Experiência

Clicar, em vez de viver, tornou-se norma

Clicar, em vez de viver, tornou-se norma

Artigo por Marsílea Gombata sobre o curioso projeto do fotógrafo Fabio Seixo: Photoland.

Segundo o próprio fotógrafo, em uma postagem de amostra do trabalho no Vimeo, Photoland é:

“um ensaio fotográfico já em andamento desde 2008, é o resultado de um trabalho que venho realizando em várias cidades (Rio, Londres, Paris, Nova York, Cidade do México, Roma, Veneza, Cuzco). Basicamente, são fotografias que capturam pessoas na aparente banalidade do ato de fotografar. A popularização das câmeras digitais torna a Fotografia hoje, possivelmente, o maior hobby do planeta, atingindo todas as classes, idades e culturas. Em todos os lugares, ocasiões e acontecimentos, estamos fotografando ou sendo fotografados.”

O projeto é uma provocação à reflexão da experiência que as pessoas digitalmente equipadas têm hoje diante de monumentos, obras de arte e pontos turísticos conhecidos. Muitos parecem estar vivendo mais o afã de fotografar para salvar e compartilhar, do que a real experiência sensorial e estética do momento em que lá estão presentes. Parece que caminhamos rumo à aporia do salvamento/arquivo completo. De fato, quando vejo nestes lugares as pessoas mais preocupadas com suas fotos do que com a paisagem real, me pergunto a que tipo experiência de estão se propondo, que personas constroem, para quem performatizam este discurso imagético (?).

Outro artigo relacionado: O olhar como performance, do Icônica, por Ronaldo Entler.

Sobre experiência e paixão

Compartilho as palavras do professor de Filosofia da Educação da Universidade de Barcelona, Jorge Larrosa. Um apêlo à desaceleração e à vida, não apenas informada, cheia de opiniões, hiperativa. Palavras por uma vida de experiência:

“(…) a experiência é cada vez mais rara por falta de tempo. Tudo o que passa, passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. E, com isso, reduz-se a um estímulo fugaz e instantâneo que é imediatamente substituído por outro estímulo ou por uma excitação igualmente fugaz e efêmera. O acontecimento nos é dado na forma de choque, de estímulo, de sensação pura, na forma de vivência instantânea, pontual e desconectada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo que caracteriza o mundo moderno, impede sua conexão significativa. Impede também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro acontecimento que igualmente nos excita por um momento, mas sem deixar nenhuma marca. O sujeito moderno é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz do silêncio. E à agitação que lhe caracteriza também consegue que nada lhe passe. Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual, tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e o que ela acarreta, a falta de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência.” Jorge Larrosa, ensaio Experiência e Paixão, em Linguagem e Educação depois de Babel. (LARROSA, 2004:157)

Além do Linguagem e Educação depois de Babel, o autor também publicou alguns artigos em português em livros organizados por Tomaz Tadeu Silva.