manifestações

O Globo em 17.10.2013 – Muito aquém do papel de um jornal

[e-mail enviado por mim ao “O Globo” neste dia 17.10.2013. A capa em questão encontra-se aqui]O Globo,

A capa deste dia 17 de outubro de 2013 é uma afronta à nossa inteligência, à nossa humanidade e ao nosso bom caráter. Quando digo nosso é porque me incluo entre os vândalos acusados e criminalizados pelo seu jornal. Quando digo nosso, falo em nome dos meus professores e meus colegas da educação.

Entendo que um jornal tenha uma linha editorial, mais à esquerda, mais à direita, o que for. Estamos em um país democrático, não estamos? Então a liberdade de expressão deve ser garantida e cada um pode escrever o que quer, não é assim?

“Só” há um pequeno grande problema nisso tudo: um jornal que se compromete a informar a sociedade, um veículo de grande circulação que se sabe predominante onde é vendido, deveria ter, minimamente, o dever ético de zelar pela qualidade da informação que oferece à sociedade. Ao contrário, O Globo, não é de hoje, vem utilizando termos pejorativos para se referir aos manifestantes e desta vez, bateu o recorde aludindo ao clássico “Crime e castigo”, sugerindo a culpabilização e a punição dos cidadãos que foram às ruas dizer que são contra o precário estado em que a educação se encontra. Sugeriu, com todas as palavras, não só nas entrelinhas costumeiras, que o manifestante é um crimonoso. Disse que o engajado foi baleado. Ora, pelo amor de Deus (que nada tem a ver com isso): que mensagem os senhores querem passar aos seus leitores? Não. Obrigada, não carece resposta. Foi só força de expressão, desabafo.

A conivência do jornal com a repressão e o autoritarismo desse Estado já era sabida, salvo raros momentos de “exceção”. Desculpem qualquer trocadilho. Vocês tiveram a chance de no final do dia publicar uma “Autocrítica” qualquer, mas ao invés disso vimos as clássicas correções do bom Português. Mas, se querem saber, dou minha cara à tapa se as minhas colegas de Língua Portuguesa não prefeririam ver retratadas as palavrinhas: “vândalos”, “cadeia”, “crime”, “castigo” etc. Ali havia muito mais que erro!

Não sou assinante de vocês, então não me devem nada como cliente. Mas reclamo como cidadã desse país que ainda se diz do futuro, mas parece ter voltado aos porões da Ditadura Militar do século passado. Ops, porões, não. Desculpem, me equivoco. Estamos mesmo vivendo a dita-‘lei-mais-dura’ (como gostam de chamar vocês) à luz bem clara do dia, em meio à praça pública, sob as lentes de milhares de independentes que ainda tentam fazer alguma denúncia. Pra quê? Se com a força e irresponsabilidade esmagadora do seu jornal vocês deturpam e pausterizam toda a realidade ao seu bel prazer? Seu e de sei lá mais quem.

Não tenho nenhum jornal da sua grife aqui em casa. O que é uma pena, pois me alegraria acender uma fogueira para espantar os mau olhados e expurgar tanta maldade. Nossa sociedade aos poucos banalizou tudo. Tem sociólogos que estudam isso, sabia? A atitude blasé das pessoas tem um motivo. A gente às vezes precisa fingir que não vê certas coisas para suportar viver nessa subcondição de direitos, de respeito, de humanidade. Tanta banalização, entretanto, nos fez esquecer o valor dos ritos e das ações simbólicas. Quando faço essa alusão ao fogo, é porque ele simboliza limpeza em muitos contextos. Hoje, por ter pego no jornal O Globo, por ter me paralisado alguns minutos com aquele bolo de papel na mão, me sinto suja. E me sentirei suja enquanto não colocar pra fora a minha opinião.Seu jornal, para mim, de hoje em diante, perdeu definitivamente o respeito. Eu já entoava “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, mas ainda achava que valia a pena ler. Nem que fosse para criticar. E é verdade, durante anos me informei ali. Hoje não penso mais assim. Hoje O Globo desceu irreversivelmente pelo ralo da desinformação, da falta de ética, da inculcação ideológica mais baixa. Escorre para o mesmo esgoto onde se alimentam os ratos dessa ditadura que se reinstaura barulhentamente em 2013. Barulho que a sociedade precisa ouvir. Barulho de bombas, tiros e gritos de palavrões e humilhação na guerra civil da Cinelândia, da Av. Presidente Vargas, da Lapa etc. onde a PMRJ açoita trabalhadores. Barulho que os senhores querem transformar em baderna de rebeldes sem causa, a quem chamam de vândalos para desqualificar sua ação política e simbólica de reagir bravamente à porrada dos seres humanos fardados que esquecem seus cérebros e corações em casa quando saem pra trabalhar e bater em professor.

Não, senhores, nós não somos tão ignorantes. Não passou, como diria a minha avó, desapercebido. Não, nós não vamos abaixar a cabeça. Não, nós não vamos bater palma para a eficiente violência policial. Não, nós não vamos engolir o medo que querem nos fazer sentir e acomodar nossas bundas no sofá à espera do resumão do Fantástico no domingo. Não, nós não vamos sair das ruas. Não, nós não vamos esquecer ou abandonar os colegas presos injustamente. Não, nós não vamos aceitar que a polícia jogue a bomba, feche as aljemas e O Globo jogue os confetes. Não, nós não vamos mais comprar o seu jornal. Não, nós não vamos condescender com a desavergonhada blasfêmia que os senhores jogam pra cima dos manifestantes. Não, nós não vamos nos contentar em mandar um e-mail e compartilhar uma coisinha de desabafo nas redes sociais. Nós voltaremos às ruas e não saíremos delas mesmo que os senhores, o prefeito, o governador e a PMRJ vandalizem com a nossa vida, nos injuriem e nos acusem falsamente do que quer que seja.

Agora estou aqui, no fim dessa mensagem, pateticamente irritada já sabendo que ninguém dos chefões aí vai ler. Sem ainda ter me sentido limpa e de bom humor pra dar parabéns ao meu pai que faz aniversário hoje. Sem ter conseguido me concentrar no trabalho. A sensação de tempo perdido é grande, mas não supera o alívio dessa catarse. Espero que alguém, ao menos alguém aí que ficar responsável por abrir essa caixa de e-mail que a esta hora estará abarrotada, leia, pare e reflita um pouco sobre o senhor seu empregador e toda essa baixaria.

No Facebook já há manifestações de repúdio ao “O Globo”!

Da página "Escafandro". Bela crítica!

Da página “Escafandro“. Bela crítica!

Carte de Istambul

[recebida por e-mail]

Querida X,

Antes de mais nada, estamos todas bem. Fomos expostas ao gás lacrimogêneo, mas está tudo bem. Depois de algumas experiências de dor inexplicável, você se acostuma. Não, não, nós estamos viciadas em gás lacrimogêneo agora. Eu pessoalmente prefiro me beneficiar desse serviço público todos os dias. 🙂 E pela primeira vez, tenho óculos de mergulho. Agora já posso fazer mergulhismo no verão. 🙂

Se tenho que te contar tudo, deixa-me fazer um resumo. Havia manifestantes pacíficos acampados em um parque na praça Taksim bloqueando as máquinas de construção que vinham construir um novo shoping. Durante 4 dias, elxs durmiram nas suas barracas de campismo e nada aconteceu. Mas era sexta-feira de manhã quando a polícia atacou com gás lacrimogêneo e canhões de água, e queimando as barracas. Na sexta-feira de tarde, as pessoas começaram a marchar até Taksim desde todas as ruas possíveis. Havia milhares lutando para entrar no parque, contra o gás lacrimogêneo em mais de 5 frentes. Outra vez, nos encontramos com o terror da polícia. No sábado de manhã, lutamos de novo. Ainda milhares em cada frente. Não, desta vez, dezenas de milhares vieram. Durante a tarde, toda a polícia teve que se retirar da praça Taksim. Ah, X, você devia ter visto aquela cena. Agora, centenas de milhares estavam na praça Taksim, no parque Gezi, na rua İstiklal e todas as ruas à volta estavam cheias de pessoas celebrando. Agora Taksim era uma zona salva. A polícia não podia entrar lá. Mas, na noite passada eles atacaram pessoas que tinham se juntado à volta de Beşiktaş. Elas queriam marchar até ao escritório do Primeiro Ministro, lá. Então a gente estava lá também. E era assim, a gente marchava dois passos, e eles jogavam gás lacrimogêneo, e a gente recuava um pouco. Depois mais dois passos, e outra vez o gás.

Bem, deixa que eu te conte algumas coisas sobre o movimento. A questão não é defender nenhuma ideologia mas estar lado a lado contra o fascismo. E é mais do que a defesa de um parque. Esta foi a chispa que acionou todas as pessoas que estavam descontentes com o governo. Este é o dia de acerto de contas por tudo o que o governo fez ao longo da última década. Massacres em massa, em Hatay, em Maio de 2013 (mais de 170 pessoas); em Uludere, em Dezembro de 2011 (40 pessoas), as proibições de realizar encontros, pelo terror policial com gás lacrimogêneo a cada vez que algumas pessoas fazem um encontro, pelos meios de comunicação censurados, pelas tentativas de proibição do uso de álcool depois das 10 da noite, os escândalos nos exames públicos das universidades ou concursos públicos, a destruição das florestas para as obras que eles planejam, as torturas sofridas por todas as pessoas oprimidas: xs Kurdxs, as Mulheres, xs Gays, Lésbicas e Bissexuais. Então, há muitas pessoas que estão lutando lado a lado. Alguns (eu diria que é outro tipo de fascismo) grupos nacionalistas turcos em favor da ideologia de Atatürk; gente da esquerda, filhas e filhos da pequena burguesia, as torcidas dos times de futebol, xs muçulmanxs socialistas, xs ecologistas… Nós lutamos juntas, ajudamos umas às outras, compartilhamos a comida, servimos o leite umas às outras e aplicamos a água morna com limão nos rostos umas das outras depois de cada um dos ataques de gás lacrimogêneo. Nós somos tão fortes quanto somos diversas. Porque o que nós queremos é uma e a mesma coisa: a resignação de Tayyip (nosso sultão).

Bem, parece que o Tayyip não vai dar nenhum passo atrás. Então, nós vamos resistir. E, eu sinto que esta excitação não vai se dissipar tão rapidamente. Nossas barricadas são fortes e nós aguentamos firmemente. Agora, a Anarquia, uma Anarquia pacífica paira por Taksim e seus arredores. As pessoas vendem e bebem bebidas alcóolicas na rua. Todas as paredes (todas as paredes mesmo) estão pintadas com palavras contra o fascismo, contra Tayyip, contra a polícia e a favor da solidaridade, das barricadas e da queima de carros da polícia e de meios de comunicação cúmplices com a polícia.

Querida X, você devia ver Istambul agora. Ela nunca foi tão bonita. Quando eu acordo, eu acordo feliz, sorrindo. E nas ruas, você vê isso em cada rosto. E então eu digo a mim mesma, se há algo tão bonito quanto o Amor, deve ser a Revolução. Eu não sei o que vai acontecer, mas tenho a certeza de que em breve tudo vai melhorar.

Você pode compartilhar qualquer parte desta carta, ou a carta toda, em qualquer lugar que você quiser. Porque não dá pra confiar em nenhuma notícia que fale da Turquia nos meios de comunicação. A gente precisa que você espalhe a nossa voz tanto quanto você puder.

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Para pensar. Mais um pouco: algumas imagens que capturei internet afora

A “delicadeza” dos jatos d’água

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Vermelho que cinza que chumbo: “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza / A palavra no muro / Ficou coberta de tinta”

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O melhor “diálogo”

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A “violência” das ideias na sutileza do gesto

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Todxs. Estão todxs unidos.