Cultura

Dica de leitura: Cinco mitos sobre a idade da informação

Por Robert Darnton em 20/04/2011 na edição 638 do Observatório da Imprensa

A confusão em torno da natureza da chamada idade da informação levou a uma situação de falsa consciência coletiva. Não é culpa de ninguém, e sim, um problema de todos porque ao tentarmos nos orientar no ciberespaço, frequentemente apreendemos coisas de forma errada e esses equívocos se disseminam tão rapidamente que são incorrigíveis. Considerados em seu conjunto, constituem a origem de uma proverbial não-sabedoria. Cinco deles se destacam:

1. “O livro morreu.” Errado: são impressos a cada ano mais livros que no ano anterior. Até agora, foram publicados um milhão de novos títulos em 2011, no mundo inteiro. Na Grã-Bretanha, em um único dia – a “super quinta-feira”, 1º de outubro de 2010 – foram publicadas 800 novas obras. Em relação aos Estados Unidos, os números mais recentes só cobrem 2009 e não fazem distinção entre livros novos e novas edições de livros antigos. Mas o número total – 288.355 – sugere um mercado saudável e o crescimento em 2010 e 2011 provavelmente será muito maior. Além disso, estes números, fornecidos por Bowker, não incluem a explosão na produção de livros “não-tradicionais” – mais 764.448 títulos produzidos por edições dos próprios autores ou editados, a pedido, por microempresas. E o negócio de livros também está crescendo em países emergentes, como a China e o Brasil. Qualquer que seja a forma de avaliar, a população de livros está crescendo, não decrescendo e, com certeza, não está morrendo.

Deterioração dos textos digitais

2. “Entramos na idade da informação.” Este anúncio normalmente é entoado com solenidade, como se a informação não existisse em outras épocas. Mas toda era é uma era da informação, cada uma à sua maneira e de acordo com a mídia disponível nesse momento. Ninguém negaria que os modos de comunicação estão mudando rapidamente, talvez tão rapidamente quanto na época de Gutenberg, mas é um equívoco interpretar essa mudança como sem precedentes.

3. “Agora, toda a informação está disponível online.” O absurdo dessa afirmação é óbvio para quem quer que já tenha feito pesquisa em arquivos. Somente uma mínima fração do material arquivado já foi lido alguma vez, muito menos foi digitalizado. A maioria das decisões judiciais, assim como a legislação – tanto estadual, quanto federal –, nunca apareceu na web. A imensa divulgação de regulações e relatórios por órgãos públicos permanece, em grande parte, inacessível aos cidadãos a quem diz respeito. O Google avalia que existem no mundo 129.864.880 livros e afirma ter digitalizado 15 milhões deles – ou cerca de 12%. Como conseguirá preencher a lacuna se a produção continuar a se expandir a uma média de um milhão de novas obras por ano? E como será divulgada maciçamente, e online, a informação em formatos não-impressos?

Metade dos filmes realizados antes de 1940 sumiu. Qual o percentual do atual material audiovisual que sobreviverá, ainda que numa aparição fugaz, na web? Apesar dos esforços para preservar os milhões de mensagens trocadas por meio de blogs, e-mails e instrumentos manuais, a maior parte do fluxo diário de informação desaparece. Os textos digitais deterioram-se muito mais facilmente que as palavras impressas em papel. Brewster Kahle, o criador do Internet Archive, avaliava, em 1997, que a média de vida de uma URL era de 44 dias. Não só a maioria das informações não aparece online, como a maioria das informações que alguma vez apareceu provavelmente se perdeu.

Transição para a ecologia digital

4. “As bibliotecas são obsoletas.” Biblioteconomistas do país inteiro relatam que nunca tiveram tantos clientes. Em Harvard, nossas salas de leitura estão cheias. As 85 bibliotecas vinculadas ao sistema da Biblioteca Pública de Nova York estão abarrotadas de gente. As bibliotecas fornecem livros, vídeos e outro tipo de material, como sempre fizeram, mas também preenchem novas funções: acesso a informação para pequenas empresas, ajuda nos deveres de casa e atividades pós-escolares das crianças e informações sobre emprego para desempregados (o desaparecimento dos anúncios “precisa-se” nos jornais impressos tornou os serviços da biblioteca fundamentais para os desempregados).

Os biblioteconomistas atendem às necessidades de seus clientes de muitas maneiras novas, principalmente guiando-os através dos mistérios do ciberespaço para material digital relevante e confiável. As bibliotecas nunca foram armazéns de livros. Embora continuem a fornecer livros no futuro, também funcionarão como centros nervosos para a informação digitalizada – tanto em termos de vizinhança, quanto dos campi universitários.

5. “O futuro é digital.” Relativamente verdadeiro, mas equivocado. Em 10, 20 ou 50 anos, o ambiente da informação será esmagadoramente digital, mas a predominância da comunicação eletrônica não significa que o material impresso deixe de ser importante. Pesquisa feita na História do Livro, disciplina relativamente recente, demonstrou que novos modos de comunicação não substituem os velhos – pelo menos no curto prazo. Na verdade, a publicação de manuscritos se expandiu após Gutenberg e continuou progredindo por três séculos. O rádio não destruiu o jornal, a televisão não matou o rádio e a internet não extinguiu a TV. Em cada caso, o ambiente de informação se tornou mais rico e mais complexo. É essa a experiência por que passamos nesta fase crucial de transição para uma ecologia predominantemente digital.

Leituras descontínuas

Menciono esses equívocos porque acho que eles atrapalham a compreensão das mudanças no ambiente da informação. Fazem com que as mudanças pareçam muito dramáticas. Apresentam as coisas fora de seu contexto histórico e em nítidos contrastes – antes e depois, e/ou, preto e branco. Uma visão mais sutil recusaria a noção comum de que livros velhos e e-books ocupam os extremos opostos e antagônicos num espectro tecnológico. Devia-se pensar em livros velhos e e-books como aliados, e não como inimigos. Para ilustrar esta afirmação, gostaria de fazer algumas breves observações sobre o mercado de livros – ler e escrever.

No ano passado, a venda de e-books (textos digitalizados criados para leitura manual) duplicou, respondendo por 10% das vendas no mercado de livros. Este ano, espera-se que atinjam 15%, ou mesmo 20%. Mas há indícios de que a venda de livros impressos também aumentou no mesmo período. O entusiasmo pelos e-books pode ter estimulado a leitura em geral e o mercado, como um todo, parece crescer. Novos leitores eletrônicos de livros, que operam como o ATM (protocolo de telecomunicações), reforçaram essa tendência. Um cliente entra numa livraria e solicita um texto digitalizado de um computador. O texto é baixado para o leitor eletrônico, impresso e entregue na forma de uma brochura em quatro minutos. Esta versão do serviço “impresso-por-pedido” mostra como o antiquado manuscrito pode ganhar vida nova com a adaptação à tecnologia eletrônica.

Muitos de nós nos preocupamos com a diminuição da leitura profunda, reflexiva, de ponta a ponta do livro. Deploramos a guinada para blogs, fragmentos de texto e tuítes. No caso da pesquisa, poderíamos reconhecer que os instrumentos de busca têm vantagens, mas nos recusamos a acreditar que eles possam conduzir ao tipo de compreensão que se adquire com o estudo contínuo de um livro.

Seria verdade, entretanto, que a leitura profunda diminuiu, ou mesmo que ela sempre tenha prevalecido? Estudos feitos por Kevin Sharpe, Lisa Jardine e Anthony Grafton provaram que os humanistas dos séculos 16 e 17 muitas vezes faziam leituras descontínuas, procurando passagens que poderiam ser usadas nas ácidas batalhas de retórica em juízo, ou pedaços de sabedoria que podiam ser copiados para livros banais e consultados fora de seu contexto.

Informação histórica

Em seus estudos sobre cultura entre pessoas comuns, Richard Hoggart e Michel de Certeau enfatizaram o aspecto positivo de uma leitura intermitente e em pequenas doses. Em sua opinião, cada leitor comum se apropria de livros (incluindo panfletos e romances de paixão) à sua maneira, induzindo-lhes o significado que faz sentido para sua compreensão. Longe de serem passivos, esses leitores, segundo Certeau, agem como “plagiadores”, pescando um significado daquilo a que têm acesso.

A situação da escrita parece tão ruim quanto a da leitura para aqueles que só veem o declínio, com o advento da internet. Um deles lamenta-se: os livros costumavam ser escritos para o leitor comum; agora, eles são escritos pelo leitor comum. É evidente que a internet estimulou a autopublicação, mas o que há de errado nisso? Muitos escritores, com coisas importantes a dizer, nunca haviam conseguido uma editora para publicá-los – e quem achar seu trabalho de pouco valor, pode simplesmente ignorá-lo.

A versão online das publicações pagas pelo autor pode contribuir para sobrecarregar as informações, mas os editores profissionais se sentirão aliviados com esse problema e continuarão fazendo o que sempre fizeram – selecionado, editando, diagramando e negociando as melhores obras. Terão que adaptar seus talentos à internet – mas já o fazem – e podem tirar vantagem das novas possibilidades oferecidas pela nova tecnologia.

Para citar um exemplo de minha experiência, recentemente escrevi um livro impresso com um suplemento eletrônico, Poetry and the Police: Communication Networks in Eighteenth-Century Paris (Harvard University Press). Descreve como as canções de rua mobilizaram a opinião pública numa sociedade amplamente analfabeta. A cada dia, os parisienses improvisavam novas letras para antigas melodias e as canções fluíam com tamanha força que precipitaram uma crise política em 1749. Mas como é que as melodias alteravam seu significado? Depois de localizar as anotações musicais de uma dúzia de canções, pedi a uma artista de cabaré, Hélène Delavault, para gravá-las para o suplemento eletrônico do livro. Assim, o leitor pode estudar o texto das canções no livro ao mesmo tempo em que as escuta online. O ingrediente eletrônico de um antigo manuscrito torna possível explorar uma nova dimensão do passado, capturando seus sons.

Poderiam ser citados outros exemplos de como a nova tecnologia reforça velhos modos de comunicação, ao invés de miná-los. Não pretendo minimizar as dificuldades que enfrentam escritores, editores e leitores, mas acredito que uma reflexão com base na informação histórica poderia eliminar os equívocos que nos impedem de usufruir ao máximo da “idade da informação” – se assim a devemos chamar.

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História: Arte, Cultura e Indivíduos*

O historiador holandês Johan Huizinga, vivia e escrevia imerso no debate acerca do estatuto científico ou não científico da História. Huizinga pressupunha uma afinidade entre Arte e História que conferiria a história o estatuto de uma ciência verdadeira, não pelos seus métodos, mas pelo seu compromisso em buscar a verdade. O que a história faz em relação ao passado “não é nunca fotografar, mas é representar”[1], diz Huizinga, para quem a subjetividade deste “representar” constitui uma marca indelével para as narrativas que se faz do passado, as quais são marcadas pela imaginação histórica do seu autor. Neste sentido, o trabalho do historiador para Huizinga, tal qual acenara Wilhelm Humboldt, não se limita à crítica documental, mas vai além e passeia pela arte, pela criatividade histórica – o historiador se aproxima do poeta.[2]

Jacob Burckhardt, antes de Huizinga, alertou para a impossibilidade de se fazer história sem a sutileza e a sensibilidade necessária para compreender, imaginar e organizar, numa narrativa lógica, os elementos culturais de uma sociedade, tal como ele mesmo fez em seu clássico livro sobre a cultura do Renascimento na Itália[3].

As reflexões sobre a história, tanto de Burckhardt quanto de Huizinga, merecem um grifo para a atenção particular que estes autores concedem ao elemento individual, particular e subjetivo devido à ênfase que ambos dão à dimensão cultural e artística da história. Sobre o primeiro, Sabina Loriga nos diz:

“Para Burckhardt (…) o centro permanente da história era o homem mortal, geralmente sofredor, ‘o homem com suas dores, suas ambições e suas obras, tal como ele foi, é e será sempre’! Não o homem da providência dos filósofos e nem mesmo essa impostura romântica que é o herói, mas antes o indivíduo independente, livre (…) que conhece e admite sua dependência em relação aos acontecimentos gerais do mundo.”[4]

Esta característica também marca um outro traço da concepção de história nestes dois autores, que é a negação de uma história providencial[5], majoritariamente compreendida assim pelos historiadores mais positivistas, que acreditavam no Espírito hegeliano, que reduzem a importância das ações individuais e subordinam as artes, valorizando em contrapartida os grandes movimentos da história, pois para eles “as qualidades pessoais, inclusive as dos grandes homens, não bastavam para explicar o curso dos acontecimentos, e era preciso levar em consideração as instituições e o meio (a raça, a nação, a geração e etc.)”[6].

A desvalorização do significado das ações individuais traz consigo também o esvaziamento da responsabilidade dos homens frente aos rumos que a história toma e para Burckhardt este é um problema moderno:

“Burckhardt aponta uma diferença fundamental entre a pólis grega e o Estado moderno: enquanto na primeira os altos valores cívicos influenciavam positivamente a discussão filosófica, as artes e toda a vida social, o segundo torna servil toda manifestação do espírito humano, transformando pensadores, artistas e criadores em burocratas assalariados sem autonomia” [7].

O que Paula Vermeersch apresenta em seu trabalho, da cujo trecho acima fora extraído, sobre as anotações de aula de Burckhardt, é o ponto fulcral da nossa discussão – o ponto em que se cruzam história, indivíduos e ética, e que tem, como pano de fundo a querela entre antigos e modernos. Se pensarmos, portanto, na dimensão ética da história, quem melhor poderia representar os mais comprometidos com a ética, os antigos ou os modernos? Para Burckrhardt, a resposta mais acertada seriam os antigos, ou até mesmo os fiorentinos da Itália renascentista, uma vez que para o autor, Florença poderia ser comparada à Atenas. Achamos válido destacar aqui mais uma passagem do texto de Vermeersch que ilustra esta crítica de Burckrhardt à modernidade:

“O Estado e a Religião, por serem repressores, massificadores, contribuem negativamente para o florescimento de grandes individualidades, e isso é, para Burckhardt, o grande mal da modernidade: a massa vence o indivíduo, existe uma nivelação por baixo, todos se transformam em meros números da burocracia, todos se iludem que podem ser cultos, belos e jovens sem esforço ou dedicação.”[8]

Ora, se considerarmos que a modernidade é a geradora desta burocracia despersonalizante e produtora do businessman e, em se tratando de história, autora de muitas generalizações, começamos a entender porque Burckhardt vai tratar do Renascimento italiano com tanta nostalgia, ele que tanta atenção dedicou aos detalhes. E sendo assim, mais uma vez fica clara a recusa da parte dele a concepções mais positivistas da história, a história não caminha sempre em um sentido de progresso positivo, não é evolucionista.

Assim como Burckhardt, Huizinga também vai criticar esta máxima setecentista de que a razão aponta sempre para frente, bem como a racionalização exacerbada de tudo então, até mesmo da história que, para ele, permite e necessita de lirismo, de uma certa dose de amor pelo passado, que cada historiador soma aos trabalhos que se propõe a fazer. Neste sentido, Huizinga faz um forte apelo a tudo o que é lúdico, a imaginação, às faculdades humanas de criar e sentir, seu Homo Ludens, de que nos falou Naiara Ribeiro.

Percebe-se portanto, que não é somente a concepção de história que mudou no decorrer dos séculos, o indivíduo enquanto ente também veio sofrendo transformações e destas mudanças decorrem e incorrem novas situações políticas e surgem novos padrões comportamentais, outro sistema de valores e princípios passam a reger a ação humana, quais sejam, aqueles de uma sociedade regida pela racionalidade e obcecada pelo progresso a qualquer preço, a mesma que fora enfaticamente criticada por Nietzsche em todo o legado filosófico que nos deixou.[9]


[1] HUIZINGA apud RIBEIRO

[2] HUMBOLDT, Wilhelm von. “Sobre a tarefa do historiador” (1821). Anima 1(2), 2001.

[3] BURCKHARDT, Jacob. La civiltà Del Rinascimento in Itália. Roma: Newton Compton Editori, 2008.

[4] LORIGA, Sabina. “A biografia como problema”. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 239

[5] A recusa à Filosofia da História.

[6] Idem. p. 231

[7] VERMEERSCH, Paula. Jacob Burckrhardt e suas reflexões sobre a história. História Social – Revista dos pós-graduandos em História da Unicamp, No 10 (2003). Este artigo resume uma parte da monografia “Pão e circo: a imaginação como contra-poder”, defendida por Vermeersch em dezembro de 1998 sob a orientação da profa. dra. Amnéris Maroni, no departamento de Ciência Política, IFCH-Unicamp. Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/historiasocial/article/view/92 acessado pela última vez em: 09 de dezembro de 2009.

[8] Idem.

[9] MAYER, Arno J. “5. Concepções de mundo: darwinismo social, Nietzsche e Guerra”. In: força da tradição: a persistência do antigo regime, 1848-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 267-317.

VER TAMBÉM:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das letras, 1999.

JASPERS, Karl – Introdução ao Pensamento Filosófico – Ed. Cultrix, São Paulo, 1965.

RIBEIRO, Naiara. Johan Huizinga e a História da Cultura: a dimensão ética e estética da História Disponível em: http://revistadiscenteppghis.files.wordpress.com/2009/05/naiara-ribeiro-johan-huizinga-e-a-historia-da-cultura_a-dimensao-etica-e-estetica-da-historia.pdf Acessado pela última vez em 09 de dezembro de 2009.

*Este texto é parte do trabalho de conclusão do curso “Antigos e Modernos – A escrita da História” (Tópico Especial em Metodologia da História II, graduação em História), ministrado pelo Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães durante o segundo semestre de 2009, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ).