Historiografia Digital

Livro novo na área, artigo novo sobre “historiografia escolar digital”

Primeiramente, Fora Temer!

Com que alegria recebemos a notícia de que está pronto o livro História, Sociedade, Pensamento Educacional: experiências e perspectivas (2016), proposta encabeçada pelo Grupo de Estudos do Tempo Presente – GET e do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre  História do Ensino Superior – GREPHES -, ambos ligados ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Sergipe. 

capa-livro

Neste livro, minha amiga e grande parceira de criação, Marcella Albaine, e eu tivemos o prazer de colaborar com o artigo “Historiografia escolar digital: dúvidas, possibilidades e experimentação” (Capítulo 12, pp. 336-366), no qual buscamos tornar explícito para o leitor algumas questões implícitas em nossas elocubrações, já há algum tempo em que colaboramos no planejamento de atividades de extensão, na escrita de textos a quatro mãos e outros trabalhos que reúnem nosso interesse em torno do estudo do digital e do ensino de história. No prefácio, os organizadores introduzem assim nossa contribuição à obra:

Da TV para a internet e os novos meios e comunicação, Anita Lucchesi, que colabora a partir das suas investigações na Universidade de Luxemburgo, e Marcella Albaine, refletindo a partir da Universidade Federal do Rio de Janeiro, teceram considerações sobre a chamada historiografia escolar digital. As suas reflexões, nascidas nestes diálogos transoceânicos, nos colocam a pensar sobre: quais os caminhos a serem trilhados pelos historiadores nos tempos digitais? Quais as limitações enfrentadas pelos professores de História em meio aos suportes digitais? Como a narrativa histórica será afetada pela emergência da internet? Estas e outras preocupações são levantadas no texto que, ao final, nos relembra o caráter essencialmente humano da História e da Educação.

Prefácio de História, Sociedade, Pensamento Educacional: experiências e perspectivas, Org.  Dilton Cândido Santos Maynard & Josefa Eliana Souza. Rio de Janeiro: Autografia, 2016.

Mais uma vez, foi uma satisfação escrever com essa amiga, aprender e ressignificar muitas coisas juntas. Espero que esse humilde artigo consiga levar aos colegas leitores a proposta de pensar uma “historiografia escolar digital” que favoreça o uso criativo das ferramentas digitais, como boas aliadas para uma educação emancipadora, mas sem também enaltecer demais a máquina – carne, osso, crítica e afeto permanecem essenciais. Em tempos de duros golpes na nossa chumbada democracia e em todas as esferas da educação pública no Brasil, escrever esse artigo e desejar que ele possa estimular o debate e encorajar ainda mais a busca por um modelo formação cidadã, pode soar meio utópico, mas a publicação de um livro como esse é a prova cabal de que não se trata apenas de um sonho, mas de luta e construção coletiva de um ideal de educação universal.

Meu muito obrigada aos colegas que toparam essa missão, aos organizadores e à incansável parceria de Marcella. Sigamos em frente! 🙂

Acesse a versão ePub aqui.

Livro: Desafios e caminhos da teoria e história da historiografia – 2012

A Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH) acaba de lançar o primeiro volume da Coleção Concurso SBTHH (2012). O livro está dividido em três partes, referentes às diferentes categorias de trabalhos submetidos ao concurso: teoria, história da historiografia geral e história da historiografia brasileira. Tenho alegria em compartilhar o link para o download da obra onde o meu humilde trabalho de monografia foi premiado e comparece na parte de História da Historiografia Geral, sob o título Historiografia em rede: história, internet e novas mídias: preocupações e questionamentos para historiadores do século XXI.

livro-SBTHH

Dedico o prêmio e o trabalho à memória do Prof. Manoel Luiz Salgado Guimarães, de quem a saudade costuma apertar mais forte nesses finais de Abril. Obrigada ao Prof. Manoel e todos os professores envolvidos na minha formação, e claro, na elaboração e avaliação deste concurso, que agora nos presenteia com a reunião desses trabalhos tão frescos, cheios de vontade de descobrir o “fazer história”. Obrigada à Profa. Andrea CasaNova Maia, por não me deixar engavetar aquela ideia em 2010 e ao Prof. Dilton Maynard por me ajudar a escrever outros capítulo de 2012 a 2014.

Holocaust Denial and the Web: a conference in Rome, April 10-11, 2014

via Serge Noiret |Original post here

sissco-logoOn April 10 and 11 at the University of Rome 3 (Dipartimento Fisolofia, Comunicazione, Spettacolo) the SISSCO, (Società Italiana per lo Studio della Storia Contemporanea), will hold an important academic conference about the role of contemporary historians confronted with Holocaust denial on the web.

Should legislation be voted in Italy contrasting Holocaust Negationism? And, more generally, should History, when unable to build a firm culture of the past widely accepted in societies, be ruled by legislation?

These issues have been discussed in many European countries; some laws aiming at governing legally the past and telling about politically correct memories and what exactly is the truth about the past, have been voted in France, in Spain, and in other countries. Professional historians are generally against the idea to force societies to adopt a so-called “correct history of their pasts” defined by law and, in France, a committee was born using its own very active blog to contest the idea that telling the truth in history could be enforced by the law: the Comité de vigilance face aux usages publics de l’histoire (Committee of vigilance on the public use of history) wrote a manifesto on June 17, 2005 against the “entrepreneurs of memory” and political uses or misuses of history.

The debate has entered the public sphere in Italy too and the main association of contemporary history academic historians, Sissco, collected a “dossier” analyzing the press debate about holocaust denials and promoted an official petition signed by many contemporary historians against the use of the law in history: “Modifiche all’articolo 414 del codice penale in materia di negazione di crimini di guerra e di genocidio o contro l’umanità e di apologia di crimini di genocidio e crimini di guerra“.

But the Holocaust of the Jews during the second world war is unique: should historians and the civil society accept that the Shoah be openly and publicly contested and denied and hate speech widely diffused through the Internet? Is it possible to use a penal legislation against negationist web contents published everywhere in the world and accessible also in Italy? Should the Italian legislator vote a law defending the truth against offensive, racist and anti-Semitic revisionist propaganda and condemn hate speech legally?

These activities and also the academic conference promoted in April in Rome described below, are showcasing the direct participation of academic historians in the policy in Italy, what was in the early ’90 defined by Nicola Gallerano as being part of the “uso pubblico della storia”. Will these political and academic activities be able to maintain also for the young generation the awareness of what happened in Europe during WW2 and about keeping alive a correct memory of the holocaust using properly the web?

It is of course my opinion that academic conferences are important but are not enough and that we need to act in the virtual space and promote the digital public history of the Shoah and of other genocides perpetrated by the Nazi and their allies looking at how best presenting the evidences of the Holocaust and engaging different communities about these issues.

 European Holocaust Research Infrastructure

 EHRI logo_3Building awareness of the past using a public history approach is being done by the ERIH project  (European Holocaust Research Infrastructure) in Europe to support the Holocaust research community, provide access to the primary sources dealing with the Holocaust and encourage collaborative research in the field. What could be the role of public historians in maintaining a correct perception of what has been the Holocaust and engage with fighting negationism on the web? How could the web itself, and social media, in close contact with other public activities, fight back an aggressive negationist approach like what is diffused online in Metapedia, the so-called alternative encyclopedia if you look for the non-existing keyword “holocaust”?

Metapedians redirected tJewish casualties during World War II - Metapediahe keyword “holocaust” -nothing to read about in a specific entry- to another Metapedia entry called “Jewish casualties during World War II” avoiding the use of what they call a useless and mystifying buzzword, the Holocaust of the Jews.
So I quote here a full paragraph (accessed on Wednesday March 12, 2014) of this entry in order to understand how far the negationist propaganda in the web can go, contradicting all the basic evidences of historical research and the memory of who suffered in the nazi camps. Reading this paragraph and the whole entry online, you will discover another history, the kind of narrative which is banned by law in other countries like in France and would be banned in Italy too voting a new legislation: “Some Jews controversially claim the German government had an “official policy” of extermination, where “6 million” were killed in homicidal gas chambers and turned into soap or lampshades. Confidence trickster, Elie Wiesel, applied the religious term “The Holocaust” to this framing in the 1970s. Since then, the construct has been used as a political weapon to promote Germanophobia and Europhobia in general. It is used as moral justification for the Zionist war on the Palestinians, as well as part of an illustrious money-making industry. In some countries it is illegal for historians and investigators to openly state a dissenting view and some have been incarcerated for thought criminality as prisoners of conscience.”

Digital Public Historians are present in other countries and monitoring this “negationist web” which engages -systematically in the case of Metapedia- in rewriting the past, all the past and supports nationalistic, fascist and Neo-Nazi ideologies. These holocaust deniers are using the web from many years now. They have embraced the web as their elected media to communicate a false narrative of many pasts in the Metapedia, not only about the Holocaust, and remove memories and evidences of scientific historical research from the web, when these results are not supporting their goals. These political propagandists are using the architecture and stylistic presentation of Wikipedia together with the so-called “objective way to present facts” that Wikipedia has promoted from its creation in 2001 to give a semblance of truth to their discourses and misuses of memories.

ERIH has already organized an important international conference in July 2013 Public History of the Holocaust - European Holocaust Research Infrastructure about Public History of the Holocaust: Historical Research in the Digital Age “that was hosted by the Jewish Museum in Berlin. Facilitated by EHRI and two other European infrastructure projects supporting humanities research, DARIAH and TextGrid, and sponsored by the German Ministry of Education and Research, the conference brought together policy makers, archival and memory institutions, and academics to reflect on the challenges and opportunities the digital age offers for the public history of the Holocaust.”

Negationism in the digital realm was one of the central issue of this discussion.  Georgi Verbeeck, Professor of German History at the University of Leuven, “…reflecting on the continuing problem of Holocaust negationism, arrived at a nuanced assessment of the efficacy of current research and educational practices to prevent similar atrocities from re-occurring. Many small narratives of concrete experiences may provide powerful mirrors that can spur individuals to effective responses and positive actions….” What is important to quote from Verbeeck’s speech about how to use and promote the sources and memories of the Shoah in the digital realm, reflects on the fact that “the web is particularly suited to organise and publish […] small narratives“.

The concluding debates were saying about “the effectiveness of legal tools to counter internet hate speech; the opportunities and limits of the digital environment for tackling new historical questions; the ever present danger of a (digital) de-historicisation and de-contextualisation of Holocaust discourse.”

We may hope that the Rome conference in April 2014 will engage with the later issues dealing with in the making digital public history of the Holocaust.

IBC- La storia a l  tempo di Internet
http://online.ibc.regione.emilia-romagna.it/h3/h3.exe/apubblicazioni/Fanalisi

Measuring the presence of contemporary history in the web, the use and misuses of history in the digital realm, was the aim of a project started at the end of the 20th century between 1999 and 2000 in Italy. The results were published by the IBC (Istituto per I beni Artistici, Culturali e Naturali dell’Emilia Romagna) in Bologna, in 2004, after three years of researches done by an interdisciplinary team of historians and public historians which looked at the Italian history web and collected Italian contemporary history web sites and proposed a critical method for analyzing them systematically. The project and the book were coordinated by Antonino Criscione, Serge Noiret, Carlo Spagnolo and Stefano Vitali: La Storia a(l) tempo di Internet: indagine sui siti italiani di storia contemporanea, (2001-2003)., Bologna, Pátron editore, 2004. The authors verified that an active revisionist narrative was populating the web and promoting alternative memories of WW2. Memories of the militias of the Salo Republic, allied with the Nazi between 1943 and 1945 and co-authors with the Germans of the deportation of Italian Jews, was finding a media and a place to proliferate without boundaries, these boundaries that Italian academic historians and European public historians are now discussing.

The web is easily accessible for everybody to produce its own vision of the past and is able to promote and diffuse alternative memories, something that I have explained in my essay in French,  La digital history : histoire et mémoire à la portée de tous.

So, the important conference in Rome will go forward in an extended academic reflection dealing with how the web could be used and misused to promote everybody’s memory and vision of the past and contrast hate speech and holocaust deniers activities in the digital realm.

This is the full program of the conference:

Shoah e negazionismo nel Web: una sfida per gli storici
Roma, 10 e 11 aprile 2014,
Università Roma Tre
Sede della Camera dei deputati
Giovedì 10 aprile 2014
(sede Università Roma Tre)
14,30
Mario Panizza, Rettore Università degli studi Roma Tre*
Paolo D’Angelo, Direttore Dipartimento filosofia comunicazione spettacolo
Agostino Giovagnoli, Presidente Società italiana per lo studio della Storia contemporanea
15,00
La storia, le memorie e la didattica nel Web
Presiede Michele Sarfatti (Fondazione Centro di documentazione ebraica contemporanea)
Alberto Cavaglion (Università di Firenze)
Usi e abusi della memoria
Guri Schwarz (University of California, Los Angeles)
La legge di Godwin:la Shoah nella rete e nell’immaginario collettivo
Laura Fontana (Memorial de la Shoah, Paris)
La trasmissione della Shoah nell’era virtuale: una deriva della lezione su Auschwitz?
Damiano Garofalo (Museo della Shoah, Roma)
Fonti orali, audiovisive e memoria della Shoah nel web e nel digitale
David Meghnagi (Università Roma Tre)
L’esperienza del Master “Didattica della Shoah” di Roma Tre
Laura Brazzo (Fondazione Centro di documentazione ebraica contemporanea)
I Linked Open Data per la storia della Shoah. Verso il Web 3.0
18,00
dibattito
Venerdì 11 aprile 2014
9,30
L’universo digitale del negazionismo
Presiede Renato Moro (Università Roma Tre)
Claudio Vercelli (Istituto di studi storici Gaetano Salvemini)
Il negazionismo nel web
Valentina Pisanty (Università di Bergamo)
I linguaggi del negazionismo nel web
Gabriele Rigano (Università per stranieri, Perugia)
I circuiti del negazionismo tra carta stampata e web
Emiliano Perra (University of Winchester)
Negazionismo e web: il caso inglese
Valeria Galimi (Università della Tuscia)
Leggi memoriali, negazionismo e web: la discussione in Francia
12,00
dibattito
14,30
(Sala Zuccari, Palazzo Giustiniani, Via della Dogana Vecchia da confermare)
Introduce
Ernesto De Cristofaro (Università di Catania)
La legislazione in Europa e in Italia
Contro il negazionismo: Una legge utile o dannosa?
Tavola rotonda
presiede Tommaso Detti
partecipano:
Marcello Flores, Anna Rossi Doria ed altri,
* In attesa di conferma

Meta-postagem, ou por que não confiar cegamente no Google?

Hoje percebi que, ao menos em minha máquina (isto é, com meu IP e minhas configurações pessoais de navegador), ao pesquisar no Google o termo “Leopold von Ranke” o link para o meu post Século XIX: História como disciplina (que fala sobre Ranke) aparece em 3º lugar entre os resultados da busca, antecedido apenas pela Wikipedia em português e por aquela em inglês. O post foi criado em junho de 2008, segundo mês de vida deste blog:

Imagem

Google: Leopold von Ranke

Diante disto, decidi fazer uma advertência aos leitores do post, concedendo-me a auto-licença de adicionar o seguinte UPDATE ao final do texto:

Curiosamente, quase cinco anos após a criação deste blog, este post tem sido um dos mais visitados e mais comentado. E o é embora não seja um texto com linguagem web friendly e, nem mesmo, trate do principal tema deste blog: Digital History / Storiografia Digitale. Até ontem (06.04.13), o termo de pesquisa “Leopold von Ranke” trouxe 913 pessoas a este blog. Apenas “Ranke”, 598. No total, este post recebeu neste período, 14.445 visualizações, sendo o mais visitado e comentado do blog, que conta com 109 postagens. Eu não sou uma especialista em Ranke e estou longe de ser uma autoridade em debates sobre historiografia alemã, gostaria que os leitores tomassem consciência disso. Sobretudo, pois notei através dos comentários recebidos, que alguns leitores talvez sejam, como eu à época, estudantes de graduação. Alguns buscando via Google respostas para as suas perguntas, possivelmente para suas provas e avaliações. É importante dizer que o texto, que assino com o colega Miguel Carvalho Rêgo, na verdade, foi produzido para uma avaliação da disciplina “Metodologia da História II”, ministrada pelo saudoso Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães, em 2007, na UFRJ (IFCS). Este professor, inquestionavelmente responsável pela minha escolha por este caminho da História, nos deixou precocemente, mas deixou também muita inspiração. O pensamento de Manoel (que amava ser professor), por si só, me lembra a feliz escolha de curso que fiz. Foi, provavelmente no curso (tópico especial) de “História, Memória e Patrimônio” que foi despertado em mim o desejo de estudar mais teoria, metodologia e me fez seguir, como tem sido até hoje, seduzida pelo tema até o mestrado. Reler o texto revela outra Anita (e provavelmente outro Miguel), revela a passagem inexorável do tempo e a imaturidade das ideias de uma menina de 21 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro para descobrir o que não era História. Obrigada, sempre, prof. Manoel Salgado.

De certo, este é um belo exemplo de como podemos ver o mundo através dos olhos do Google. É possível que algumas pessoas nestas milhares de visualizações tenham utilizado o tal texto para algum fim, parcial ou integralmente (torço pelo não plágio!). Nunca saberei o que esta leitura desencadeou em suas cabeças, nem se o texto foi lido até o final. Espero que não tenha sido tomado ao pé da letra como verdade. Porém, no fim das contas, não poderei saber nunca se, de fato, ele foi contextualizado como um artigo raso, bem questionável, escrito por não especialistas sobre a “história como disciplina”. Obviamente, a autoridade que o Google nos concede, (não deixa de ser um tipo de autoridade), este poder de voz, assusta. Isto me faz repensar a responsabilidade que temos com as informações que colocamos em circulação. Do ponto de vista da História, o quão complexo é o problema da classificação das informações dispersas na rede, não qualificadas, hierarquizadas ou vinculadas a instituições que confiram alguma “confiabilidade” a elas.

Gostaria que o meu post (que na verdade é um texto escrito a quatro mãos) não virasse uma espécie de cola-burra para estudantes de graduação, nem parecesse o resultado de uma grande investigação científica, nem fosse tomado como o mais correto blablablá, etc. Apenas o deixo na rede por considerar que ele faz parte da história deste blog e que, se lido criticamente, possa ser uma unidade a mais de divulgação científica no ciberespaço.

Diacronie n. 12 Sulle tracce delle idee: “Sopravviverà la storia all’ipertesto?”

É com prazer que compartilho com vocês meu primeiro artigo publicado em Italiano sobre a relação entre História e Digital.

Este artigo é fruto da reelaboração de algumas ideias que eu já havia desenvolvido em “Histórias no Ciberespaço: viagens sem mapas, sem referências e sem paradeiros no território incógnito da Web”, nos Cadernos do Tempo Presente, e em minha fala nas “VIII Jornadas de Historia Moderna y Contemporánea” em Buenos Aires, novembro passado, “Do texto ao hipertexto: notas sobre a escrita digital da história no século XXI“.

(en) I am pleased to share with you my first article published in Italian on the relationship between “History” and “Digital”.

This article is the result of the reworking of some ideas I had developed in “Histórias no Ciberespaço: viagens sem mapas, sem referências e sem paradeiros no território incógnito da Web”, in Cadernos do Tempo Presente, and in my talk in the “VIII Jornadas de Historia Moderna y Contemporánea”, in Buenos Aires, last November, “Do texto ao hipertexto: notas sobre a escrita digital da história no século XXI“.

“Sopravviverà la storia all’ipertesto?”. Qualche spunto sulla scrittura della storia ai tempi di internet

“Plongeoir malgache (b&w version)” by REMY SAGLIER – DOUBLERAY on Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

“Plongeoir malgache (b&w version)” by REMY SAGLIER – DOUBLERAY on Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Abstract (en): This paper examines theoretical and methodological aspects related to the writing of history in the Digital Age. It’s a sort of introduction on some issues and problems on the relationship between history and the Internet in the early years of the century (2001-2011). We highlight mainly problems concerning the use of historical sources and documents available in cyberspace. It’s especially about issues regarding the use of hypertext as a new way for a reference system more virtual than the classical footnotes system.

Keywords: History, Digital History, Internet, Hypertext, cyberspace.

Abstract (it): L’articolo analizza aspetti teorici e metodologici relativi alla scrittura della Storia nell’era digitale. Si tratta di un approccio di carattere introduttivo ad alcune tematiche e problemi propri delle relazioni tra storia e internet nei primi anni del secolo XXI (2001-2011). Verranno analizzati, principalmente, i problemi relativi all’utilizzo delle fonti storiche e documentarie disponibili nel cyberspazio. Analizzeremo, soprattutto, le questioni relative all’uso del ipertesto come nuovo percorso per un sistema di riferimenti, per quanto virtuale, rispetto alle classiche note a piè di pagina.

Parole chiave: storia, storiografia digitale, internet, ipertesto, cyberspazio.

Ref: Lucchesi, Anita, «“Sopravviverà la storia all’ipertesto?”. Qualche spunto sulla scrittura della storia ai tempi di internet», Diacronie. Studi di Storia Contemporanea, N. 12, 4|2012

URL: <http://www.studistorici.com/2012/12/29/lucchesi_numero_12/&gt;

Cadernos do Tempo Presente navegando em águas profundas

Feliz em noticiar que os Cadernos do Tempo Presente do Grupo de Estudos do Tempo Presente (CTP-GET) chegam à sua 10ª edição anunciando parceria com a revista Italiana Diacronie – Studi di Storia Contemporanea (ISSN 2038-0955). Leitora dos dois periódicos, não tenho dúvidas de que esta novidade tende a promover um excelente intercâmbio de ideias. Super saudável e notável que um periódico digital brasileiro aproveite as possibilidades de colaboração trazidas pela internet para realizar este tipo de ponte. Da parte de Diacronie, já conhecida por sempre trazer textos extra-Itália, parece que a parceria com outro periódico eletrônico, só tende a reforçar ainda mais este perfil aberto de suas ediçõe, desta vez, cruzando virtualmente o Atlântico.

Curioso é que ambas as revistas estão regulando, mais ou menos, em número de edições (CTP no seu n. 10 e Diacronie em seu n. 11). Muito bom! Para além da afinidade temática, de ambos os lados, temos ainda um longo caminho de crescimento pela frente.

Parabéns ao CTP, já Qualis B2 este ano, por mais esta edição, como sempre, trazendo questões que pertubam nosso Tempo Presente, com pitadas de História Cultural e também uma levada de Teoria e Metodologia da História (que tanto me apraz!).

Meu reconhecimento vai, em especial, para a equipe que faz o CTP acontecer, com muito suor (mesmo no ar condicionado!), empenho e dedicação. Aos colegas: Karla Karine de Jesus Silva, Monica da Costa Santana, Carole Ferreira da Cruz, Luyse Moraes Moura, Diego Leonardo Santana Silva, Raquel Anne Lima da Silva, e claro, o coordenador desse timão, Prof. Dilton Cândido Santos Maynard, mais todo PET-UFS que dá suporte e incentiva o CTP. Parabéns por esse brilhante 2012, pessoal!

***

Daqui dos bastidores, obrigada também ao prof. Serge Noiret (IFPH/EUI) por ter indicado os Cadernos do Tempo Presente à Jacopo Bassi (editor de Diacronie).

Qui dal backstage, grazie anche al prof. Serge Noiret (IFPH/EUI) per aver raccomandato i Cadernos do Tempo Presente a Jacopo Bassi (editore Diacronie).

Histórias no Ciberespaço

Salve leitores! Gostaria de convidá-los a ler meu artigo “Histórias no Ciberespaço: viagens sem mapas, sem referências e sem paradeiros no território incógnito da Web” na Edição nº 06 dos Cadernos do Tempo Presente (GET).

O texto trata de problemáticas e angústias já versadas aqui neste blog. Assim, acredito que os leitores que chegam até aqui buscando ler sobre o par História e Internet podem se interessar pela minha pequena colaboração neste novo e instigante debate lá no GET.

Para ler o artigo, seguir este link: http://www.getempo.org/revistaget.asp?id_edicao=32&id_materia=111

Para aqueles que estão pensando em reinventar o ofício do historiador

Jean-Philippe Genet, Andrea Zorzi (ORG) Les historiens et l’informatique : un métier à réinventer

Volume organizado por Jean-Philippe Genet e Andrea Zorzi.

Les historiens et l’informatique: un métier à réinventer (fr)

Ce colloque qui termine le programme ANR ATHIS (Ateliers Histoire et Informatique) emprunte son titre à Marc Bloch, maître autant que modèle et inspirateur pour les historiens du XXIe siècle. Plus de 35 ans après la tenue du premier colloque sur l’histoire et l’informatique tenu à l’École Française de Rome en 1975, il fait le bilan de six ateliers qui, réunis depuis 2006, se sont efforcés de faire le point sur les évolutions récentes de l’informatique et de leur impact sur le métier d’historien. C’est aussi un regard porté vers l’avenir, pointant, à partir de l’expérience acquise, les grandes lignes d’une évolution prévisible, afin d’inciter l’historien à tirer le meilleur profit de ces transformations pour réinventer sa pratique scientifique de chercheur et ses méthodes didactiques d’enseignant. Dépendant de ses sources et de sa capacité à les comprendre et à les interpréter, placé à la charnière des sciences humaines et des sciences sociales, l’historien doit en effet exploiter les opportunités que lui offre un outil informatique dont l’usage non informé n’est pas sans risque. Les problèmes abordés dans ce volume concernent le traitement des sources, qu’il s’agisse de l’édition critique ou de l’accès aux collections des bibliothèques et des archives, mais couvre aussi des domaines qui vont de l’archéologie et du développement de l’édition électronique à l’enseignement de l’histoire et aux marges disciplinaires de l’histoire, l’informatique favorisant les transferts de méthodes et de problématiques d’une science à l’autre (par exemple la linguistique, avec la textométrie, ou la géographie, avec la cartographie informatisée et l’analyse spatiale). Sont aussi abordés ici les apports – et les dangers – de l’internet et d’un Web 2.0 dont certains protagonistes vont jusqu’à proposer une « histoire sans les historiens ». D’une communication à l’autre, résonne la préoccupation majeure des historiens : comment pleinement utiliser l’informatique et ses prodigieuses ressources tout en préservant la liberté intellectuelle et la rigueur scientifique de l’historien, dans un univers où les contraintes, notamment économiques, pèsent d’un poids inconnu jusqu’ici.

Collection de l’École française de Rome 444
Rome: École française de Rome, 2011
350 p., ill.
ISBN:  978-2-7283-0904-7
Prezzo: € 60

Dica de leitura: Cinco mitos sobre a idade da informação

Por Robert Darnton em 20/04/2011 na edição 638 do Observatório da Imprensa

A confusão em torno da natureza da chamada idade da informação levou a uma situação de falsa consciência coletiva. Não é culpa de ninguém, e sim, um problema de todos porque ao tentarmos nos orientar no ciberespaço, frequentemente apreendemos coisas de forma errada e esses equívocos se disseminam tão rapidamente que são incorrigíveis. Considerados em seu conjunto, constituem a origem de uma proverbial não-sabedoria. Cinco deles se destacam:

1. “O livro morreu.” Errado: são impressos a cada ano mais livros que no ano anterior. Até agora, foram publicados um milhão de novos títulos em 2011, no mundo inteiro. Na Grã-Bretanha, em um único dia – a “super quinta-feira”, 1º de outubro de 2010 – foram publicadas 800 novas obras. Em relação aos Estados Unidos, os números mais recentes só cobrem 2009 e não fazem distinção entre livros novos e novas edições de livros antigos. Mas o número total – 288.355 – sugere um mercado saudável e o crescimento em 2010 e 2011 provavelmente será muito maior. Além disso, estes números, fornecidos por Bowker, não incluem a explosão na produção de livros “não-tradicionais” – mais 764.448 títulos produzidos por edições dos próprios autores ou editados, a pedido, por microempresas. E o negócio de livros também está crescendo em países emergentes, como a China e o Brasil. Qualquer que seja a forma de avaliar, a população de livros está crescendo, não decrescendo e, com certeza, não está morrendo.

Deterioração dos textos digitais

2. “Entramos na idade da informação.” Este anúncio normalmente é entoado com solenidade, como se a informação não existisse em outras épocas. Mas toda era é uma era da informação, cada uma à sua maneira e de acordo com a mídia disponível nesse momento. Ninguém negaria que os modos de comunicação estão mudando rapidamente, talvez tão rapidamente quanto na época de Gutenberg, mas é um equívoco interpretar essa mudança como sem precedentes.

3. “Agora, toda a informação está disponível online.” O absurdo dessa afirmação é óbvio para quem quer que já tenha feito pesquisa em arquivos. Somente uma mínima fração do material arquivado já foi lido alguma vez, muito menos foi digitalizado. A maioria das decisões judiciais, assim como a legislação – tanto estadual, quanto federal –, nunca apareceu na web. A imensa divulgação de regulações e relatórios por órgãos públicos permanece, em grande parte, inacessível aos cidadãos a quem diz respeito. O Google avalia que existem no mundo 129.864.880 livros e afirma ter digitalizado 15 milhões deles – ou cerca de 12%. Como conseguirá preencher a lacuna se a produção continuar a se expandir a uma média de um milhão de novas obras por ano? E como será divulgada maciçamente, e online, a informação em formatos não-impressos?

Metade dos filmes realizados antes de 1940 sumiu. Qual o percentual do atual material audiovisual que sobreviverá, ainda que numa aparição fugaz, na web? Apesar dos esforços para preservar os milhões de mensagens trocadas por meio de blogs, e-mails e instrumentos manuais, a maior parte do fluxo diário de informação desaparece. Os textos digitais deterioram-se muito mais facilmente que as palavras impressas em papel. Brewster Kahle, o criador do Internet Archive, avaliava, em 1997, que a média de vida de uma URL era de 44 dias. Não só a maioria das informações não aparece online, como a maioria das informações que alguma vez apareceu provavelmente se perdeu.

Transição para a ecologia digital

4. “As bibliotecas são obsoletas.” Biblioteconomistas do país inteiro relatam que nunca tiveram tantos clientes. Em Harvard, nossas salas de leitura estão cheias. As 85 bibliotecas vinculadas ao sistema da Biblioteca Pública de Nova York estão abarrotadas de gente. As bibliotecas fornecem livros, vídeos e outro tipo de material, como sempre fizeram, mas também preenchem novas funções: acesso a informação para pequenas empresas, ajuda nos deveres de casa e atividades pós-escolares das crianças e informações sobre emprego para desempregados (o desaparecimento dos anúncios “precisa-se” nos jornais impressos tornou os serviços da biblioteca fundamentais para os desempregados).

Os biblioteconomistas atendem às necessidades de seus clientes de muitas maneiras novas, principalmente guiando-os através dos mistérios do ciberespaço para material digital relevante e confiável. As bibliotecas nunca foram armazéns de livros. Embora continuem a fornecer livros no futuro, também funcionarão como centros nervosos para a informação digitalizada – tanto em termos de vizinhança, quanto dos campi universitários.

5. “O futuro é digital.” Relativamente verdadeiro, mas equivocado. Em 10, 20 ou 50 anos, o ambiente da informação será esmagadoramente digital, mas a predominância da comunicação eletrônica não significa que o material impresso deixe de ser importante. Pesquisa feita na História do Livro, disciplina relativamente recente, demonstrou que novos modos de comunicação não substituem os velhos – pelo menos no curto prazo. Na verdade, a publicação de manuscritos se expandiu após Gutenberg e continuou progredindo por três séculos. O rádio não destruiu o jornal, a televisão não matou o rádio e a internet não extinguiu a TV. Em cada caso, o ambiente de informação se tornou mais rico e mais complexo. É essa a experiência por que passamos nesta fase crucial de transição para uma ecologia predominantemente digital.

Leituras descontínuas

Menciono esses equívocos porque acho que eles atrapalham a compreensão das mudanças no ambiente da informação. Fazem com que as mudanças pareçam muito dramáticas. Apresentam as coisas fora de seu contexto histórico e em nítidos contrastes – antes e depois, e/ou, preto e branco. Uma visão mais sutil recusaria a noção comum de que livros velhos e e-books ocupam os extremos opostos e antagônicos num espectro tecnológico. Devia-se pensar em livros velhos e e-books como aliados, e não como inimigos. Para ilustrar esta afirmação, gostaria de fazer algumas breves observações sobre o mercado de livros – ler e escrever.

No ano passado, a venda de e-books (textos digitalizados criados para leitura manual) duplicou, respondendo por 10% das vendas no mercado de livros. Este ano, espera-se que atinjam 15%, ou mesmo 20%. Mas há indícios de que a venda de livros impressos também aumentou no mesmo período. O entusiasmo pelos e-books pode ter estimulado a leitura em geral e o mercado, como um todo, parece crescer. Novos leitores eletrônicos de livros, que operam como o ATM (protocolo de telecomunicações), reforçaram essa tendência. Um cliente entra numa livraria e solicita um texto digitalizado de um computador. O texto é baixado para o leitor eletrônico, impresso e entregue na forma de uma brochura em quatro minutos. Esta versão do serviço “impresso-por-pedido” mostra como o antiquado manuscrito pode ganhar vida nova com a adaptação à tecnologia eletrônica.

Muitos de nós nos preocupamos com a diminuição da leitura profunda, reflexiva, de ponta a ponta do livro. Deploramos a guinada para blogs, fragmentos de texto e tuítes. No caso da pesquisa, poderíamos reconhecer que os instrumentos de busca têm vantagens, mas nos recusamos a acreditar que eles possam conduzir ao tipo de compreensão que se adquire com o estudo contínuo de um livro.

Seria verdade, entretanto, que a leitura profunda diminuiu, ou mesmo que ela sempre tenha prevalecido? Estudos feitos por Kevin Sharpe, Lisa Jardine e Anthony Grafton provaram que os humanistas dos séculos 16 e 17 muitas vezes faziam leituras descontínuas, procurando passagens que poderiam ser usadas nas ácidas batalhas de retórica em juízo, ou pedaços de sabedoria que podiam ser copiados para livros banais e consultados fora de seu contexto.

Informação histórica

Em seus estudos sobre cultura entre pessoas comuns, Richard Hoggart e Michel de Certeau enfatizaram o aspecto positivo de uma leitura intermitente e em pequenas doses. Em sua opinião, cada leitor comum se apropria de livros (incluindo panfletos e romances de paixão) à sua maneira, induzindo-lhes o significado que faz sentido para sua compreensão. Longe de serem passivos, esses leitores, segundo Certeau, agem como “plagiadores”, pescando um significado daquilo a que têm acesso.

A situação da escrita parece tão ruim quanto a da leitura para aqueles que só veem o declínio, com o advento da internet. Um deles lamenta-se: os livros costumavam ser escritos para o leitor comum; agora, eles são escritos pelo leitor comum. É evidente que a internet estimulou a autopublicação, mas o que há de errado nisso? Muitos escritores, com coisas importantes a dizer, nunca haviam conseguido uma editora para publicá-los – e quem achar seu trabalho de pouco valor, pode simplesmente ignorá-lo.

A versão online das publicações pagas pelo autor pode contribuir para sobrecarregar as informações, mas os editores profissionais se sentirão aliviados com esse problema e continuarão fazendo o que sempre fizeram – selecionado, editando, diagramando e negociando as melhores obras. Terão que adaptar seus talentos à internet – mas já o fazem – e podem tirar vantagem das novas possibilidades oferecidas pela nova tecnologia.

Para citar um exemplo de minha experiência, recentemente escrevi um livro impresso com um suplemento eletrônico, Poetry and the Police: Communication Networks in Eighteenth-Century Paris (Harvard University Press). Descreve como as canções de rua mobilizaram a opinião pública numa sociedade amplamente analfabeta. A cada dia, os parisienses improvisavam novas letras para antigas melodias e as canções fluíam com tamanha força que precipitaram uma crise política em 1749. Mas como é que as melodias alteravam seu significado? Depois de localizar as anotações musicais de uma dúzia de canções, pedi a uma artista de cabaré, Hélène Delavault, para gravá-las para o suplemento eletrônico do livro. Assim, o leitor pode estudar o texto das canções no livro ao mesmo tempo em que as escuta online. O ingrediente eletrônico de um antigo manuscrito torna possível explorar uma nova dimensão do passado, capturando seus sons.

Poderiam ser citados outros exemplos de como a nova tecnologia reforça velhos modos de comunicação, ao invés de miná-los. Não pretendo minimizar as dificuldades que enfrentam escritores, editores e leitores, mas acredito que uma reflexão com base na informação histórica poderia eliminar os equívocos que nos impedem de usufruir ao máximo da “idade da informação” – se assim a devemos chamar.

Da escassez à abundância

Pode interessar a muitos leitores deste blog o texto que pego emprestado do Historia Digital (aliás,  este blog está entrando neste momento para o meu blogroll, sensacional, vale a leitura!).

Boa leitura, espero que lhes seja útil.

*por Jairo Antonio Melo FlórezHistoriador de la Universidad Industrial de Santander, Experto en eLearning 2.0 y estudiante de la Maestría en Historia de la UIS. Miembro del grupo de investigación Políticas, Sociabilidades y Representaciones Histórico Educativas.


De la escasez a la abundancia

Al igual que la historia evenemencial se centró en los acontecimientos notables de la historia para realizar sus estudios, la historia local se ha encerrado tanto en los archivos regionales y locales que se ha aislado del mismo contexto nacional. De cierta manera, se han creado dos bandos donde el primero se centra en las fuentes y parte de la información disponible para hacer sus relatos, muchas veces descriptivos por las mismas limitaciones analíticas que un estudio limitado de fuentes permite; en tanto un segundo grupo supera las angustias de la mera descripción con forzar la información disponible a caber dentro de modelos explicativos exitosos a nivel mundial, lo cual conduce ya no a la insuficiencia analítica sino a la elucubración y tergiversación de la fuente para ser acomodada al modelo.

Es imposible abordar la Historia digital sin pensar en la Historia Global, y pensar en la Historia Global para aquellos que estamos “entrenados” desde nuestra formación al abordaje detallado de una pequeña parte del mundo es algo bastante complejo. El ejercicio sin embargo es sumamente satisfactorio, ya que de hecho mentalmente conecta al historiador con la abrumadora red de relaciones que implica un asunto denominado la Web 2.0, la multiplicidad de lenguajes en el cual está representada esta historia, así como la vertiginosidad del cambio, la debilidad de la permanencia y la digitalización de la realidad material a la cual nos enfrentamos dentro de la globalización y la Internet.

Hugo Fazio Vengoa ha señalado que la Historia Global desplaza el laboratorio del historiador del archivo a la biblioteca[1], así mismo, la Historia digital desplaza el archivo del historiador de la biblioteca a la Web, lo cual hace que el laboratorio del historiador sea aún más vasto. La Historia digital es de hecho una Historia Global por depender necesariamente de un contexto globalizado, difícilmente se pueden hallar fronteras en una figuración donde incluso existe un idioma dominante, el inglés, y un formato único, la pantalla del ordenador, ya sea este de escritorio, portátil o móvil. Sin embargo, es de hecho una acumulación de historias locales que se enfrentan a lo global, al contrario de lo esperado, son las historias subalternas, las memorias ocultas y ocultadas, las que se han visto emerger en el marco de la Historia digital, antes que el dominio de un discurso proveniente de los Estados o de las compañías supranacionales[2].

El reto en este caso, es que se pasa de un contexto de escasez: el archivo regional, la biblioteca municipal, el archivo departamental… a un contexto de abundancia, donde ya el problema no es limitarse a un problema de investigación y a un abordaje descriptivo de la historia por las fuentes disponibles, sino el ahogarse en un mar de datos utilizando fuentes globales, multilingüísticas, multiculturales, donde la búsqueda de la información podría ser tan compleja que obligue al investigador a reducir sus aspiraciones y retornar a la escasez por falta de tiempo para investigar.

La heurística de fuentes en este caso se vuelve ya mucho más compleja, lo cual dependiendo del tipo de problema de investigación al cual se esté enfrentando puede implicar incluso recurrir a la minería de datos o a otro tipo de estrategias técnicas para hallar información relevante en la Web. En diciembre de 1995, William J. Turkle definió a la Web como “un archivo que está en constante cambio y tiene una eficacia infinita”[3], denominó a su proyectoDigital History Hacks, según él, inspirado por la concepción de Tim O’Reilly de Hackingquien habría utilizado el término de una manera positiva para denominar a aquellos “innovadores que exploran y experimentan, descubren atajos, crean herramientas útiles, y llegan a cosas divertidas por sí mismos.”[4] Según Turkle, los historiadores han encontrado y contribuido al diseño de algunas herramientas bastante eficientes para la recopilar la historia presente en la web, como es el ejemplo de Omeka, un Sistema de Manejo de Contenidos para el desarrollo de repositorios o bancos de memoria digital desarrollado por el Centro para la Historia y los Nuevos Medios (CHNM); pero no han desarrollado un sistema para hacer búsquedas históricas, ya no solamente en los repositorios y bancos de memoria digital, sino en el archivo infinito que representa la Web.

El señalamiento de Turkle es bastante coherente, más aún teniendo en cuenta que el debate por la conservación ha dejado de lado el debate por la búsqueda metodológica de fuentes, parte fundamental del oficio del historiador. Turkle, quien ha sido uno de los pocos historiadores que se ha enfocado en el problema de la búsqueda razonada de fuentes históricas en la web, ha encontrado en el método de la minería de datos una posibilidad de enfrentar el caos y permanente cambio de la información de la web, no sólo la acumulada en los repositorios digitales, sino además aquella que se produce y archiva autónomamente por la obra de servicios sociales o en alojamientos virtuales alquilados por usuarios particulares. La minería de datos no es un método que provenga de la historia, ni siquiera de las ciencias sociales, es un conjunto de técnicas que tienen como base la inteligencia artificial y el análisis estadístico, utilizada sobre todo por los estudios de mercado para las empresas[5]. Comprende dos extensiones importantes, la minería web y la minería de textos, con respecto a la primera extensión, esta tiene un dominio de extracción de conocimiento que interesaría a los historiadores, como sería la minería de contenido web, el cual es un proceso de extracción de conocimiento del contenido de documentos o sus descripciones[6]. La minería de textos se considera como una forma de la minería de datos que “permite la extracción de conocimiento de grandes repositorios de información, estructurada o no, en formato texto. El objetivo es… descubrir patrones de comportamiento no visibles y nuevo conocimiento dentro de una colección documental.”[7]

Antes que entrar a profundizar sobre esta técnica, lo que se quiere resaltar es la tendencia de los historiadores a acercarse cada vez más a la tecnología, a la informática específicamente y a la estadística, tal y como lo hicieron en tiempos pasados con la economía, la demografía y otras ciencias auxiliares en la clíometría. William Turkle es visto como “uno de los académicos más osados en este mundo de la historia digital[8]”, debido tal vez a que es uno de los que se acerca en mayor medida a la programación informática, tanto así que escribió junto con Adam Crymble y Alan MacEachern, un hipertexto llamado The programing historian, algo así como “El historiador programador”. En este hipertexto de acceso abierto, Turkle, Crymble y MacEachern, animan a los historiadores a iniciar la adquisición de competencias para programar en lenguaje Python, aunque se parte del presupuesto de que el historiador que se acerca al hipertexto no tiene conocimientos previos respecto a la programación y tiene solamente un manejo funcional de los ordenadores y la Internet. La idea del libro es que el historiador aprenda a programar y a manejar herramientas de acceso libre y código abierto como Zotero, Firefox y Smile, mientras realiza su trabajo de investigación, pero que además, contribuya al hipertexto para mejorarlo, de una manera muy similar a como se construye el software libre[9].

Es difícil ver a un Darnton o a un Chartier tratando de programar en Python mientras realizan sus estudios de historia de la cultura, pero sería difícil abordar un trabajo sobre la historia de la cultura digital sin utilizar por lo menos algunas herramientas propias de la web y de la informática. Hace poco menos de dos décadas, los historiadores pasaron de manera lenta y renuente a utilizar procesadores de texto y tablas de datos para su oficio, poco a poco, el ordenador y el software se ha convertido en una herramienta fundamental en el procesamiento de la información histórica, así mismo, se ha desarrollado software que sirve de manera muy específica para el trabajo del humanista en general, como Atlass-Ti o Nvivo, pero tal vez en muy pocas ocasiones, los historiadores están tan pendientes de generar desarrollos tecnológicos donde ellos mismos formen parte del diseño e implementación de proyectos de base tecnológica, como es el caso del software y los sistemas de manejo de contenidos en la web. En definitiva, es clara una cosa, en el archivo infinito donde estamos inmersos con un solo clic difícilmente podremos investigar armados solamente de un lápiz y un papel.

Continuamente se concretan nuevos proyectos de digitalización y publicación de fuentes, en febrero de este año la Biblioteca Nacional de Colombia “incursionó en la era digital”, y aunque es mejor tarde que nunca, esto permitirá poner en común la documentación como periódicos, mapas, planos y libros históricos, con lo cual “en adelante su acervo bibliográfico y documental podrá estar a disposición no sólo de los colombianos, sino de toda persona que pueda acceder a internet en cualquier lugar del mundo.”[10] El periódico El Tiempo se vinculó al proyecto de Google News Archive, donde están disponibles de manera digital los periódicos desde el número 4 (2 de febrero de 1911) hasta marzo de 2007, aun cuando los últimos años tienen deficiencias en su digitalización, y pueden ser consultados, simulando un lector de microfilms, directamente en un espacio de la versión en línea del periódico[11].

Muchos recordamos hace diez años cuando la biblioteca Luis Ángel Arango puso a disposición su biblioteca virtual, al mejor estilo de la biblioteca virtual Cervantes, en ese momento eran las mejores posibilidades para acceder a recursos bibliográficos en línea, hoy en día el proceso es algo más complejo. Por ejemplo, si se estuviese realizando una investigación relacionada con el Canal de Panamá entre 1889 y 1914, desde el fracaso de la compañía de Lesseps hasta el primer viaje a través del Canal, sería interesante tener a disposición algunos artículos de prensa mundiales relacionados con el asunto, y para ello se deberá afinar la búsqueda mediante las herramientas avanzadas que permiten discriminar fechas, idioma, fuente e incluso precio; para luego navegar por la línea de tiempo y escoger de que mes y año se desean consultar las noticias. Siguiendo con el ejemplo, es posible acceder a noticias relacionadas con el fracaso de la compañía de Lesseps del New York Times[12], o del diario australiano The Age[13], a la revuelta de “negros” por la reducción de los salarios de enero de 1889 señalados en un cable del Evening Post de Nueva Zelanda[14] y comparar esta noticia con otra producida por el New York Times[15], y así sucesivamente es posible realizar una investigación exhaustiva tan sólo con cables internacionales.

Sin embargo, no se puede caer en el entusiasmo tecnológico, varios inconvenientes se deben tener presentes, siendo el primordial la cuestión del idioma. Según el Internet World Stats, el idioma predominante en la Web es el inglés, seguido de cerca por el Chino y de lejos por los demás idiomas encabezados por el castellano[16]. Así, cuando se cambia de idioma en la búsqueda los resultados comienzan a ser nulos o poco relevantes, en francés, por ejemplo, la búsqueda por noticias relacionadas con el Canal de Panamá se remontan tan sólo a 1910, dos de los cuales provienen del periódico L’abeille de la Nouvelle-Orleans, una publicación en francés publicada en la ciudad de Nueva Orleans de 1827 hasta 1923, otra noticia de Le Canada, y una última de 1914 La Justice de Biddeford, estos dos últimos, periódicos canadienses. Una situación similar se presenta con el castellano, donde dominan las noticias provenientes del periódico El Tiempo, con excepción de una nota editorial del “Correo Español”, periódico de la colonia española en México, y otra del “Diario del Hogar”, también de México, los cuales son opiniones antiyankees que incluyen al Canal dentro de sus argumentos.

Viendo lo anterior, es claro que aún las fuentes digitalizadas en estos servicios está limitada en buena medida al idioma inglés, pero así mismo, se relaciona fuertemente con el “anglocentrismo”, ya que la mayoría de los periódicos son de origen norteamericano y de la Commonwealth, al explorar por otras fuentes en contextos diferentes los recursos se vuelven más limitados.

El historiador entonces debe explorar más allá de Google, que a veces pareciera la única herramienta disponible en la Web, y revisar proyectos específicos como el Internet Archive, que al disponer de colecciones provenientes de bibliotecas norteamericanas, remite a una buena cantidad de libros mundiales en varios idiomas, así como el Proyecto del Millón de Libros (que por el momento va por cien mil títulos), entre otras colecciones que en total suman más de dos millones de libros. Si se tiene en cuenta que la biblioteca del Congreso de Estados Unidos alberga más de 32 millones de libros catalogados es claro que la digitalización de libros está lejos de equiparar a las bibliotecas tradicionales.

En el año 2003, Roy Rosenzweig decía que “los historiadores deben estar pensando al mismo tiempo sobre cómo investigar, escribir y enseñar en un mundo de insólita abundancia histórica y la forma de evitar un futuro de escasez de registro.”[17] Aún a pesar de las dificultades presentadas anteriormente, cada vez la historia de la segunda mitad del siglo XX en adelante especialmente se complementa con un mayor número de fuentes de todo tipo, no sólo los tradicionales periódicos y libros, así mismo, documentación fílmica, no sólo a través de los archivos fílmicos como el Moving Image Archive, sino a través de medios como Youtube, donde cada vez se encuentran más aportes tanto de instituciones como de colaboradores espontáneos; The Commons es un proyecto de la Biblioteca del Congreso de Estados Unidos y Flickr donde se encuentran disponibles un número permanentemente creciente de fotografías históricas de todo el mundo alimentadas por instituciones y usuarios.


[1] Hugo Fazio Vengoa, “La historia global y su conveniencia para el estudio del pasado y del presente”, Historia Crítica Edición Especial, (2009): 313.

[2] Hugo Fazio Vengoa, “La historia global”, 318.

[3] William Turkle, “Digital History Hacks” entrada en el blog Digital History Hacks (2005 – 08) Methodology for the Infinite Archive, (18 de diciembre de 2005), http://digitalhistoryhacks.blogspot.com/2005/12/digital-history-hacks.html, (fecha de consulta 25 de octubre de 2010)

[4] O’Reilly Media, “Hacks, a clever solution to an interesting problem”, http://oreilly.com/hacks/, (fecha de consulta 25 de octubre de 2010)

[5] Luis Paulo Vieira Braga, Luis Iván Ortiz Valencia y Santiago Segundo Ramírez Carvajal,Introducción a la minería de datos (Rio de Janeiro: E-papers, 2009): 11 – 12.

[6] Anthony Scime (ed) Web mining: applications and techniques (Londres: Idea, 2005): vi.

[7] Fermín Ezquer Matallana y José Manuel Castellano Delgado, B2S “Big to Small” (Oleiros: Netbiblo, 2010): 22

[8] Anaclet Pons, “Los retos de la historia digital” entrada de blog Clionauta: blog de historia. Noticias sobre la disciplina (Anaclet Pons), (3 de diciembre de 2008), http://clionauta.wordpress.com/2008/12/03/los-retos-de-la-historia-digital/, (fecha de consulta 25 de octubre de 2010)

[9] William Turkle, Adam Crymble y Alan MacEachern, The programing historian (NiCHE: Network in Canadian History & Environment, 2a edición, 2009), http://niche-canada.org/programming-historian/1ed/about, (fecha de consulta 25 de octubre de 2010)

[10] “Con sofisticados equipos, únicos en América del Sur, la Biblioteca Nacional de Colombia incursiona en la era digital” http://www.bibliotecanacional.gov.co/index.php?idcategoria=39859

[12] “The Panama Canal” The New York Times, 8 de enero de 1889, disponible online en http://cort.as/0d3c

[13] “The Panama Canal. An English Criticism” The Age, Melbourne, 7 de enero de 1889, p. 5, disponible online en http://cort.as/0d3e

[14] “The Panama Canal. A completion estimate.” Evening Post, Wellington, Volumen XXXVII, Número 23, 28 de enero 1889, p. 2, disponible en http://cort.as/0d3j

[15] “The Panama Canal Strike. But three men hurt during the temporary suspension of work.” The New York Times, 26 de enero de 1889, disponible en http://cort.as/0d3n

[16] Internet World Stats, “Internet World Users by Language”, Junio 30 de 2010, disponible en http://www.internetworldstats.com/stats7.htm

[17] Roy Rosenzweig, Clio wired: the future of past in the digital age. (New York: Columbia University Press, 2011) 6