Historiografia

Livro: Desafios e caminhos da teoria e história da historiografia – 2012

A Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH) acaba de lançar o primeiro volume da Coleção Concurso SBTHH (2012). O livro está dividido em três partes, referentes às diferentes categorias de trabalhos submetidos ao concurso: teoria, história da historiografia geral e história da historiografia brasileira. Tenho alegria em compartilhar o link para o download da obra onde o meu humilde trabalho de monografia foi premiado e comparece na parte de História da Historiografia Geral, sob o título Historiografia em rede: história, internet e novas mídias: preocupações e questionamentos para historiadores do século XXI.

livro-SBTHH

Dedico o prêmio e o trabalho à memória do Prof. Manoel Luiz Salgado Guimarães, de quem a saudade costuma apertar mais forte nesses finais de Abril. Obrigada ao Prof. Manoel e todos os professores envolvidos na minha formação, e claro, na elaboração e avaliação deste concurso, que agora nos presenteia com a reunião desses trabalhos tão frescos, cheios de vontade de descobrir o “fazer história”. Obrigada à Profa. Andrea CasaNova Maia, por não me deixar engavetar aquela ideia em 2010 e ao Prof. Dilton Maynard por me ajudar a escrever outros capítulo de 2012 a 2014.

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Minha Pesquisa no Café História TV

Recentemente conversei com o Bruno Leal do Café História sobre a Minha Pesquisa. Primeira vez em que falo da minha pesquisa de doutorado aqui na Universidade de Luxemburgo. Bom papo sobre História Digital, História Pública, historiografia, imigração portuguesa e italiana em Luxemburgo. Mais uma vez, obrigada Bruno pelo convite.

A história sem fio: questões para o historiador da Era Google

Estamos projetados contra as grades de segurança de nossa vagoneta. No loop da montanha-russa. Sangue bombeando forte na cabeça, vento forte e implacável obrigando os olhos abertos a lutarem para se fechar e os que estão fechados lutarem para se abrir. À nossa volta, mesmo para os olhos abertos, há pouco mais que um borrão para se discernir alguma coisa. A aceleração do conjunto parece nos abstrair do próprio tempo. Irresistivelmente nos abandonamos à sorte dos espaços e dos tempos novos, aos quais, cada vez mais rapidamente, somos impelidos. É mais ou menos assim que Nicolau Sevcenko nos apresenta o mundo atravessado pelas velozes transformações desde a Revolução da Microeletrônica, na corrida para o século XXI (SEVCENKO, 2009:16-17). É mais ou menos assim o período que buscamos investigar, o Tempo Presente. (…)

Continue lendo o texto diretamente nos Anais do XV Encontro de História da ANPUH-RIO.

Readability: porque não estamos prontos para a dispersabilidade

“Um jeito melhor para ler na Web” é assim que se divulga o simples, mas poderoso, aplicativo (add-on) para “facilitar leituras” na Web – o Readability.

Assista ao vídeo de apresentação:

O desenvolvimento de um software deste tipo é um caso interessante para se pensar a leitura em tempos de Internet. Ora, se há um dispositivo para ler melhor e, segundo o vídeo, “mais confortável, sem distrações” na Web, é porque, de fato, a dispersabilidade e a diversa arquitetura de informação e disposição imagética das páginas de Web estão alterando influenciando nosso modo de ler. Como argumenta Steve Krug (Don’t Make Me Think – A Common Sense Approach to Web Usability, 2005, 2ªed), não se trata mais, exatamente, de leitura de páginas da Web, mas de um scaneamento.

Segundo Krug, consultor de Web usability, os sites foram desenhados pensando inicialmente no padrão mais linear de leitura dos usuários. Entretanto, notou-se que os leitores se comportam de maneira um pouco diferente na Web, prestando menos atenção ao conteúdo integral e detalhes da página em ordem linear (direita-esquerda, de cima para baixo), e mais propriamente scaneando a página em busca daquilo que mais lhe chamou atenção.

A ilustração presenta no capítulo 2 do seu livro “How we really use the Web” tem alto poder de síntese explicativa:

Testei o Readability e gostei, vou continuar usando, combinando-o ao Zotero e aproveitando sua função de “envio para o Kindle”. Além de ser um ótimo modo para programar leituras através do botão “read later” (essencial para quando  você está navegando e encontra algo interessante mas não tem tempo para ler na hora), o APP é realmente um ótimo “limpador” de páginas: despolui as márgens laterais dos artigos, retira anúncios e gifs que ajudam a dispersar a atenção, permite ao usuário escolher se retira ou não as imagens do corpo do texto e – o que achei mais surpreendente – possui também a função facultativa de transformar os hiperlinks ao longo do texto em notas de rodapé que correm para o final da página.

Sensacional como estímulo à reflexão crítica sobre a opacidade que o historiador Antonino Criscione (Sopravviverà la Storia all’ipertesto?, 2003) atribui à Web, que, de minha parte, me ajudou a formular também a noção de “dispersabilidade” característica marcante da navegação 2.0. Para mim, confrontar estas tecnologias com as arcaicas ferramentas do trabalho clássico de um historiador (basicamente, papel e caneta) é tarefa urgente da comunidade histórica neste século XXI. Não é possível, ao meu ver, passarmos por essa revolução da comunicação e da informação, inalterados. Algo para pensar sobre o Readability e o nosso trabalho diário é que talvez a leitura seja uma das habilidades mais imprescindíveis para os historiadores da cultura alfabética. Talvez uma nova concepção de leitura na presente cultura digital exija uma nova habilidade.

Algo que tenho buscado para mim, sem muito sucesso nos últimos anos de historiadora e internauta, é driblar a dispersabilidade gerada pela abundância de informações, links e estímulos na Web. Estamos, como havia previsto o historiador Roy Rosenzweig (Scarcity or Abundance? Preserving the Pas in the Digital Era), no tempo da abundância.

Como diria Drummond, E agora, José?

Historia Critica: dossier “historia digital”

Parabéns a todos da “Historia Critica” pela excelente e precisa publicação a cerca dos novos desafios para os historiadores do século XXI.

Acessem o volume digital para a leitura no ISSUU: http://issuu.com/rfaciso/docs/historia_critica_no._43 (em breve instalarei o plugin do issuu aqui no WordPress para facilitar).

Para aqueles que estão pensando em reinventar o ofício do historiador

Jean-Philippe Genet, Andrea Zorzi (ORG) Les historiens et l’informatique : un métier à réinventer

Volume organizado por Jean-Philippe Genet e Andrea Zorzi.

Les historiens et l’informatique: un métier à réinventer (fr)

Ce colloque qui termine le programme ANR ATHIS (Ateliers Histoire et Informatique) emprunte son titre à Marc Bloch, maître autant que modèle et inspirateur pour les historiens du XXIe siècle. Plus de 35 ans après la tenue du premier colloque sur l’histoire et l’informatique tenu à l’École Française de Rome en 1975, il fait le bilan de six ateliers qui, réunis depuis 2006, se sont efforcés de faire le point sur les évolutions récentes de l’informatique et de leur impact sur le métier d’historien. C’est aussi un regard porté vers l’avenir, pointant, à partir de l’expérience acquise, les grandes lignes d’une évolution prévisible, afin d’inciter l’historien à tirer le meilleur profit de ces transformations pour réinventer sa pratique scientifique de chercheur et ses méthodes didactiques d’enseignant. Dépendant de ses sources et de sa capacité à les comprendre et à les interpréter, placé à la charnière des sciences humaines et des sciences sociales, l’historien doit en effet exploiter les opportunités que lui offre un outil informatique dont l’usage non informé n’est pas sans risque. Les problèmes abordés dans ce volume concernent le traitement des sources, qu’il s’agisse de l’édition critique ou de l’accès aux collections des bibliothèques et des archives, mais couvre aussi des domaines qui vont de l’archéologie et du développement de l’édition électronique à l’enseignement de l’histoire et aux marges disciplinaires de l’histoire, l’informatique favorisant les transferts de méthodes et de problématiques d’une science à l’autre (par exemple la linguistique, avec la textométrie, ou la géographie, avec la cartographie informatisée et l’analyse spatiale). Sont aussi abordés ici les apports – et les dangers – de l’internet et d’un Web 2.0 dont certains protagonistes vont jusqu’à proposer une « histoire sans les historiens ». D’une communication à l’autre, résonne la préoccupation majeure des historiens : comment pleinement utiliser l’informatique et ses prodigieuses ressources tout en préservant la liberté intellectuelle et la rigueur scientifique de l’historien, dans un univers où les contraintes, notamment économiques, pèsent d’un poids inconnu jusqu’ici.

Collection de l’École française de Rome 444
Rome: École française de Rome, 2011
350 p., ill.
ISBN:  978-2-7283-0904-7
Prezzo: € 60

Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet

Estou republicando este curadíssimo artigo do Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá (afsa@ufs.br), do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (pesquisador envolvido no H-SEnet, do post anterior).

O artigo passa por questões como a aceleração do tempo, a desterritorialização, o problema da conservação dos arquivos digitais e muitos outros questionamentos indispensáveis para quem se propõe a pensar na historiografia digital e a reverberação das mudanças que os novas tecnologias têm na sociedade, como por exemplo a avaliação dos sites dedicados a temas históricos. Como fazê-lo?

Segue texto na íntegra, inclusive as notas bibliográficas, muito ricas.

Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet1

Fonte: Laboratório de Estudos do Tempo Presente

Ao longo das últimas décadas, a difusão massiva de computadores pessoais impôs aos profissionais de história o convívio com as pesquisas em rede ou a utilização de softwares para criação de banco de dados on-line, seja de imagens ou de estatísticas. Novas questões foram postas ao nosso ofício, destacando-se qual o papel das novas mídias tecnológicas nas mudanças da natureza da prática histórica, bem como sua repercussão no processo de ensino-aprendizagem em História.

Para início de conversa, as revoluções científicas, com suas vertiginosas descobertas, e os meios de comunicação com sua avalanche de acontecimentos cotidianos trouxeram uma nova percepção do tempo presente, provocando, ao mesmo tempo, uma aproximação da experiência do presente com o cidadão comum. Deste modo, a velocidade passou a redefinir o cenário cultural desde o final dos anos oitenta, transformando o sentido do tempo, marcado pelo instantâneo, o imediato, o encurtamento da espera. Essa aceleração também afeta a memória e a lembrança, tornando a memória em tema social, em que se busca a recuperação das memórias culturais, da construção de identidades perdidas ou imaginadas, da narração de versões e leituras do passado. Assim, o “presente, ameaçado pelo desgaste da aceleração, converte-se, enquanto transcorre, em matéria da memória” (SARLO, 2005: 95-96).

Como assinala Beatriz Sarlo, em tempos marcadamente contraditórios, “trabalha-se para que as coisas e as imagens envelheçam e, ao mesmo tempo, para conservá-las como signos de identidade em um mundo unificado pela Internet e pelos satélites”, no qual “as culturas definem cada vez com mais força aquilo que as diferencia, remetendo a passados tão construídos como as imagens do nosso presente” (SARLO, 2005: 96).O protagonismo da mídia na sociedade contemporânea é destacado por diversos autores, dentre os quais destacamos Muniz Sodré, que afirma que “a mídia torna-se progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido, modificando a ontologia tradicional dos fatos sociais”. Para ele, é a mídia (jornais, rádio, televisão, TV a cabo, Internet etc.) um dos principais espaços de produção histórica, introduzindo novas práticas de linguagem, novos ambientes culturais, novas relações de poder e parindo uma nova concepção de história (SODRÉ, 1996: 27-28).

Dentre esses espaços de produção histórica, o espaço cibernético é um fenômeno tão significativo para o homem contemporâneo que “suas manifestações culturais peculiares constituem-se em um novo e importante objeto de investigação acadêmica” (SILVA, 2007). Manuel Castells chega a afirmar que a “Internet é o tecido de nossas vidas”. Seu ponto de partida de reflexão é que a sociedade em geral transforma a tecnologia, apropriando-a, modificando-a, experimentando-a. Assim, essa tecnologia de comunicação explicita tendências contraditórias presentes no mundo atual, especialmente no que se refere à questão da memória (CASTELLS, 2003).

A aproximação entre a cibercultura, entendida como “um conjunto de técnicas (material e intelectual), de práticas, atitudes, pensamento e valores que definem o ciberespaço” (LEVY, 1999: p. 17), com a História pode ser percebida, de um lado, na multiplicação de sites que estão relacionados à produção de memórias sociais, ao mesmo tempo em se vive um vertiginoso crescimento do interesse pelo passado em um cotidiano individual marcado pelo registro em imagens (fotos e vídeos) e textos (blogs e páginas pessoais na internet) (DANTAS, 2005).

De outro, na forma que a própria noção de memória adquiriu, nos sistemas de comunicação e de informação, um sentido determinante. Como afirmou Jeudy, a “memória é operacional, participando tanto da estocagem da informação quanto de seu tratamento”, o que implica que essa “função lógica das memórias eletrônicas não deixa de incidir sobre a metáfora da memória. E a ordem reticular é também uma ordem de gestão de todas essas memórias eletrônicas que permitem seu funcionamento” (JEUDY, 1990: p. 88).

Não podemos esquecer também que as novas tecnologias podem viabilizar o sonho da existência de uma grande memória virtual que, à semelhança da utópica Enciclopédia, possa reter todos os conhecimentos e informações produzidas pelo espírito humano em todas as épocas. Contudo, há certa contradição entre a idéia de memórias coletivas e a via tecnológica, em que elas podem ser repertoriadas e geradas, na medida em que se “os novos patrimônios são o próprio objeto dos sistemas de informações, como conseguirão manter seu aspecto vivo?” (JEUDY, 1990: p. 89).

Para Carlos Fajardo, na “tecnovirtualização” da história explicita-se, com a desterritorialização, uma série de contradições, inclusive “construindo memórias, imaginários e sensibilidades massivas no público comprador e consumidor de produtos simbólicos e materiais”. Ao invadir lentamente a vida particular e coletiva de todos os continentes, a Internet, paralelamente aos meios transnacionais econômico-culturais, “está ajudando a construir uma memória coletiva mundial, que desterritorializa não só os processos autônomos nacionais e regionais, mas também a maioria de categorias que se gestaram na modernidade triunfante e na modernização industrial crescente”. Portanto, a cibercultura é trans-histórica e se determina desde o virtual. Ao mesmo tempo, o pensador colombiano afirma que a Internet também tem edificado uma memória que privilegia o presente ao submergir o futuro e o passado no aqui e agora. Neste sentido, os cibernautas estão em via de projetar outra concepção de memória que contradiz a tão exaltada e necessitada “memória histórica” da modernidade, fazendo surgir uma “história da imediatez” (FAJARDO, 2001).

Interessa observar que muitos historiadores não têm levado em consideração essa fonte nova, a Internet, especialmente no que se refere aos aspectos teóricos e práticos da forma como a história é representada no formato digital. Apesar de termos mais perguntas que respostas, a luta pela incorporação das possibilidades das novas tecnologias à prática do historiador levanta novas questões sobre os objetivos básicos e métodos do nosso ofício.

Um problema que ilustra a fragilidade da evidência na era digital é o apagamento de arquivos e sites da Internet. Assim, a simultânea fragilidade e a heterogeneidade dos dados digitais precisam também de uma reconsideração quanto à responsabilidade pela preservação do passado e como podemos encontrar e definir a evidência histórica. Vale ressaltar que, diferentemente da era do papel, a preservação dos itens digitais é relativamente cara.

Como a Internet tem se expandido dramaticamente, ao lado da rápida acumulação de dados digitais, o que se percebe com o trabalho do historiador atual é a passagem de uma cultura da escassez para uma cultura da abundância. Apesar dos arquivos da Internet ser quase infinitos e se não é possível preservar tudo, ao menos é urgente preservar algo, na medida em que algumas páginas são apagadas seja por questões econômicas, seja por razões técnicas ou ambas. Como o investimento das instituições públicas de pesquisa e guarda documental não tem contemplado, suficientemente, essa nova fonte histórica, há o perigo de, no futuro próximo, termos uma atitude deliberada de privatização deste patrimônio, colocando em cheque o futuro do passado, na medida em que tais iniciativas têm se restringido a empresas privadas que disponibilizam o acesso a documentos on-line (artigos, livros, ensaios, dissertações e teses), como é o caso do Google Scholar. Então, contra a privatização destas fontes históricas, é importante realçar que o vigoroso domínio público torna-se um pré-requisito básico para a pesquisa histórica (ROSENZWEIG, 2003).

Ora, muitos que escrevem ou ensinam história têm ficado intrigados ou mesmo excitados com a proliferação de sites relativos a acontecimentos históricos que se materializam no espaço volátil da Internet. Como a memória tem sido condicionada pelas novas tecnologias, talvez seja necessário pensarmos sobre a possível desvinculação de memórias estabelecidas como marcos formadores de identidades culturais. Concomitantemente, a noção de memória no processo de globalização efetua uma reafirmação das identidades culturais locais, como um movimento que busca a estabilidade e o equilíbrio de um passado comum, desfeito pelo fenômeno das diluições das distâncias e dos tempos.

Ao produzir sítios dedicados a temas históricos, a Internet nos coloca um problema de grande envergadura, pois a maioria de nossos alunos tem utilizado o recurso da Internet do que a biblioteca em nossas universidades: como avaliar esses sites?

Kelly Schrum (2003) indica que o primeiro passo é identificar o autor ou criador do site, onde estão hospedados e qual é o seu domínio (.edu, .org, .com, .gov, . net). Geralmente, essas informações estão disponíveis, caso não estejam contate por email ou consulte os créditos da página consultada.

Outro passo é localizar sites confiáveis na Internet. A produção de uma história “séria” na WEB deve seguir os seguintes pressupostos: originalidade e responsabilidade no trato das fontes primárias e, ao mesmo tempo, sua argumentação ou conjunto de argumentos são escritos de modo claro e objetivo (SMITH, 2005).

Essas ferramentas, por si, não são suficientes para avaliar os sites, mas possibilitam uma importante oportunidade para a aprendizagem, na medida em que, em meio à pluralidade de fontes primárias, os estudantes podem compreender o passado de modo mais sofisticado e nuançado (SCHRUM, 2003).

Um exemplo brasileiro de produção de uma história “séria” é o site do Centro de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (www.cpdoc.fgv.br). A consulta ao rico acervo deste centro de pesquisa e documentação, composto de manuscritos, impressos, fotos, discos e fitas, é feita através do ACESSUS, que é uma base de dados rápida e eficiente, composta de mais de um milhão de documentos referenciados de um universo total de um milhão e oitocentos mil. Para se ter acesso à base de dados o usuário precisa se cadastrar, gratuitamente, no portal do CPDOC.

A partir dessa ferramenta, é possível acessar cerca de 600 entrevistas de seus projetos de pesquisa desde a década de 1970, nem todas estão disponíveis para download, destacando-se os seguintes projetos: Propaganda Brasileira, 1964 e o Regime Militar, A atividade de seguros no Brasil, As faces do mago da economia: atuação e legado de Mário Henrique Simonsen, História das Comunicações no Brasil, História Política da Paraíba, Memória da Assistência Social no Brasil, Memória do Banco Central do Brasil, Memória da Petrobrás, Memória do setor de energia elétrica, Núcleo de memória política carioca e fluminense, Pioneiros e construtores da Companhia Siderúrgica Nacional, A política externa brasileira em transição e a Trajetória e desempenho das elites políticas brasileiras.

Além disso, estão disponíveis para download livros esgotados, artigos do seu quadro de pesquisadores, a maioria dos números da excelente revista Estudos Históricos (1988/1-2006/1) e seleção de verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Existem ainda os informativos eletrônicos na área de Ciências Humanas (arquivologia, ciências sociais, história e o Newsletter CPDOC), em que se relatam seleções para programas de pós-graduação em todo o Brasil, encontros científicos, chamadas de artigos para revistas nacionais e internacionais e lançamentos de livros.

Sua proposta de democratização do acesso às fontes históricas do Brasil Contemporâneo também é feita por meio de módulos temáticos da seção Navegando na história (Era Vargas, Os Anos JK, João Goulart e Fatos e Imagens), em que documentos, imagens e artigos encontram-se disponíveis para estudantes e pesquisadores.

Mas como utilizar os recursos eletrônicos em sala de aula?

A partir de sua experiência docente, William H. Mulligan Jr. (2001) lembra-nos das listas de discussão e da troca de informações entre endereços eletrônicos (e-mail) como forma de estimular os estudantes a entrar em contato com a discussão acadêmica profissional. Para ele, uma atividade interessante foi convidar os estudantes a participar de diferentes listas de discussão, pois isto mostra a diversidade de tipos de questões e perguntas existentes entre os profissionais em História e também a natureza do discurso profissional. Ao mesmo tempo, o acesso às listas de discussão proporciona aos historiadores vinculados a pequenas universidades localizadas em regiões periféricas a inteirar-se dos principais temas dos congressos internacionais e nacionais, através de sites de entidades profissionais.

Aproveitando a sugestão deste historiador norte-americano, gostaria de destacar uma experiência interessante no universo da historiografia digital: a rede Historia a Debate, liderada por Carlos Barros e sediada na Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). Sua proposta é manter um fórum permanente de debate sobre a metodologia, a historiografia e a teoria da história; sobre a prática renovada da investigação e da divulgação histórica; sobre a docência da história em todos os níveis; sobre problemas acadêmicos e profissionais dos historiadores e enfatizar o compromisso do historiador com a sociedade, a política e a cultura do nosso tempo.

Criada em 1993, essa rede já realizou três congressos internacionais (1993, 1999 e 2004) e logo depois do seu II Congresso em 1999 criou um Grupo para redação de um Manifesto Historia a Debate para explicitar suas posições sobre a escrita da história e o ofício do historiador. Disponibilizado em 2001, o manifesto se insurge contra a fragmentação de temas, métodos e escolas dos anos 1990 no campo historiográfico, propondo “novas formas de globalidade que façam convergir na investigação histórica diferentes espaços, gêneros e níveis de análise”. Uma de suas teses mais instigantes reside na percepção de que as comunidades transnacionais de historiadores, organizadas na Internet, têm desempenhado papel importante na formação de novos consensos a partir de uma historiografia latina crítica e de uma historiografia pós-colonial. Neste sentido, a “Internet é uma poderosa ferramenta contra a fragmentação do saber histórico se for utilizada com sua identidades e possibilidades, isto é, como uma forma interativa de transmitir informação instantânea de maneira horizontal a várias partes do mundo”. Para a rede Historia a Debate, a “generalização da Internet no mundo universitário, e no conjunto da sociedade, assim como a educação informatizada dos jovens, tornará esta nova historiografia um fator relevante da inacabada transição paradigmática entre o século XX e o XXI” (www.h-debate.com).

Como a aceleração da história substituiu o debate sobre o “fim da história”, essa rede mantém duas listas de discussão: H-Debate (1220 assinantes de 45 países) e História Imediata (283 assinantes de 24 países).  Merece destaque alguns temas presentes nesta última lista pelo intenso debate travado pela comunidade de assinantes, como “É possível uma história imediata?”, Hugo Chávez, Chiapas e a escrita da história e sujeito social.

Sobre esta temática pouco trabalhada no Brasil existe o Laboratório de Estudos do Tempo Presente (www.tempopresente.org.br) da Universidade do Brasil (UFRJ), liderada pelo professor Francisco Carlos Teixeira da Silva. Na tentativa de divulgar a produção científica dos professores, alunos e pesquisadores associados se optou pela construção de um site, em que se disponibiliza artigos, resenhas e relatórios produzidos pela equipe TEMPO e convidados, um banco de notícias formado por seleções que variam de acordo com as principais temáticas fundadoras das linhas de pesquisa em curso e dados sobre o acervo do Laboratório, seus participantes e linhas de pesquisa. Das linhas de pesquisa em curso, destaca-se a criação, em 2004, do Grupo de Análise e Acompanhamento do Terrorismo Internacional (GAATI), além dos recém-instituídos grupos: PRO SUL, ProAfrica e Movimentos Sociais, Nova Ordem Mundial, Fluxos Internacionais e História do Esporte, que balizam as discussões presentes em sua lista de discussão (http://listas.nce.ufrj.br/mailman/listinfo/tempopresente), proporcionando ágil alternativa de circulação de informações de seminários, congressos e sinopses de jornais.

Dentro de seu site, podemos destacar a Revista Eletrônica Boletim do Tempo (ISSN 1981-3384), além da seção Multimídia, que disponibiliza, além de entrevistas dos seus pesquisadores, reportagens veiculadas por televisões sobre temas como Hezbollah, Hugo Chávez e 11 de setembro de 2001.

Concluindo, sobre a vasta possibilidade de atuação do profissional de história neste admirável mundo novo da cibercultura, o que posso sugerir é que os currículos de história incorporem essas novas fontes da história do tempo presente, dentre as quais a internet, pois não basta formar historiadores apenas lendo livros. É necessário que os professores de história forneçam ferramentas teórico-metodológicas para que a formação intelectual dos estudantes esteja de acordo com o tempo em que vivemos.

Contudo, compartilhamos das idéias presentes no Manifesto Historia a Debate sobre a historiografia digital, quando propõe que este novo paradigma da comunicação social, que é a Internet, não vai substituir as atividades presenciais e as instituições seculares, na medida em que a historiografia digital deve ser complementada com livros e outras formas convencionais de investigação, difusão e intercâmbio acadêmicos.

Notas
1  Versão revista de conferência pronunciada no 1º Encontro Estadual de Professores de História: Ensino, Pesquisa e Novas Abordagens. Faculdade São Luís de França, Aracaju/SE: 24 de fevereiro de 2008.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

DANTAS, Camila G. O Passado em bits: Questões sobre a reelaboração da memória social na Internet. In: Anais do VI CINFORM (Encontro Nacional de Ciência da Informação). Salvador – Bahia, 2005. Capturado no endereço eletrônico: http://www.cinform.ufba.br/vi_anais/docs/CamilaDantas.pdf em 1 de fevereiro de 2006.

FAJARDO, Carlos Fajardo. Cibercultura y tecnovirtualización de la historia. In: Especulo. Revista de estudios literários. Madrid: Universidad Complutense de Madri, 2001. Capturado no endereço eletrônico: http://www.ucm.es/info/especulo/numero18/cibercul.html em 19/01/2006.

JEUDY, Henri-Pierre. Memórias do Social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.

MULLINGAN JR., William H. Electronic Resources and the Education of History Professionals. In: The History Teacher. Vol. 34, Issue 4, August 2001, p. 523-529. Consultado em 8 de fevereiro de 2008 na http://www.historycooperative.org/journals/ht/34.4/mullingan.html.

ROSENZWEIG, Roy. Scarcity or Abundance? Preserving the Past in a Digital Era. In: American Historical Review 108, 3 (June 2003): 735-762. Capturado em março de 2005 no endereço eletrônico: http://chnm.gmu.edu/resources/essays/essay.php?id=6.

SARLO, Beatriz. Tempo Presente: Notas sobre a mudança de uma cultura. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2005.

SCHRUM, Kelly. Making History on the Web Matter in Your Classroom. In: The History Teacher. Vol. 34, Issue 4, may 2001, p. 327-338. Consultado em 8 de fevereiro de 2008 na http://www.historycooperative.org/journals/ht/34.3/schrum.html

SCHRUM, Kelly. Surfing for the Past: How to Separate the Good from the Bad. In: AHA Perspectives (May 2003). Consultado em 8 de fevereiro na http://chnm.gmu.edu/resources/essays/d/7.

SILVA, Marcos. ESPAÇO CIBERNÉTICO, CIBERCULTURA E PESQUISA ACADÊMICA. São Cristóvão: Departamento de História/Universidade Federal de Sergipe, 2007 (texto digitado).

SMITH, Carl. Can You Do Serious History on the Web? In: AHA Perspectives (February 1998). Capturado em março de 2005 no endereço eletrônico: http://chnm.gmu.edu/resources/essays/essay.php?id=12.

SODRÉ, Muniz. Reinventando a Cultura: a comunicação e seus produtos. Petrópolis: Vozes, 1996.

SÁ, A. F. DE A. Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet. Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 3, n. 07, Rio, 2008. [ISSN 1981-3384]


H-SEnet

Vale a pena conhecer este projeto:

http://h-senet.blogspot.com/

Descrição: Como resultado da pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC) da UFS, com o financiamento do CNPq, a equipe formada pelo professor Antônio Fernando de Araújo Sá e pela estudante de graduação Elidiana do Vale apresenta os primeiros resultados da pesquisa A INTERNET E A OFICINA DE HISTóRIA, com a divulgação do blog sobre temas relacionados à história de Sergipe. Pautado no diálogo entre a história regional e a cibercultura, nosso projeto discute a importância da historiografia digital para a formação do historiador do século XXI, trazendo questões relevantes para se pensar a História em Sergipe.

Depois não me digam que a relação entre a história e a internet é uma coisa de outro mundo. 😉

Site Brasil Republicano com textos digitalizados

Está no ar o site do Brasil Republicano, sob a coordenação do Prof. Jorge Ferreira da UFF. Nele encontra-se um link chamado “Oficinas da História” com artigos digitalizados já disponíveis em algumas revistas eletrônicas de História.

Alguns links da “oficina” mandam direto para o PDF do artigo, outros mandam para a página da revista (acabei encontrando outros artigos…). Interessante também visitar a “Linha do Tempo”, cada período em hiperlink manda para uma página com diversas referências sobre o período (artigos, dissertações, fotos, vídeos, e outras fontes em PDF).

Vale a pena navegar! O link é: http://www.brasilrepublicano.com.br/

Segundo informações disponíveis no próprio site, a iniciativa objetiva fornecer aos professores de História de nível médio das redes pública e privada de ensino ferramentas teóricas e metodológicas para desenvolverem suas atividades em sala de aula. O site é patrocinado pela FAPERJ no programa Cientistas do Nosso Estado.

Aliás, outra dica interessante disponível em “Links” para os professores de História é a indicação do Portal do Professor (que eu desconhecia) , o portal tem outra penca de links úteis.

Desfrutem e divulguem!