História do Tempo Presente

Dossiê: História Oral e História do Tempo Presente

Gostaria de compartilhar o novo número da revista História Oral que acaba de sair do forno com um dossiê sobre História do Tempo Presente.

Fiquei muito feliz em poder contribuir com este número, já que a História do Tempo Presente é algo pelo que tenho dedicado bastante atenção em minha curta, curtíssima vida acadêmica. Recuando no tempo, antes da graduação na UFRJ, lembro que certa vez fui com minha escola e colegas de Ensino Médio a um evento chamado “PUC de portas abertas”, ou algo do tipo, para apresentar a instituição e alguns cursos aos estudantes vestibulandos. Foi a primeira vez na vida que entrei em uma universidade e também era a primeira vez que eu me via tão perto da disciplina História. Foi lá também que ouvi a expressão “História do Tempo Presente” pela primeira vez. De imediato, soou um paradoxo. Um belo e intrigante paradoxo com o qual eu me encontraria anos mais tarde. Aquele dia nunca esqueci, também porque saímos da PUC e fomos ao Teatro Maria Clara Machado, no Planetário, assistir ao espetáculo Utopia, dirigido por Moacir Chaves e inspirado no texto fundador de Thomas Morus (1478-1535). Voltei no ônibus da excursão para Teresópolis, minha terrinha, chocada com a atualidade das sátiras da peça, li, reli e 4 anos mais tarde reli ainda uma vez o Utopia para um exame oral durante o intercâmbio acadêmico na Universidade de Florença, para a Disciplina Doutrinas Políticas, com a Professoressa Lea Campos Boralevi, com quem aprendi a amar o ofício, o magistério e a interminável leitura que acompanha nosso trabalho de forma muito especial. Por tudo isso, pensar o presente e a história do tempo presente foi tão prazeroso pra mim desde que me “formei” (se é que nos “formamos” um dia).

Enfim, agradeço e parabenizo às professoras Carla Simone Rodeghero e Márcia Ramos pelo esforço concentrado na realização deste número e convido todos para a leitura. É uma satisfação enorme estar nesse número em tão boa companhia.

 História Oral v. 17, n. 1 (2014): História Oral e História do Tempo Presente

Sumário

Apresentação – História Oral e História do Tempo Presente (5-6) Carla Simone Rodeghero, Márcia Ramos de Oliveira

Dossiê

História Oral, cidade e lazer no tempo presente (7-37) Fernando Cesar Sossai, Ilanil Coelho

Conversas na antessala da Academia: o presente, a oralidade e a História Pública Digital (39-69) Anita Lucchesi

Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis (SC) 1970-1990) (71-88) Silvia Maria Fávero Arend

Os outros rostos de “La Noche de los Lápices”: memória e testemunho dos sobreviventes de um episódio emblemático da repressão durante a última ditadura civil-militar argentina (1976-1983). (90-117) Marcos Oliveira Amorim Tolentino

História Oral e Tempo Presente: as entrevistas realizadas com pacientes/moradores do Hospital Colônia Itapuã (Viamão/RS) (119-134) Viviane Trindade Borges, Juliane Primont Serres

Multimídia

Luto, Identidade e Reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira e o testemunho no tempo presente (135-161) Sônia Maria Meneses

Artigos

Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser? (163-192) Angela Maria de Castro Gomes

Un largo camino a la privatización, memoria y resistencia en los trabajadores de los talleres de Tafí Viejo (Tucumán – Argentina) (193-218) Alberto Oscar Sosa Martos

“DOMINGO DE REMINISCERE”: TRAMAS MNEMÔNICAS DA ROMARIA DO SENHOR DOS PASSOS DE SERGIPE (219-242) Magno Francisco de Jesus Santos

Escre(vivência): a trajetória de Conceição Evaristo (243-265) Bárbara Araújo Machado

Entrevistas

A trajetória política de Sereno Chaise: da democracia de 1945 aos dias atuais (267-302) Claudira do Socorro Cirino Cardoso, Gustavo Coelho Farias, Laura Ferrarri Montemezzo Notas

Seminário Debates do Tempo Presente: Ensino, Tecnologias e Conflitos | inscrições até 08/11/2013

 Imagem

Prezad@s colegas,

ImagemO Grupo de Estudos do Tempo Presente comunica que entre 18 de outubro e 03 de novembro de 2013 08 de novembro estarão abertas as inscrições para apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos  do Seminário Debates do Tempo Presente: “Ensino, Tecnologias e Conflitos”. O evento ocorrerá nos dias 05 e 06 de dezembro na Universidade Federal de Sergipe e terá abrangência nacional, congregando pesquisadores de diferentes instituições e Programas de Pós-Graduação, a saber: Laboratório do Tempo Presente (Tempo, IUPERJ), Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade do Estado de Pernambuco (UPE), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Ver lista de simpósios temáticos abaixo.

ENVIO DE RESUMOS PARA OS SIMPÓSIOS TEMÁTICOS via eventos@getempo.org

_________________________________________________________________

UPDATED 04/11/2013:

As inscrições gratuitas serão efetuadas mediante envio do resumo até 03 de novembro 08 de novembro de 2013 para o e-mail eventos@getempo.org.

Novo cronograma:
Inscrições para apresentadores de trabalho: 08/11/2013
Resultado: 19/11/2013
Envio do texto completo: 25/11/2013

_________________________________________________________________

Confira as instruções abaixo:

  1. ATENÇÃO: O arquivo com o resumo deve ser enviado em formato doc ou docx (Word for Windows) e identificado da seguinte maneira: Nome e sobrenome do AUTOR e do CO-AUTOR (se houver)_CÓDIGO DO SIMPÓSIO. Ex: JULIA ASSAD e EDUARDO DENNIS_ST01

O arquivo deverá conter:

  1. Título do Trabalho em caixa alta, destacado em negrito, centralizado.
  2. Nome do autor e co-autor (se houver), destacado em negrito.
  3. Informações sobre o autor e co-autor (se houver): curso, instituição de fomento, e-mail.
  4. Será aceito apenas um trabalho em co-autoria.
  5. Nome e titulação do orientador e departamento ao qual pertencem, destacado em negrito.
  6. Simpósio selecionado (a indicação de um segundo simpósio temático, em caso de não aprovação no primeiro, é opcional).
  7. O resumo virá abaixo deste cabeçalho e deve possuir de 600 a 1000 caracteres com espaçamento, contando ainda com três palavras-chave.

Os trabalhos aprovados serão divulgados em 11 de novembro de 2013 através do site do evento: http://debates.getempo.org

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO DOS TRABALHOS COMPLETOS:

Os trabalhos completos deverão ser enviados no intervalo entre 12 e 20 de novembro para o e-mail do evento eventos@getempo.org, obedecendo às seguintes normas:

Cabeçalho: Título do Trabalho em caixa alta, destacado em negrito, centralizado; nome do autor e co-autor (se houver), destacado em negrito; informações sobre o autor e co-autor (se houver): curso, instituição de fomento e e-mail; nome e titulação do orientador e departamento ao qual pertence, destacado em negrito. Simpósio temático selecionado.

Deve possuir de 8 a 12 páginas, fonte Times New Roman, letra tamanho 12, espaçamento 1,5, formatação justificada.

O sistema de citações será o AUTOR-DATA. As citações deverão ser indicadas no texto, informando o sobrenome do(s) autor(es) mencionados, na sequência (AUTOR, ano, página). Notas de rodapé poderão ser utilizadas em caráter explicativo.

A bibliografia completa deverá vir ao final do texto, segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Os arquivos devem ser enviados em formato doc ou docx (Word for Windows).

Os trabalhos completos enviados em desacordo com as normas estabelecidas para este Seminário não serão publicados nos anais eletrônicos do evento.

Simpósios temáticos do Seminário Debates do Tempo Presente 2013

ST 01 – Simpósio Temático  “Produção e usos escolares da história do tempo presente”

Coordenador: Prof.Dr. Itamar Freitas (NPGED/UFS)

Este simpósio temático acolhe resultados de pesquisas que relacionem as expressões “tempo presente” e “usos da história”, sobretudo em sua dimensão escolar. Aqui, reiteramos a nossa preocupação com as diferentes noções de presente, as formas de organização desse presente nos currículos, nos livros didáticos e na historiografia de síntese voltada para o público adulto que fundamenta, em grande medida, a historiografia consumida pelos alunos da escolarização básica no Brasil e no exterior.

ST 02 – Simpósio Temático  História Digital: conceitos, fontes, métodos e experiências

Coordenadores: Prof.Dr. Dilton Cândido Santos Maynard (UFS/DHI)/ Profa. Anita Lucchesi (PPGHC/UFRJ)

Este simpósio pretende congregar trabalhos que se dediquem a refletir sobre o estudo e a representação do passado a partir de novas tecnologias da comunicação, assim como a produção e a preservação de fontes digitais, considerando as potencialidades dos recursos digitais para a pesquisa e para o ensino da História. Esperamos colaborar para o debate sobre os desdobramentos da emergência dos registros digitais no ofício do historiador e sobre as transformações nas experiências de leitura, acompanhamento e argumentação em torno de questões históricas.

ST 03 – Simpósio Temático  Música, Memória e Ditadura

Coordenadora: Profa.Dra. Márcia Ramos Oliveira (PPGH/UDESC)

O Simpósio Música, memória e ditadura propõe-se a agregar investigações que abordem a música como evocação da memória e dos acontecimentos relacionados aos períodos de fechamento político, especialmente ao regime militar brasileiro (1964-1985). Interessam trabalhos que tratem a canção como referência aos eventos relacionados às ditaduras militares latino-americanas. Canção como documento e testemunho dos períodos de exceção.

ST 04 – Simpósio Temático  Ditadura e Transição Política na América do Sul.

Coordenadora: Profa. Dra. Cristina Luna (UNEB/GET-UNEB)

O presente simpósio tem como objetivo incentivar a interlocução entre pesquisas que contribuem com o aprofundamento dos debates teórico, metodológico e historiográfico acerca das temáticas ligadas ao estudo das ditaduras e das transições democráticas sul-americanas, no marco geopolítico da Guerra Fria (1947-1989). Nosso intuito é não somente analisar o fenômeno na sua dimensão internacional, mas também possibilitar a compreensão de suas especificidades, através da prática de comparações entre os diferentes processos nacionais. Nesse sentido, estarão em foco questões como: a participação e o apoio da sociedade civil aos regimes autoritários, os movimentos de luta armada e oposição aos governos militares, a cultura como forma de política e protesto. Quanto ao segundo aspecto, os processos de transição democrática, serão analisados a partir de dois modelos explicativos: o da transição por colapso e o da transição pactuada, sendo que ambos guardam relação profunda com o caráter dos regimes liberal-democráticos estabelecidos em seguida nos respectivos países.

ST 05 – Simpósio Temático  História e Literatura

Coordenadora: Profa. Dra Marizete Lucini (NPGED/UFS)

O simpósio temático História e Literatura propõe-se a acolher trabalhos que discutam aspectos da narrativa histórica e da narrativa de ficção como gêneros que comunicam experiências temporais. Nesse sentido, reflexões sobre romance, cordel, poesia, biografia e contos são aqui compreendidos para além de sua característica documental. Mais que documento, a literatura possibilita ao leitor vivenciar diferentes tempos e personagens históricos em que o comunicado é a experiência humana no tempo. Experiências que podem ser reinterpretadas, permitindo aos leitores estabelecerem relações de pertencimento e de identificação com os textos acessados, bem como permitem aos sujeitos do presente, habitar o passado e transformá-lo em memória. Memória que também o constitui como sujeito histórico no presente.

ST 06 – Simpósio Temático  Guerras, conflitos, revoltas e revoluções no Tempo Presente

Coordenador: Prof.Dr. Karl Schurster V. de Sousa Leão (UPE)

 Este simpósio tem como objetivo um estudo sistemático dos principais processos políticos e sociais, intitulados pela ciência política clássica como guerras, conflitos, revoltas e revolução. Nesse sentido, nosso objetivo está centrado em análises que busquem tratar estas temáticas mediante a teoria da história do tempo presente. O século XX inaugurou a prática de guerras totais, onde os esforços das sociedades se voltariam integralmente para a realização da guerra. Revoltas e revoluções praticamente se imbricaram no século XX e voltam à tona nas suas mais variadas formas no século XXI. Outro ponto de destaque são os conflitos internacionais em sua forma de guerra irregular de quarta geração, atualmente conhecida como guerra ao terror. Através destas discussões e problemáticas, esperamos pesquisas que problematizem e contextualizem tais conceitos através de suas aplicações, não em fatos, mas em processos históricos.

ST 07 – Simpósio Temático  Conflitos Cibernéticos no Tempo Presente

Profa.Dra.Tereza Cristina Nascimento França (NURI/UFS)

Prof. Ms. Gills Lopes Macedo de Souza (UFPE/Pró-Estratégia )

O início do século XXI testemunha a difusão em massa da informação através do ciberespaço e, em especial, da Internet. Assim como no mundo real, o virtual também enseja os mais diversos tipos de conflitos. Os inúmeros vazamentos de informações ultrassecretas, por parte do Wikileaks, foram levados em consideração até mesmo pelos principais tomadores de decisão dos Estados Unidos da América. No âmbito das Sociedades em Redes, as infowars/netwars são travadas por integrantes da mídia, do governo e de lobbies. Em meio à crise de representação política que assola várias sociedades do mundo, hacktivistas – como o Anonymous – insistem em lembrar os “governos corruptos de todo o mundo” de que eles não são donos da Internet. Numa corrida frenética, os mais diversos Estados acirram a chamada Guerra Fria Cibernética: buscam prover suas forças armadas não apenas de armas e bombas, mas também de bits e bytes, a fim de se preparem para a guerra cibernética (cyberwar). No tabuleiro da inteligência internacional, nem mesmo o pacífico Brasil ficou de fora da espionagem. Em meio a essa efervescência cibernética, este Simpósio Temático se apresenta, com o intuito de discutir os conflitos cibernéticos (hacktivismo, guerra cibernética e infowar) que, amiúde, têm colocado a Internet no centro dos principais fóruns de debate do tempo presente.

 ST 08 – Simpósio Temático  Patrimônio Cultural e redes de sociabilidades: da etnografia sociológica ao registro digital.

Coordenadores: Profa. Dra. Janaína Cardoso de Mello (NMS/UFS) e Prof. Dr. Clóvis Carvalho Britto (NMS/UFS)

Os bens culturais assim são classificados à partir do momento em que agregam o valor de patrimônio atribuído pela sociedade (via instituições ou por meio da comunidade civil). Entre tensões e possibilidades de ensino e aprendizagem, o patrimônio cultural material e imaterial têm sido alvo de estudos etnográficos incitando o pesquisador das áreas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas à ir para o campo, imiscuindo-se entre grupos de manifestações populares, analisando estruturas arquitetônicas de igrejasm casarios ou ruínas através de medições e fotografias, entrevistando representantes de religiões afro-brasileiras, registrando festejos cristãos ou a diversidade cultural indígena. O resultado dessas pesquisas mormente resultam em publicações de livros ou artigos, todavia, no tempo presente a utilização tecnológica para elaboração de bancos de dados eletrônicos e sites interativos têm possibilitado o acondicionamento das informações e a expansão de redes de sociaibilidades para reflexão, difusão e salvaguarda do patrimônio cultural. Partindo dessas premissas, esse Simpósio Temático busca agregar trabalhos de pesquisa, docência, extensão ou tecnologia que se afinem à essa proposta para um grande debate de ideias.

ST 09 – Simpósio Temático: História e Política Externa Brasileira

Coordenador: Prof.Dr. Antonio M. Elíbio Júnior. (Departamento de História-UEPB)

No contexto contemporâneo a gestão da Política Externa Brasileira vem imprimindo novas dinâmicas às relações internacionais e mesmo redimensionando o papel do Brasil na conjuntura global.  Embora o Itamaraty mantenha uma tradição diplomática baseada em princípios como o da “solução pacífica das controvérsias” e o “respeito inviolável a autodeterminação dos povos”, o Brasil tem envidado uma política externa objetivando um maior protagonismo nos foros internacionais e regionais. Os contornos do mundo “globalizado”, portanto, são definidos a partir de uma complexa rede constituída no bojo de movimentos dialéticos, de aproximação e distanciamento, de coalizões e conflitos, de interação e alinhamentos, onde novos atores e novos espaços reconfiguram as bases do poder internacional. Desde o final da Guerra Fria, o sistema internacional foi movido pela intensificação de novos conflitos que se deslocaram do eixo Leste-Oeste para novas geometrias como Norte-Sul, ricos-pobres, desenvolvidos-emergentes. Tais fenômenos lançam a relevância dos estudos acadêmicos interdisciplinares, objetivando investigar as estratégias de inserção/gestão do Brasil no campo das relações internacionais e sua trajetória no âmbito da história da Política Externa Brasileira.

Maiores informações pelo email eventos@getempo.org.

“Tortos” e Direitos Humanos

Algo precisa ser estudado, refletido, pensado, questionado e debatido publicamente. E é urgente. Seja pelo ponto de vista da História, do Direito, da Sociologia ou da Antropologia. As humanidades precisam olhar com mais atenção para isso.

Há pouco li a seguinte nota a partir de um link no Facebook do Deputado Jean Wyllys:

“Alvos recentes de uma pesada campanha difamatória e caluniosa por sua firme oposição à eleição e permanência do deputado Pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, dadas as suas declarações públicas de teor racista, homofóbico e misógino em redes sociais e fora delas, os deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ), Erika Kokay (PT-DF) e Domingos Dutra (PT-MA) decidiram representar criminalmente – por calúnia, difamação, falsificação de documento público, injúria, falsidade ideológica, formação de quadrilha e improbidade administrativa – o deputado Pastor Marco Feliciano, o pastor Silas Malafaia, e os assessores parlamentares Rafael Octávio, Joelson Tenório, André Luis de Oliveira, Roseli Octávio e Wellington de Oliveira, por produzirem vídeos, notas, postagens em redes sociais, ou colaborarem ativamente na propagação destas, atribuindo aos deputados, entre outros, a defesa da pedofilia como bandeira política.”

Comecei a ler a representação criminal dos deputados e só consigo ficar mais perplexa com o tipo (baixo!) de disputa por autoridade e verdades que está em andamento. A busca desmedida pelo “poder” pela via da desclassificação do outro, não pela via da Política. Como historiodora e defensora do Estado Laico (pois isto é coisa do homem), manifesto meu desapontamento e insatisfação perante tudo isso. Como ser humano livre para amar o próximo – independente de seu sexo e opção sexual -, manifesto minha revolta pela Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da nossa Câmara de Deputados estar sendo presidida por um homem que tem se mostrado tão incapaz de compreender as diferenças que nos fazem tão maravilhosos.

Preocupa-me a campanha de ódio que se alimenta dessas brigas e utiliza a Internet para divulgar aos quatro ventos a sua intolerância. Preocupa-me uma política que busca a segregação calcada no preconceito. Preocupa-me a inocência daqueles que, emotivamente envolvidos, assumem o discurso do outro como seu, sem ter tido a chance de problematizá-lo. Eu sinto muito viver nesta sociedade em que algumas pessoas devam aceitar o constrangimento ao medo de serem quem são em nome de uma moral supostamente fraternal e critã como a que vem sendo esbravejada por “irmãos” como Silas Malafaia e Marco Feliciano. Eu realmente custo a acreditar que a associação absurda entre pedofilia e homossexualidade (já batida em blogs de ódio como o escabroso Silvio Koerich, cujos mentores foram presos ano passado) esteja sendo reproduzida na Internet sem maiores problemas, na cara (senão, pelas mãos e bocas) de políticos que deveriam zelar pelos Direitos Humanos.

O trecho da representação criminal que descreve os fatos motivadores da ação é mais do que suficiente para ilustrar minha incredulidade. Ler a transcrição do vídeo PASTOR MARCO FELICIANO RENUNCIA (até o momento que escrevo este post, visto 539.038 vezes), linha por linha, sem o envolvimento dos efeitos sonoros e imagéticos da montagem, me fez parar por mais uma vez para refletir sobre o que está acontecendo. Isto é coisa pública, não deve ser uma causa das minorias, deve ser, e é, um problema de todos. Eis a transcrição:

II. O vídeo manipulado e afrontoso conclamando os fiéis contra parlamentares ligados aos Direitos Humanos e acusando os deputados de defensores da pedofilia.

O Deputado Federal Pastor Marco criou uma produtora em nome de um dos seus assessores: a WAPTV Comunicações. Essa empresa fica encarregada da criação de diversas campanhas publicitárias de crimes contra a honra de defensores de Direitos Humanos. Um dos seus produtos recentemente criados foi o vídeo com o título “Marco Feliciano Renuncia”. Vejam a transcrição do instrumento de divulgação ilícita:

Locução: – “Marco Feliciano. Cansado. Sobrecarregado .
Caluniado.”

Vozes de manifestantes: “Feliciano! Racista! Feliciano! Racista!”

Locução: -“A sua última alternativa… Renunciar! A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados sempre foi presidida por simpatizantes de movimentos homossexuais. ”

Fala da deputada Érika Kokay: – “Houve um aumento muito grande de beijo na boca no Brasil em praça pública.”

Locução: – “Somente o anúncio de que poderia ser ele o presidente da Comissão já provocou revolta dos simpatizantes da causa LGBT. Pelos corredores, deputados organizaram de forma obscura a manipulação de protestos para coagi-lo a desistir

“Fala do deputado Jean Wyllys: “Ele não vai aguentar essa pressão que é uma pressão nacional.”

Locução: “Quem são esses manifestantes?”

Fala do deputado Jean Wyllys: “(…) receber quando todo mundo descer e que a gente decidir coletivamente, Tem que aprender a agir coletivamente (…)”

Locução: “Líderes que fazem discursos políticos, inflamados no preconceito contra cristãos…”

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “ (…) o casamento civil igualitário vai dar muito trabalho porque essa desgraça dessa palavra tá eivada de sentimento cristão (…)”

Locução: “Eles dizem ser política…”Voz de manifestante: “Isso aqui é um movimento pacífico. Esse movimento não é contra a religião do Feliciano, hein… ”

Locução: – “Mas a pergunta: por que receberam suas entidades na entrada de uma igreja evangélica?”

Cenas de manifestantes batendo tambores em frente a igreja do deputado Feliciano em Ribeirão Preto.

Locução: “Por que gritavam palavras religiosas?”

Vozes de Manifestantes: “Saravá! Saravá!”Locução: “E por que agrediram uma pessoa quando decidiu gravar a sessão de ritual macabro?”

Cenas com legenda de identificação do ativista LGBT Fábio Jesus, presidente da ONG Arco-Íris, que levou a mão à câmera do cinegrafista que filmava os protestos em frente a igreja do deputado Feliciano.

Fala do deputado Jean Wyllys no programa ‘Sem Sensura’ da Tv Brasil, exibido no dia 03/07/12: – “ (…) Daí a importância do meu mandato. Eu não temo não me reeleger. Eu não tenho medo de não me reeleger. [Corte de imagens] (…) Os orixás me
deram esse mandato.”

Cenas repetem imagens realizadas em frente a igreja do Deputado Marco Feliciano em Ribeirão Preto aonde manifestantes aparecem tocando tambores e um ativista LGBT
aparece impedindo a filmagem utilizada no vídeo ‘Pastor Marco Feliciano Renuncia” .

Locução: “Toni Reis, presidente da Associação de Lésicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Ele pede privilégios para essa classe, alegando ser eles perseguidos violentamente, mas na verdade a violência vem dele mesmo.”

Imagens da Comissão de Direitos Humanos do dia 13/03/2013 aonde mostra-se Toni Reis discutindo com um senhor, aparentemente um representante ou pastor de igreja evangélica.Legenda: “Toni Reis agride covardemente um idoso”.

Fala do Toni Reis: “Eu não sou cristão. Eu não sou obrigado. “

Toni Reis empurra o representante ou pastor de igreja
evangélica.

Locutor: “E chega nas Ruas…”

Legenda: “Apresentação de Gupo Católico e tumultuada por
ativistas LGBT”.

Imagens da “Cruzada pela Família” promovida pelo Instituto Plínio Corrêa na cidade de Curitiba, PR, 14/01/13, contra os direitos LGBT e contra os direitos das mulheres em que
cidadãos curitibanos protestam contra a manifestação discriminatória do Instituto.

Legenda: “Sem reações Grupo Católico é agredido Fisicamente
por ativistas LGBT”.

Legenda: “Seu Líder “É QUEM” dá O exemplo”; Repetição de imagens do Toni Reis discutindo com um representante evangélico na Comissão de Direitos Humanos no dia 13/03/2013.

Apresentação de manchetes/títulos de matérias em sites:
– “Universitário é espancado por travestis e homossexuais em Vitória” – O Globo.

– “Lésbica com ciúmes arranca lábios da namora. Elas são tão “românticas” – Blog resistenciacristaj.blogspot.com.br

– “Lésbica mata companheira com 2 facadas” – gazetadigital.com.br

– “Lésbica mata parceira em Cuiabá após descobrir gravidez,diz polícia” – G1.

– “Travesti diz que matou deficiente em legítima defesa” – campograndenews.com.br

– “Travesti preso é suspeito de matar mulher em São Pedro da Aldeia, RJ” – G1.

Legenda: “Agressão na Porta da Igreja”; repete-se cena de ativista LGBT impedindo filmagem em Ribeirão Preto.

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “Eu estou disposto a pegar em armas se preciso for”.

Locução: “Tudo isso apoiado por estes deputados”

Imagens dos deputados Érika Kokay, Jean Wyllys e Domingos Dutra.

Locução: “…. tendenciosos ….”

Fala da deputada Érika Kokay: – “Antes da faca entrar, ela é afiada, ela vai sendo afiada, e todo mundo vai vendo que a faca esta sendo afiada e nada é feito enquanto a faca está sendo afiada.”

Locução: “… Agressivos….”

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “Eu estou disposto a pegar em armas se preciso for!”

Locução: “Eles visam a aprovação de leis como: a legalização do uso de entorpecentes como a maconha, a liberalidade sexual entre elas casamento de pessoas do mesmo sexo.“

Fala dá repórter da Tv Câmara: “Deputado Jean Wyllys, um plebiscito sobre o casamento gay, qual que é sua opinião?”

Fala do deputado Jean Wyllys: “A gente não pode deixar na mão de uma sociedade que não é bem informada determinados temas, eu acho que os deputados partem da mesma ignorância e dos mesmos preconceitos que grande maioria da sociedade parte.”

Locução: “A pedofilia justificando ser ela capaz de educar sexualmente uma criança de apenas 6 anos.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012: “Gostaria de iniciar abordando um tema um tanto controverso que é o da sexualidade infantil.”

Fala do pesquisador da UFRJ: “Trabalhar gênero e sexualidade não tem idade mínima.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012: “Meninos e meninas brincam inclusive sexualmente em seus corpos com outros meninos e meninas.”

Fala de ativista LGBT participante do Seminário Nacional LGBT 2012: “É que as crianças estão aparecendo.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012:: “Que deixem as crianças brincarem em paz.”

Legenda: APOLOGIA AO HOMOSSEXUALISMO PAGO SEU DINHEIRO.

Fala da representante da ONG Ecos no Seminário Nacional LGBT sobre suspensão do material “Escola Sem Homofobia”: -“E outra… esse material foi feito com recursos públicos.”

Fala do Toni Reis no Seminário do Plano Nacional de Educação por uma Educação sem Homofobia: “Gostaria de agradecer a comissão de direitos humanos ai dos nossos queridos deputados que inclusive aprovamos uma emenda de 11 milhões na semana passada, obrigado ao Chico Alencar que tem sido nosso grande articulador.”

Fala da representante da ONG Ecos no Seminário Nacional LGBT sobre suspensão do material “Escola Sem Homofobia”: – “Recursos da nossa população, que vem dinheiro publico.”

Legenda: “Para ensinar homossexualismo usam o seu dinheiro.”

Locução: “A regularização de profissionais do sexo.”

Fala do deputado Jean Wyllys: “A lei Gabriela Leite é uma lei que regulamenta a prostituição e descriminaliza as casas de prostituição no Brasil.”

Locução: “Sim, o reconhecimento de prostituição como profissão regulamentada e legalização do aborto. “

Imagens de bebês vivos e saudáveis e de fetos abortados posterior à 12ª semana.

Locução: “E por isso Marco Feliciano decidiu renunciar.”

Imagem de feto abortado com a legenda: “Não, não é hora de morrer”

Locução: “ Renunciar sua privacidade, renunciar noites de paz e sono tranquilo, renunciar momentos preciosos com a própria família, a fim de não renunciar a comissão de direitos humanos para que a sua família seja preservada. “

Imagens do deputado Marco Feliciano supostamente chorando.

Legenda: “Então disse Jesus aos seus di quiser vir após mim, renuncie
sua cruz, e siga

Locução: “Renuncie você também.”

Ler isto como um texto, me fez perceber ainda mais, a intencionalidade acusadora da montagem. A sequência de manchetes e crimes passionais envolvendo homossexuais e a seleção das falas dos deputados, seguidas de frases de efeitos da locução, certamente não consistem em uma simples compilação de meros documentos para ilustrar a mensagem do vídeo. Gostaria de ser uma exímia examinadora de discursos para esmiuçar este texto.

Fica um desabafo e um apelo aos colegas que se dedicam ao Tempo Presente: não fechemos os olhos.

UPDATE EM 02.04.2013:

Segundo matéria do Globo.com, após ser acusado de racista, o deputado Marco Feliciano procurou em Porto Velho por 30 pastores negros e tirou foto com eles para mostrar que não é racista. Peraí, minha gente, qual parte é a piada de mau gosto?

E ainda, “capitaliza” em cima do seu “sofrimento”:

“Em Porto Velho, Feliciano participou de um congresso da Igreja Assembleia de Deus. A milhares de fiéis, o pastor e deputado mostrou que a crise no Congresso não o constrange. Pelo contrário: na pregação feita na noite de domingo, o deputado capitalizou com o episódio. Disse estar precisando de ajuda e pediu aos fiéis que comprem seus produtos — CDs, DVDs, livros — e que fizessem ofertas a ele. Feliciano afirmou ainda no discurso ser exemplo para os fiéis, que estavam ali para ver um “mito”, que vem resistindo a “ameaças de morte”. O deputado chegou a falar que os brasileiros ainda ouvirão um presidente da República cumprimentar seus eleitores com “a paz do senhor Jesus”.” (grifo meu)

Cadernos do Tempo Presente navegando em águas profundas

Feliz em noticiar que os Cadernos do Tempo Presente do Grupo de Estudos do Tempo Presente (CTP-GET) chegam à sua 10ª edição anunciando parceria com a revista Italiana Diacronie – Studi di Storia Contemporanea (ISSN 2038-0955). Leitora dos dois periódicos, não tenho dúvidas de que esta novidade tende a promover um excelente intercâmbio de ideias. Super saudável e notável que um periódico digital brasileiro aproveite as possibilidades de colaboração trazidas pela internet para realizar este tipo de ponte. Da parte de Diacronie, já conhecida por sempre trazer textos extra-Itália, parece que a parceria com outro periódico eletrônico, só tende a reforçar ainda mais este perfil aberto de suas ediçõe, desta vez, cruzando virtualmente o Atlântico.

Curioso é que ambas as revistas estão regulando, mais ou menos, em número de edições (CTP no seu n. 10 e Diacronie em seu n. 11). Muito bom! Para além da afinidade temática, de ambos os lados, temos ainda um longo caminho de crescimento pela frente.

Parabéns ao CTP, já Qualis B2 este ano, por mais esta edição, como sempre, trazendo questões que pertubam nosso Tempo Presente, com pitadas de História Cultural e também uma levada de Teoria e Metodologia da História (que tanto me apraz!).

Meu reconhecimento vai, em especial, para a equipe que faz o CTP acontecer, com muito suor (mesmo no ar condicionado!), empenho e dedicação. Aos colegas: Karla Karine de Jesus Silva, Monica da Costa Santana, Carole Ferreira da Cruz, Luyse Moraes Moura, Diego Leonardo Santana Silva, Raquel Anne Lima da Silva, e claro, o coordenador desse timão, Prof. Dilton Cândido Santos Maynard, mais todo PET-UFS que dá suporte e incentiva o CTP. Parabéns por esse brilhante 2012, pessoal!

***

Daqui dos bastidores, obrigada também ao prof. Serge Noiret (IFPH/EUI) por ter indicado os Cadernos do Tempo Presente à Jacopo Bassi (editor de Diacronie).

Qui dal backstage, grazie anche al prof. Serge Noiret (IFPH/EUI) per aver raccomandato i Cadernos do Tempo Presente a Jacopo Bassi (editore Diacronie).