Memória e Patrimônio

@Rio450: imagem + crowdsourcing + memória

Desde dezembro de 2013 integro a equipe do projeto @Rio450 (em comemoração à efeméride do 450° aniversário da cidade). O “foto-documentário” coletivo via Instagram acaba de completar 50% do seu percurso e aproveito a deixa para convidar quem ainda não conhece a galeria #Rio450anos a se “perder” um pouco pelas 226 fotos que já estão online. Publicamos fotos diariamente, sempre buscando trazer uma narrativa que (re)lembre fatos e curiosidades desses quase 450 anos desde que Estácio de Sá fundou a cidade.

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Também acabamos de lançar uma enquete! Conhecedores, por favor, deixem seus pitacos! 😉

20140726-215404-78844525.jpg“Em história, tudo começa com o gesto de selecionar, de reunir, de, dessa forma, transformar em ‘documentos’ determinados objetos distribuídos de outra forma. Essa nova repartição cultural é o primeiro trabalho. Na realidade, ele consiste em produzir tais documentos, pelo fato de recopiar, transcrever ou fotografar objetos, mudando, ao mesmo tempo, seu lugar e seu estatuto.”

Assim o historiador Michel de Certeau define uma das tarefas mais importantes da operação histórica: a seleção. Quando fui convidada para integrar a equipe do @Rio450 pensei muito nisso. Embora aqui não realizemos uma obra historiográfica a rigor, fazemos seleção o tempo todo enquanto construimos esse mosaico de memórias da cidade. São imagens de hoje feitas por vocês e escolhidas por nós que servem de gancho para essa co-memoração.

A nossa “repartição cultural” é feita colaborativamente, desde o gesto de escolher o que fotografar, elegendo em equipe as temáticas das missões fotográficas, até à escolha das 07 fotos que devem ilustrar um tema, a curadoria. Ao mesmo tempo, o projeto é recheado de visões e escolhas particulares, onde cada autor e cada integrante da equipe imprime a sua marca no todo. Para que tudo isso faça sentido, como já me disse @ticianaporto lá trás, no final do primeiro período do projeto (1565-1600), os curadores têm que ter sempre em mente “a importância de manter tesa a linha imaginária que une as missões”, pensando todas as fotos como uma “grande exposição”. Missão difícil, mas não impossível.

Ontem publicamos a foto 225/450 e completamos metade do nosso percurso. O marco inspira reflexões sobre como articular as diferentes intenções e expectativas. É hora de acionar o termômetro e tentar vislumbrar, juntos, os rumos do projeto nos próximos meses. Ainda que já exista um caminho traçado, como já dissemos, esse é um trabalho de muitas cabeças.

O @Rio450 quer ouvir você! Responda a nossa enquete. Suas respostas vão nos ajudar a colocar as próximas 225 peças dessa galeria. Ainda temos muito o que fotografar e contar até 01º de março de 2015. Participe: http://bit.ly/rio450_enquete1

Saudações!
@anitalucchesi

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Uma Web Ópera sociológica – Paris: Cidade Invisível

Como no post anterior, neste trago um exemplo de projeto digital contendo uma narrativa (?) pouco convencional para aqueles que estão acostumados ao livro ou ao museu. A Ópera é um projeto de big data (repliquei há pouco tempo um link a respeito), criado por Bruno Latour (Text), Emilie Hermant (Photo), Patricia Reed (Screen Design). Navegação não-linear, hipertexto e hipermídia compõem seu cenário.

O “plano” que pincei abaixo é um prato cheio para a discussão de memória, patrimônio e história (último plano, do último circuito, se é que a navegabilidade da obra supõe tal ordem).

Enfim, estou apenas compartilhando esta interessante maneira de ver o invisível aí.

Para visitar esta outra Paris basta clicar aqui.

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Refletindo História, Memória e Patrimônio

[6] Conclusao: Quem escolhe o que lembrar e esquecer

Embora a sociedade esteja vivendo os efeitos da modernidade e vivencie dia-a-dia este medo do “tudo esquecer” e, se apegue portanto, aos novos discursos de memória e isto desencadeie o que presenciamos hoje acerca da criação de novos espaços museológicos, da conservação de parques, paisagens naturais, monumentos, ainda devemos considerar um outro lado da moeda, aquele não aparente que está atrelado a satisfação de interesses de grupos e instituições específicas que sabem usar o discurso a seu favor. Seja por interesses políticos ou econômicos, com o poder de sedução exercido pela memória nas pessoas desta sociedade inflamada por esta sina do “tudo lembrar”, “tudo esquecer”, os grupos e/ou instituições interessadas em se favorecerem podem ter em suas mãos uma potente arma de “controle” desta sociedade que já está “viciada” nestes discursos de memória. O grande público – o público que lê a História pela lente do senso comum – não està preparado com os filtros e instrumentos necessarios para observar e apreender com clareza e autonomia de julgamento toda a simbologia presente nesta atmosfera de “mercantilização da memória”, desta forma, ficam expostos a diversas mensagens subliminares (conflitantes ou não) por parte dos que “vendem” ou oferecem estas memórias. Seja em museo, seja passando por uma praça onde tem um determinado monumento, seja aravés de um programa de TV ou mesmo de campanhas publicitárias nos rádios e ruas, as pessoas são o tempo toda atingidas e estimuladas pelas imagens presentes nestes espaços e, não são capazes de ler nas entre-linhas o teor destes discursos histórico-ideologicos. Cabe também observar o crescente numero de nao-historiadores que cada vez mais se dedicam a tratar de Historia (dentro ou fora do contexto da internet).

Embora por um lado o que descrevemos pareça “vulgarizar” a disciplina História, entendemos que, pelo contrário, os problemas presentes na conjuntura exposta aqui apresentam excelentes objetos para serem explorados pelo historiador do século XXI e que este terá ainda maiores desafios a medida em que o tempo passar pois se intensificam os conflitos de interesses, se aumentam as transformações e desta forma, as variantes deste problema contemporâneo da História se tornam cada vez mais complexas. Vale assinalar a problematica que este site escolheu para debater em primeiro plano, qual seja, a das novidades que a historiografia digital traz para o campo, tematica cuja discussao esta apenas no seu alvorecer.

Antes de encerrar o texto, mais duas palavras sobre o interesse economico e a aplicabilidade política destes discursos de memória atuais. Estes podem ser usados para enfatizar uma determinada “visão” de um fato, uma interpretação, podem ser usados para reforçar um ideal patriótico, presentificar/lembrar um personagem/um evento, como também podem acabar – propositalmente ou não – causando outras impressões no “receptor” da mensagem. Para ilustrarmos, digamos que em uma construção do século XIII tenham sido feitas várias restaurações sem se seguir a “anastilose” (queé pela restauraçaodo conjunto original), possívelmente o que estará sendo lembrado na atualidade não será extamente o prédio do século XIII; Outro exemplo são os monumentos erguidos “ao esquecimento”, como a metáfora do escrever para lembrar e acabar esquecendo, isto é, existem monumentos que ao invés de fazer presente aquilo que representam acabam por catalisar o seu esquecimento, tornando um determinado objeto corriqueiro, introduzindo-o de tal forma na rotina das pessoas que em certa medida lhe atribui uma sorte de banalidade capaz em alguns casos de fazer com que o referido “evento” ou “personagem” lembrado ali passe sem ser percebido em determinadas paisagens.

Em suma, o papel do historiador diante do fenômeno da patrimonializaçao enquanto um problema da contemporaneidade deve começar por um olhar meticulosamente crítico, sem preconceitos, e atento aos não-ditos [ver CASSIRER, Ernst] de todos os novos discursos de memória. Desta forma, a leitura da Carta de Atenas apresenta uma expressiva carga simbólica do que representam (ou se quer que representem) estes monumentos – “obras-primas nas quais a civilização se tenha expressado em seu nível mais alto”. Abaixo transcreve-se a letra “b” do item “VII – A Conservação dos Monumentos e a Colaboração Internacional”:

“A conferência, profundamente convencida de que a melhor garantia de conservação de monumentos e obras de arte vem do respeito e do interesse dos próprios povos, considerando que esses sentimentos podem ser grandemente favorecidos por uma ação apropriada dos poderes públicos, emite o voto de que os educadores habituem a infância e a juventude a se absterem de danificar os monumentos, quaisquer que eles sejam, e lhes façam aumentar o interesse de uma maneira geral pela proteção dos testemunhos de toda a civilização.”

Parece, a partir da leitura da carta e, específicamente desde trecho, que a sociedade não só busca por conta própria se agarrar às memórias dos monumentos, como também é incentivada a isto, como se ve a parti desta recomendaçao, como um discurso de cima pra baixo, ao quel se recomenda muita atençao porque como se ve os monumentos patrimonializados aos quais as pessoas se “agarram” nao sao plenamente escolhidos por elas, mas sim por uma instituiçao. Tal escolha, sem duvidas, nao é nem casual, nem despretensiosa.

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[5] Monumento – Documento

Do mesmo modo que um historiador interroga um documento histórico (fonte) ele pode também interrogar um monumento, ainda que para isso use metodologias diferentes, mas na essência, aquele prédio/contrução antes de se tornar monumento, tinha seu valor histórico adormecido, e só quando convocado a “monumentalização” é que este valor se evidenciava de fato. É como um documento ao qual o historiador dirige uma pergunta o tornando uma fonte (salvo as suas especificidades), no processo que Michel de Certeau chama de “operação histórica”. Nesta comparação, entendemos que se podemos extrair dos documentos algum sentido histórico, o mesmo pode ser feito com um monumento, a partir do qual, algumas pistas, alguns indícios, sob o olhar de um especialista podem revelar detalhes sobre o passado poispatrimonializar é também uma forma de ritualizar a passagem do tempo.

Ja compreendemos que o processo de patrimonialização em discussão é fruto desta demanda exagerada pela memória na sociedade contemporânea filha da modernidade da qual já falamos longamente neste texto. Tendo isto em vista, consideramos que também o papel do historiador diante destas modificações todas deve ser o de ter um olhar sem preconceitos, capaz de somar esforços com outras áreas (arquiteturas, arqueologia, museologia, antropologia) para se debruçar sobre estes novos problemas da memória social e ser capaz de extrair de sua análise algum conhecimento sobre o passado. Jamais houve um período em que tanto se conservou e se destruiu tanto como estes últimos anos após a Segunda Guerra Mundial, é Choay quem nos chama atenção para isto e também para o fato de que “é impossível tudo conservar” no seu prefácio à obra de Riegl O culto moderno dos monumentos. O historiador deve estar antenado a todas estas modificações e pronto para investigar, além das aparências, o que estas significam. O historiador precisa compreender em seus detalhes o que significa a atual tensão entre lembrar e esquecer, já antecipada por Freud quando ele dizia que a memória é apenas uma forma de esquecimento e o esquecimento uma outra forma de memória. Só podemos lembrar de algo quando o esquecemos e não é possível lembrar tudo ao mesmo tempo, uma recordação total é impossível e, neste sentido, há de se olhar desconfiados para o exagero entorno da monumentalização de “tudo”. Até mesmo patrimonios imaterias de nossa cultura estão sendo “patrimonializados”, cadastrados, salvaguardados por recomendações de um órgão como a UNESCO.

*aguarde continuaçao no proximo post: [6] Conclusao: Quem escolhe o que lembrar e esquecer

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[4] Contra o pavor da perecibilidade: Memória (Vide Bula)

Parece, portanto, que aquela aceleração relativa de tempo iniciada com a modernidade juntamente a todas as mudanças impostas por aquela experiência imprimiram no homem um “pavor da perecibilidade”. Tudo é efêmero. A sensação de que tudo lhe escapa não é confortável, ainda que seja a este homem já experimentado pela modernidade. O mesmo homem que “empreende novidades” é o que busca também um certo refúgio no passado, o que constroe seus museus particolares, sejam esses coleçoes, albuns de fotografias, uma caixa de cartas velhas ou ainda as modalidades de cultuar a propria memoria online, sejam albuns de fotografia, videos, recados de amigos, depoimentos, historico de conversas etc. Esta especie de auto-musealizaçao para o homem contemporaneo é uma das tentativas de se criar um sustentáculo, algo que possa aplacar esta aceleração que transcende a ele mesmo. Entao temos um paradoxo aqui: ao mesmo tempo que a contemporaneidade parece se acelerar cada vez mais, o homem busca subterfúgios na memória para conter ou confortar o seu “pavor da perecibilidade”.

“Pavor da perecibilidade”. Direi que o pavor que o homem sente não é exatamente o de perecer, mas o de perder definitivamente seus referenciais no passado, nas suas supostas origens ou em qualquer coisa que pudesse lhe oferecer sustento, apoio, estabilidade, tendo em vista que o seu “horizonte de expectativas” é cada vez mais amplo e não se sabe o que esperar do futuro. No devir o imprevisivel assusta entao olhamos para tras, como se tudo no passado fosse estatico e pudesse nos dar alguma certeza. A denuncia feita por Marc Bloch (1949) de que no senso comum as origens “sao um começo que explica” ou que “basta para explicar”, como vemos, continua atual.

E futuro… O que é futuro? Aliás, o que é passado e como delimitar o que é presente hoje se a todo tempo, devido a já referida aceleração, parece que o que aconteceu ontem já “virou história”? Ao discutirmos historia, memoria e patrimonio devemos sempre ter presente esta “dificuldade” em delimitar exatamente as fronteiras temporais. A distinçao entre passado, presente e futuro hoje tem linhas muito diafanas. Aqui cabe ainda uma observaçao acerca da aceleraçao do tempo: nao podemos deixar de considerar que o advento da internet contribuiu muito significativamente para as modificaçoes na relação do homem com as informaçoes e o tempo. As notícias chegam a todo tempo pela TV e pela internet, jornais e revistas fisicos e eletronicos, a correspondencia eletronica, o viajar o mundo virtualemente, o “estar” em mais de um lugar ao mesmo tempo… um sujeito acaba por participar deste novo processo de comunicaçao seja ativo que passivamente, quero dizer, estas transformaçoes afetam a vida mesmo daqueles que nao acessam diretamente a internet e que inevitavelmente participam desta nova cadeia comunicativa ainda que involuntariamente/indiretamente. Sobre o par internet e historia, escreve Stefano Vitali do Arquivo de Estado de Florença que quem navega nao tem como nao ficar impressionado com o “caleidoscopio multiforme de representaçoes do passado” (traduçao livre) que se encontra na rede e ainda. Fica a sensaçao de que todo este “novo” ja nao pode mais ser definido pela palavra globalizaçao. Contudo, definir o “novo” e indicar as modalidade de participaçao de cada individuo e o grau mutaçao que cada uma pode trazer para a sociedade nao é o nosso objetivo aqui, porém é indispensavel ter em mente essa discussao do novo modus operandi do mundo da comunicaçao e das relaçoes interpessoais se queremos discutir memoria hoje.

Voltando: a ruptura pela modernidade na pré-existente concepção do tempo linear, fez também com que a humanidade tivesse suas referências no passado, de certa forma, “embaçadas”. Desta forma, desenhou-se este panorama de procura exagerada pela memória, como um recuo no tempo capaz de garantir a manutençao dos referenciais. Mas nao pensemos que isto se de de maneira completamente consciente. Participamos do culto a memoria quase sempre sem perceber, instintivamente. Como quando compramos um produto do qual fomos cativados atravées de um propaganda nao muito explicita e demensagens subliminares, no esfera de nossas vidas em que fazemos apelo ao passado nao costumamos classificar e interpretar nossas atitudes, simplesmente agimos, agimos “naturalmente”. Seria um pouco esquizofrenico pensar um mundo em que cada individuo que cumprisse um ato em prol da sua memoria o analizasse e interpretasse metodicamente, porém me parece muito mais estranho pensar em um mundo assim, no qual os profissionais encarregados da historia nao se detenham a analisar, problematizar e dessecar cada novo approuch do homem com a sua memoria e a memoria coletiva, quero dizer, cabe a nos historiadores estudar e sistematizar este “novo” se queremos evitar a nossa esquizofrenia e me parece que o conceito em questao agora é justamente o da memoria. A brincadeirinha “vide bula” é justamente para aludir que a memoria, nao é somente um conceito, uma abstraçao, que pertence a uma categoria da qual nos ocupamos, mas que essa memoria tem “usos”, finalidades e, como tal, tem consenquencias, tem seus efeitos colaterais. Para os grupos que ja perceberam e vivem esse novo mundo da memoria de forma consciente e se preocupam em estuda-la, nao é novidade que a memoria possa também ser um instrumento politico. Cabe a nos, portanto, escrever a bula!

*aguarde continuaçao no proximo post: [5] Monumento – Documento

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[3] Na pós-modernidade patrimonializamos

A pós-modernidade é imersa em grandes transformações. A todo tempo o homem “empreende novidades”. São novos desejos; novas culinárias; novos modelos de carro, de casa, de roupa; descobertas no espaço; a invenção e as constantes inovações do ciberespaço; se fazem muitas descobertas também no campo das biologias, inclusive biotecnologias; etc. A globalização é real e a metáfora da diminuição do globo é somente virtual, o que não significa que as pessoas estejam mais próximas. A vulgarmente chamada “correria” é apenas uma das formas que denunciam a revaloraçao do tempo. Tudo é aindamuito fluido para se dizer que novo valor é esse. Nem mesmo sabemos se queremos de fato atribuir um valor. Na pos-modernidade a liquidez dos conceitos é a queda dos absolutos. Por outro lado porém, o contraste:a patrimonializaçao parece querer resgatar a concretude, parece fazer, vulgarmente falando, um back-up dos nossos referenciais, teoricamente acessivel a todos… uma busca por estabilidade e absolutos em meio a um surto de relativismos numa realidade por nada estatica.

Entao por que monamentalizar e patrimonializar? De onde vem este apego ao passado, este querer de memória?

A resposta para esta questão tem uma dimensão subjetiva que só pode ser compreendida a luz da história cultural, que nao teve muito espaço com a historia social. Para entendermos esta crescente busca pela memória, podemos recorrer às causas do que Beatriz Sarlo chama de “mercantilização da memória”. Isto é, o processo de vender e comprar memória, o que implica dizer, necessariamente, que existe uma demanda por esta memória e, se vem num crescente este processo, isto nos aponta que esta demanda encontrou ecos e està aumentando continuamente.

A razão para uma simples busca pela memória poderiam ser muitas e variadas, imaginemos por exemplo que algumas pessoas poderiam – destacadamente – querer comprar ou preservar objetos que lhes resgatassem a memória simplesmente por um despretensioso capricho ou por uma mania, o que poderiamos ler também como um hobby, entretanto seria ingênuo e muito simplista usar o hobby como explicação para o que vivemos hoje e seria inadequado pensar desta forma pois teríamos que conceber a grande coincidência de um hobby de massas. A questão que se coloca por trás deste grande apego à memória tem raízes em todas aquelas transformações que explicitamos anteriormente. É sob esta perspectiva que nos convém pensar a patrimonialização, entendendo que este é um fenômeno que reflete toda esta grande busca pela memória, algo que é sintomático e, apesar de esta parecer uma discussão muito do campo das idéias, medidas concretas foram tomadas para “normatizar” ou viabilizar a normatização, a criação de códigos comuns para que os países pudessem “cuidar” (no sentido de conservação) dos seus patrimônios. Atualmente existe todo um aparato estatal envolvido na conservação do patrimônio e este assunto vem sendo discutido, inclusive em conferências internacionais, começando pela que originou a Carta de Atenas, de 1931, onde se discutiu, pela primeira vez em um âmbito supra-nacional, a questão da preservação dos monumentos históricos, se dedicando principalmente a estabelecer regras sobre a administração, restauração e conservação dos monumentos.

Para ilustrar apenas um caso onde junto com a patrimonializaçao outras medidas que dizem respeito ao tratamento da “memoria” sao tomadas vale dizer que em 2005 a ONU instituiu o dia 27 de janeiro como o Dia Mundial da Memoria (em memoria das vitimas do holocausto), nao por acaso em 2003 começava a a ser construçao do Memorial para os Judeus Assassinados da Europa, em Berlim, cujo projeto tinha sido idealizado em 1999 pelo parlamento alemao, assim como o dia 27 de janeiro ja era considerado desde 1996 o dia da memória das vítimas do nazismo, pois a data marca a libertação dos judeus do campo de concentração de Auschwitz em 1945.

*aguarde continuaçao no proximo post: [4] Contra o pavor da perecibilidade: Memória (Vide Bula)

Refletindo História, Memória e Patrimônio

[2] Aceleraçao do tempo e o culto aos monumentos

Nos paragrafos introdutorios dessa reflexao insistimos bastante sobre a importância da modernidade para a discussão das mudanças na concepção da temporalidade pois, no que concerne a nossa proposição em refletir sobre o fenômeno da patrimonialização, a modernidade introduz um elemento indispensável à nossa argumentação sobre os porquês de tal fenômeno, qual seja este elemento, a aceleração do tempo. Ou seja, aquela sensação que coloquialmente descrevemos como um tempo que “passa voando”.

A modernidade inaugura desta forma um momento no qual a velocidade das transformações, dos acontecimentos e eventos, tambéem em escala mundial se elevou consideravelmente. Após as revoluçoes industriais dos séc. XVIII e XIX e com as novas tecnologias de transporte e comunicação, as distâncias físicas entre os espaços foram relativamente reduzidas o que implica em mais transformações, como por exemplo, na maneira do homem utilizar o seu tempo no dia-a-dia, de se relacionar com as pessoas, nas formas de trabalho, mudanças na paisagem seja urbana ou rural, etc. Então, este contexto transformações tem marcos de expoência distinta, como a Revolução Francesa e, com um olhar mais antropológico, as pequenas, porém significativas mudanças no cotidiano das pessoas. Assim, compreendemos que a modernidade traz consigo uma nova visão de mundo ou, para melhor servir à nossa argumentação, um novo homem, com novos desafios, novos conflitos, novas tendências, novos medos e poderes (capacidades).

As ciências tecnológicas se dedicam a novas descobertas e as ciências humanas ganham também importantes contribuições de caráter inédito. Lembremos que o século XIX instaurou a História como disciplina e, embora o nosso interesse aqui não seja meditar sobre a significação da instituição desta disciplina, isto não pode ficar omisso no panorama de transformações que ensejamos traçar aqui. Há de se considerar portanto, o peso de se dedicar a esta disciplina uma cadeira exclusiva, isto é, admiti-la como autônoma e que deve, necessariamente, ser ensinada como tal. Há também de se somar no mesmo aspecto, a emergência da psicanálise de Sigmund Freud para, que da seus primeiros passos em um periodo de grande efervescência artística, cultural, social e científica que marcou a Viena contemporânea de Aloïs Riegl, que escreve O culto moderno dos monumentos, dedicando-se a pensar a questão como nos descreve Choay:

“Ele se vale de todo o seu saber e experiência como historiador de arte e conservador de museu para empreender uma análise crítica da noção de monumento histórico. Este não é abordado apenas sob uma perspectiva profissional, como a de Boito, mas tratado como um objeto social e filosófico. Só a investigação do sentido ou dos sentidos atribuídos pela sociedade ao monumento histórico permite fundar uma prática. Daí uma dupla abordagem – histórica e interpretativa.”

Riegl escreve sobre o culto aos monumentos de forma que nos leva a compreender a obsessão pela preservação, pela conservação destes, demonstrando-nos que de certa forma estes monumentos foram “sacralizados” pela sociedade. Se tornamos ao pensamento anterior sobre a aceleração do tempo percebemos a realação que se estabelece entre esta, o culto aos monumentos e a modernidade, já denunciada por Viollet-le-Duc quando a respeito de restauração – esta diretamente relacionada a preservação dos monumentos – nos diz “a palavra e o assunto são modernos”.

*aguarde continuaçao no proximo post: [3] Na Pos-Modernidade patrimonializamos

Refletindo História, Memória e Patrimônio

Estamos vivendo um intenso movimento de preservação da memória. As sociedades contemporâneas sofreram uma profunda alteração na sua relação com o tempo e o conjunto de fatores responsáveis por este processo culminou na instauração de um regime presentista do tempo atrelado à experiência moderna. Estas transformações trouxeram consigo uma mudança também no que diz respeito à relação do homem com o seu passado, revelando-se questão de escopo muito maior no tocante às mutações na compreensão da temporalidade e o papel do historiador diante dos novos problemas que desta forma se apresentam para pensar a passagem do tempo na contemporaneidade. E’ sob esta exacerbada patrimonialização experimentada atualmente em escala internacional que os proximos posts vao discutir, recuperando e editando um artigo meu elaborado para o final do curso de Historia, Memoria e Patrimonio, com o Prof. Manoel Salgado no II semestre 2007.

[1] Introduçao: Uma nova concepçao do tempo

É inescapável, para compreender as alterações nas relações do homem com o tempo, lançarmos mão das categorias “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” de Koselleck, que as pensa no âmago da experiência moderna. Segundo ele, elas fecundam a modernidade marcada por um esgarçamento entre estas categorias, que ele chama de antropológicas, pois são inerentes à condição humana enquanto recordações ou lembranças do que passou e esperança, prognósticos do que estar por vir. Koselleck não pensa o tempo como um dado da natureza e tão pouco segue a concepção de cronologia de Descartes. Para ele, o passado pode ser compactado no presente e o futuro, por sua vez, como ainda admite diversas possibilidades de realizações, é também presentificado, mas fica disperso numa infinidade de momentos. A modernidade passa a comportar sob esta perspectiva um forte presentismo, pois se presentificam passado e futuro, ainda que de maneiras distintas, a partir da ruptura com uma perspectiva linear da História, simbolizado pelo ja referido esgarçamento, que torna a modernidade um lugar de novidade no qual se pode assumir a existência de um imprevisível, ou o “impredizivel” [ARENDT, Hannah], que permite a transcendentalização da História.

Embora seja impreciso datar suas exatas origens, fica patente com isso que a modernidade é a “mãe” das transformações que nos propusemos a analisar, pois foi no bojo da experiência moderna que foi modificada radicalmente a maneira do homem lidar com a dimensão temporal e a passagem do tempo, logo se alteraram e se criaram-se novas formas de narrativas de passado, o que implica dizer que o historiador passa a se defrontar com uma nova semântica do tempo experimentada sobretudo a partir da Revolução Francesa. Ainda outra experiência a causar impactos na maneira de se compreender a História, alterando a forma do homem lidar com a memoria, é a atordoante experiencia do Holocausto (posteriormente resignificada e “globalizada”). Foi no embalo destas experiências que se configurou então, a nova relação do homem com a memória.

*aguarde continuaçao no proximo post: [2] Aceleraçao do tempo e o culto aos monumentos