do quadro, ao final do dia, fala por si:

Ditadura me lembra...? Quadro preenchido pelxs alunxs

Ditadura me lembra…? Quadro preenchido pelxs alunxs

Os documentos trabalhados foram:

  • Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968
  • Lei nº 7.170, de 14 de dezembro de 1983 (que define os crimes contra a segurança nacional e a ordem social)
  • Charge de Fortuna publicada no Correio da Manhã em 07/10/1966
  • Charge do Latuff sobre a morte do Herzog + foto do Herzog encontrado morto
  • Cartaz “Saia conosco da sombra”, Movimento Feminino pela Anistia no Brasil, 1975.
  • Livro “Brasil nunca mais”, projeto “Brasil: nunca mais
  • Trecho do livro “Violência pra quê?” (2011) de Anselm Jappe
  • Capa de O Globo de abril de 04 de abril de 1968
  • Capa de O Globo de 17 de outubro de 2013
  • Reportagem “Apologia a atos de violência nas redes sociais pode ser considerada crime, diz delegado” (O Globo, 15/10/2013)
  • Reportagem  “STF derruba Lei da Imprensa editada durante a ditadura” (Jornal da Cidade 01/05/2009)
  • Postagem da página do Facebook “Ninja” (Mídia Ninja) intitulada “Ditaruda 2.0” de 16 de outubro de 2013.
  • Foto de uma manifestação em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro na tarde desta quinta-feira, 17 de outubro de 2013, em solidariedade aos presos políticos do dia 15.
  • Foto da Passeata dos Cem Mil, 1968

Textos de apoio:

  • O AI-5, Maria Celina de Araujo (FGV)
  • Censura nos meios de comunicação, Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg (Memórias Reveladas)
  • Movimento pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, ABC de Luta

Outro material de apoio:

Afixei em um canto do quadro para consulta uma cronologia de todos os presidentes do 1964 a 1985, com foto e destaque para principais características do governo. Foi um recurso importante para que xs alunxs pudessem localizar de que período eram as informações encontradas nos documentos e textos de apoio.

Outro recurso utilizado foi o áudio. Lei uma playlist de canções de protesto, com textos de contestação e denúncias. Durante a aula, deixei o som ligado em volume baixo e em alguns momentos oportunos, durante a análise das fontes ou entre a apresentação de um grupo e outro, eu aumentava o volume e chamava atenção para um trecho específico da composição, mencionava o ano, o compositor e relembrava as estratégias para furar a censura.

A playlist pode ser ouvida via Youtube clicando na imagem abaixo (não sei porque o WordPress não está incorporando-a diretamente aqui). Em seguida, alguns trechos destacados das composições:

playlist

1.Panis Et Circensis, Caetano Veloso e Gilberto Gil (1968)

“(…)Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer (…)”

2. Novena, Alceu Valença e Geraldo Azevedo (1972)

“(…) Enquanto família reza a novena
As notícias
Que montam cavalos ligeiros
Vão tomando todo o mundo
Na casa, no lar
Esquecidos, todos ficam longe
De saber o que foi que aconteceu
E ali ninguém percebeu
Tanta pedra de amor cair
Tanta gente se partir
No azul dessa incrível dor

(…)

De orações a fala se faz
E lá fora se esquece a paz
Uma bomba explodiu por lá
Sobre os olhos de meu bem
E assim me mata também
Enquanto a novena chega ao fim
Bambas, bandeiras, benditos
Passando pela vida
E a novena se perde esquecida
De nós (…)”

3. A massa, Raimundo Sodré (1980)

“(…) A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

(…)

Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

(…)

A massa que eu falo é a quepassa fome, mãe
A massa que planta a mandioca, mãe (…)”

4. Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré (1968)

“(…) Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

(…)

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição (…)”

5. Mosca na sopa, Raul Seixas (1973)

“(…) E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar (…)”

6. Divino, Maravilhoso, Caetano Veloso e Gilberto Gil (1968)

“(…)Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
(…)
Pro palavrão, para a palavra de ordem
Atenção para o samba exaltação
(…)
Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão (…)”

7. Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio (1973)

“(…)Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou (…)”

8. Apesar de Você, Chico Buarque (1978)

“(…) Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar (…)”

9. Cálice, Chico Buarque e Gilberto Gil (1973)

“(…)Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue (…)”

10. Ponteio, Edu Lobo e Capinam (1967)

“(…) Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro…

Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar (…)”

O Globo em 17.10.2013 – Muito aquém do papel de um jornal

[e-mail enviado por mim ao “O Globo” neste dia 17.10.2013. A capa em questão encontra-se aqui]O Globo,

A capa deste dia 17 de outubro de 2013 é uma afronta à nossa inteligência, à nossa humanidade e ao nosso bom caráter. Quando digo nosso é porque me incluo entre os vândalos acusados e criminalizados pelo seu jornal. Quando digo nosso, falo em nome dos meus professores e meus colegas da educação.

Entendo que um jornal tenha uma linha editorial, mais à esquerda, mais à direita, o que for. Estamos em um país democrático, não estamos? Então a liberdade de expressão deve ser garantida e cada um pode escrever o que quer, não é assim?

“Só” há um pequeno grande problema nisso tudo: um jornal que se compromete a informar a sociedade, um veículo de grande circulação que se sabe predominante onde é vendido, deveria ter, minimamente, o dever ético de zelar pela qualidade da informação que oferece à sociedade. Ao contrário, O Globo, não é de hoje, vem utilizando termos pejorativos para se referir aos manifestantes e desta vez, bateu o recorde aludindo ao clássico “Crime e castigo”, sugerindo a culpabilização e a punição dos cidadãos que foram às ruas dizer que são contra o precário estado em que a educação se encontra. Sugeriu, com todas as palavras, não só nas entrelinhas costumeiras, que o manifestante é um crimonoso. Disse que o engajado foi baleado. Ora, pelo amor de Deus (que nada tem a ver com isso): que mensagem os senhores querem passar aos seus leitores? Não. Obrigada, não carece resposta. Foi só força de expressão, desabafo.

A conivência do jornal com a repressão e o autoritarismo desse Estado já era sabida, salvo raros momentos de “exceção”. Desculpem qualquer trocadilho. Vocês tiveram a chance de no final do dia publicar uma “Autocrítica” qualquer, mas ao invés disso vimos as clássicas correções do bom Português. Mas, se querem saber, dou minha cara à tapa se as minhas colegas de Língua Portuguesa não prefeririam ver retratadas as palavrinhas: “vândalos”, “cadeia”, “crime”, “castigo” etc. Ali havia muito mais que erro!

Não sou assinante de vocês, então não me devem nada como cliente. Mas reclamo como cidadã desse país que ainda se diz do futuro, mas parece ter voltado aos porões da Ditadura Militar do século passado. Ops, porões, não. Desculpem, me equivoco. Estamos mesmo vivendo a dita-‘lei-mais-dura’ (como gostam de chamar vocês) à luz bem clara do dia, em meio à praça pública, sob as lentes de milhares de independentes que ainda tentam fazer alguma denúncia. Pra quê? Se com a força e irresponsabilidade esmagadora do seu jornal vocês deturpam e pausterizam toda a realidade ao seu bel prazer? Seu e de sei lá mais quem.

Não tenho nenhum jornal da sua grife aqui em casa. O que é uma pena, pois me alegraria acender uma fogueira para espantar os mau olhados e expurgar tanta maldade. Nossa sociedade aos poucos banalizou tudo. Tem sociólogos que estudam isso, sabia? A atitude blasé das pessoas tem um motivo. A gente às vezes precisa fingir que não vê certas coisas para suportar viver nessa subcondição de direitos, de respeito, de humanidade. Tanta banalização, entretanto, nos fez esquecer o valor dos ritos e das ações simbólicas. Quando faço essa alusão ao fogo, é porque ele simboliza limpeza em muitos contextos. Hoje, por ter pego no jornal O Globo, por ter me paralisado alguns minutos com aquele bolo de papel na mão, me sinto suja. E me sentirei suja enquanto não colocar pra fora a minha opinião.Seu jornal, para mim, de hoje em diante, perdeu definitivamente o respeito. Eu já entoava “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, mas ainda achava que valia a pena ler. Nem que fosse para criticar. E é verdade, durante anos me informei ali. Hoje não penso mais assim. Hoje O Globo desceu irreversivelmente pelo ralo da desinformação, da falta de ética, da inculcação ideológica mais baixa. Escorre para o mesmo esgoto onde se alimentam os ratos dessa ditadura que se reinstaura barulhentamente em 2013. Barulho que a sociedade precisa ouvir. Barulho de bombas, tiros e gritos de palavrões e humilhação na guerra civil da Cinelândia, da Av. Presidente Vargas, da Lapa etc. onde a PMRJ açoita trabalhadores. Barulho que os senhores querem transformar em baderna de rebeldes sem causa, a quem chamam de vândalos para desqualificar sua ação política e simbólica de reagir bravamente à porrada dos seres humanos fardados que esquecem seus cérebros e corações em casa quando saem pra trabalhar e bater em professor.

Não, senhores, nós não somos tão ignorantes. Não passou, como diria a minha avó, desapercebido. Não, nós não vamos abaixar a cabeça. Não, nós não vamos bater palma para a eficiente violência policial. Não, nós não vamos engolir o medo que querem nos fazer sentir e acomodar nossas bundas no sofá à espera do resumão do Fantástico no domingo. Não, nós não vamos sair das ruas. Não, nós não vamos esquecer ou abandonar os colegas presos injustamente. Não, nós não vamos aceitar que a polícia jogue a bomba, feche as aljemas e O Globo jogue os confetes. Não, nós não vamos mais comprar o seu jornal. Não, nós não vamos condescender com a desavergonhada blasfêmia que os senhores jogam pra cima dos manifestantes. Não, nós não vamos nos contentar em mandar um e-mail e compartilhar uma coisinha de desabafo nas redes sociais. Nós voltaremos às ruas e não saíremos delas mesmo que os senhores, o prefeito, o governador e a PMRJ vandalizem com a nossa vida, nos injuriem e nos acusem falsamente do que quer que seja.

Agora estou aqui, no fim dessa mensagem, pateticamente irritada já sabendo que ninguém dos chefões aí vai ler. Sem ainda ter me sentido limpa e de bom humor pra dar parabéns ao meu pai que faz aniversário hoje. Sem ter conseguido me concentrar no trabalho. A sensação de tempo perdido é grande, mas não supera o alívio dessa catarse. Espero que alguém, ao menos alguém aí que ficar responsável por abrir essa caixa de e-mail que a esta hora estará abarrotada, leia, pare e reflita um pouco sobre o senhor seu empregador e toda essa baixaria.

No Facebook já há manifestações de repúdio ao “O Globo”!

Da página "Escafandro". Bela crítica!

Da página “Escafandro“. Bela crítica!

Nota da ANPUH sobre a destorcida ‘reportagem’ de O GLOBO sobre os Black Blocs

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No ultimo domingo O Globo publicou uma reportagem grosseira sobre o [̲̅B̲̅l̲̅α̲̅c̲̅k̲̅ ̲̅B̲̅l̲̅σ̲̅c̲̅k̲̅ ̲̅B̲̅я̲̅α̲̅ร̲̅i̲̅l̲̅], , um fenômeno anarquista que emergiu nas manifestações pelo Brasil afora.

O texto assinado por Sérgio Ramalho – assim como outros publicados pela mídia tupiniquim – é uma tentativa mal elaborada de simplificar uma forma de protesto bastante complexa.

Antes de aparecerem por aqui, os Black Blocs já vinham atuando há muito no Canadá, Estados Unidos e na Europa Ocidental.

A notoriedade veio após a célebre “Batalha de Seattle”, em 1999, quando milhares rebelaram-se contra as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e alguns de seus membros atacaram propriedades de multinacionais como Nike, McDonald’s, GAP, entre outras.

A hostilidade contra grandes corporações resgatou uma tradição que marcou os protestos antinucleares do ocidente como, por exemplo, o bloqueio e depredação de linhas ferroviárias com o objetivo de dificultar a implantação de usinas e transporte de material radioativo, tal qual ocorreu em Wyhl, na República Federal da Alemanha, nos anos 1970.

O coletivo assenta raízes na esquerda europeia, é assumidamente anarquista e irrompeu em várias partes do mundo, assumindo posições de destaque nos protestos antiglobalização da última década em Londres, Copenhagen, Nova York, Berlim, Atenas, Cidade do México, entre outras.

A repressão desproporcional dos governos ocidentais forçou seus componentes a adotarem táticas cada vez mais agressivas. Ao contrário do que diz o texto do Globo, a confrontação não é adotada como medida de protesto gratuitamente. Antes, é uma força reativa que responde às manobras violentas e criminosas das forças policiais, estas sim provocativas e intimidadoras.

Por aqui os jornalões brasileiros insistem em pintar os anarquistas de preto como figuras violentas, perigosas e desinformadas. Diz o Globo que “por trás das máscaras, capuzes e roupas pretas, uma miscelânea de referências, muitas delas contraditórias, ditam o comportamento do grupo (…)”.

Esquece o jornalista que a indumentária negra é parte de uma tática de guerrilha urbana, na medida em que causa evidente impacto psicológico nas forças repressoras do Estado, além de assegurar o anonimato e evitar consequentes retaliações. Segundo, como grupo heterogêneo e descentralizado, não era mesmo de se esperar que seus membros apresentassem um comportamento uniforme.

Em comum apenas a desobediência civil e a recusa ao pacifismo como tática de ação. É bom manter em mente que nas recentes manifestações no Brasil, marcadas pela violência e arbitrariedade das autoridades, muitas vezes eles são os únicos entre a massa de manifestantes e a cavalaria pesada.

Reportagem do Globo: http://oglobo.globo.com/pais/black-blocs-violencia-como-tatica-referencias-confusas-9027822

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Parabéns a Associação Nacional de Historiadores (ANPUH) pela nota, muito bem vinda, de repúdio à insensata estupidez da grande mídia brasileira que ainda se acha capaz de criar os vilões e os mocinhos da nossa história. Não Passarão!

Favor não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor.

Obrigada, ANPUH!