Hannah Arendt

Historiografia em Rede – Revista Médio Paraíba

O tema da “historiografia” ganhou mais um espaço na rede!!!

Começamos esta semana uma coluna na Revista Médio Paraíba, que aborda temas acadêmicos e multidisciplinares.

Abaixo segue o editorial desta edição, por Renato Barozzi:

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Temos duas boas notícias: a primeira é que chegamos à terceira edição de nossa Revista Acadêmica. A segunda boa notícia é que já possuímos conteúdo a ser analisado para uma quarta e, quiçá, uma quinta edição. Realmente estamos muito felizes com o desenvolvimento deste projeto.

Algumas coisas precisam ainda de ajustes, nos falta tempo para uma dedicação intensa, mas, apesar dos sobressaltos, nada irá sobrestar o aprimoramento, o aperfeiçoamento e amadurecimento de nossa revista.

>> Confira aqui  o sumário da Edição no. 3.
>> Confira as edições anteriores

A presente edição deixa claro o estado de espírito com que encaramos nossas dificuldades. Nela expusemos, como artistas da palavra, a diversidade e a flexibilidade com que agimos para experimentar conteúdos e formas. Neste momento, lembro-me de uma passagem do livro “Contraponto” de Huxley que reflete bem o que sinto: “Lorde Edward e seu irmão estavam tomando ar no parque de Gattenden. Lorde Edward tomava-o caminhando. O quinto marquês tomava-o numa cadeira de rodas puxada por um burro cinzento. Era inválido. ‘o que, por felicidade, não impede o meu espírito de correr’, gostava de dizer Lorde Gattenden.”
Não somos inválidos e já provamos isto, caminhamos. Entretanto, as circunstâncias tentam invalidar nossos esforços. Por mais que somos alvejados pelas adversidades, nossos espíritos não soçobram. Temos o apoio de vocês leitores, temos a sofisticada participação dos autores e colaboradores e temos ainda, a alma cheia da necessidade de realizar.

Por falar em realizar, entre as novidades desta terceira edição temos: um texto sobre a formação do Funcionalismo Público no Brasil, que ressalta a característica estamental da sociedade portuguesa e o modelo patriarcal da família. Outro que explora a atividade de “julgar”, sobretudo diante da tarefa de cuidar do mundo, calcado nas constatações da teórica Hannah Arendt.
Entre outros, temos ainda um artigo que expõe a medicina no Brasil no período colonial e um ensaio cujo titulo é: “Sorria, você está sendo filmado!” – Câmeras, muralhas e outros símbolos: a modelação na paisagem carioca pelo medo da violência urbana. Bastante pertinente em sua função de registrar o momento “cívico” em que vivemos.

No mais, caminharemos. A Revista Médio Paraíba não é estática. Ela está num ambiente difuso. E difuso também são nossos interesses. Temos por fontes de inspiração revistas acadêmicas ligadas a universidades, mas também bebemos no manancial de Serrote, Dicta e Contradicta e Inteligência e Insight. “Mundo, mundo, vasto mundo.”

Aproveitem esta profusão de idéias e deixem-se levar pelo roldão. O mundo da arte, da literatura e da ciência possui seu próprio reino e convidamos todos vocês a entrarmos nele de mãos dadas.

Boa leitura!

Nossa contribuição, nesta terceira edição da Médio Paraíba, foi justamente falando da moderna concepção de História segundo Hannah Arendt. Nos vemos ou aqui! Até breve!

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A Moderna Concepção da História

Em seu texto Entre o Passado e o Futuro Hannah Arendt coloca o esvaziamento do protagonismo das ações do homem e dos eventos particulares em função de uma concepção especifica da historia, qual seja, a concepção moderna.

A concepção moderna da historia, segundo Arendt, encara a historia como um processo quase natural, que se movimenta autonomamente para um telos, uma historia que não se detem às ações do homem para entender política, mas sim ao conjunto de acontecimentos representado por um “todo” único que caracteriza a esta concepção processual da historia. Este todo se moveria por natureza, estando além e independente das particulares contingências das singulares situações, escapando assim do domínio do homem. Logo a historia enquanto processo seria supra e transcendente às ações do homem e aos eventos cotidianos, uma grande engrenagem independente das partes menores do processo.

Arendt argumenta que neste modo de entender a historia é como se os eventos perdessem o seu vigor porque a historia já estaria de alguma forma “tramada” e os homens sofreriam-na ao invés de agi-la.

No intento, este aspecto de “naturalidade” nesta forma de conceber a Historia vai de certa forma banir dela aquilo que Arendt chama “impredizível”, fazendo com que se acreditasse numa possível previsibilidade de tudo, como se fossem realizáveis leis para esta disciplina capazes de sistematizar a exploração deste processo e torná-lo não só compreensível, mas previsível, em detrimento de toda sorte de factualidade.

Porém esta forma de tratar a historia como independente do factual (algo que já estaria traçado e “funcionando” de acordo com este processo implacável) tem conseqüências sérias, algumas destacáveis, como segundo a própria autora, os regimes totalitários do século XX. Explicando: aceitar a historia como este “ente” superior ao homem é como relegar a experiência humana ao “correr solto”, pois presença de regras e o respeito ou desrespeito a estas seria indiferente na concepção processual da historia, na qual o todo é imutável em relação às pequenas e particulares ações do homem. Isto alteraria o modo do homem compreender o mundo e atuar nele e segundo a autora este novo relacionar-se do homem com o mundo se daria na forma de mudanças na moral e na política. O comprometimento do homem com a política seria diminuído e fragilizado, enquanto a moral seria afetada por uma grave crise ética e isto seria causado pela drástica redução ou ausência do senso de responsabilidade deste homem em relação ao “todo” que então significa a historia, uma vez que esta não está mais atrelada às ações do homem, este também se descompromete eticamente com esta. O ponto nevrálgico apontado por Arendt dentro desta concepção moderna de historia é que “isento” de responsabilidades e com seu código de ética fortemente alterado e corrompível o homem se permitiu cometer e assistir experiências injustificáveis como o caso dos regimes nazi-fascistas.

Relacionado a este assunto:

CIÊNCIA MODERNA E HISTÓRIA do Prof. Dr. Silvio Medeiros, Publicado no Recanto das Letras em 20/11/2006