Manoel Luiz Salgado Guimarães

Homenagem ao mestre Manoel Salgado Guimarães

No dia 20 de junho, no salão nobre do Instituto de História será realizado um evento em homenagem ao Prof. Manoel Luiz Salgado Guimarães. Neste evento será exibido um pequeno documentário sobre o homenageado.
.
Todos estão convidados.
.
Se por ventura houver alguém lendo este post que não tenha conhecido o trabalho do Prof. Manoel, registro abaixo o link de um imperdível trabalho seu, que sem dúvidas, já é um clássico da historiografia brasileira e não deveríamos passar pela graduação sem lê-lo: Nação e Civilização nos Trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacionalNeste artigo da década de 1980, já se pode notar o esforço do autor em firmar no Brasil um campo de pesquisa sobre a produção do texto histórico, atentando não apenas para a dimensão estética deste último, mas também para suas dimensões éticas e políticas.

.
Bom, embora hoje possamos ler o Manoel à vontade e com ajuda da tecnologia e da web me resulte muito simples compartilhar seu texto acrescentando este link aqui, não posso inserir num simples post outra importante face de seu trabalho como professor e historiador: as incontáveis horas de dedicação em aulas para a formação de homens viajadores do tempo. Só posso dizer, a título de depoimento, que suas aulas também eram acontecimentos. Eram espaço de produção de conhecimento, práticas em que teoria e ensino se imbricavam e o professor não era o único detentor das verdades, dono do conteúdo. Nem o aluno, por sua vez, mero recipiente destes, mas sujeito com autonomia de pensamento. Enfim, sujeito do processo ensino-aprendizagem, não apenas um simples objeto destinatário. Na Revista de História também tem um entrevista interessante com ele, certamente vale mais a pena conhecê-lo pelas palavras dele do que pelas minhas.
.
Compareçam:
Saudações!
Anita.

Evento: Deleitar, Instruir, Mover

Abril sempre foi um mês especial pra mim. Mês do meu aniversário, ora bolas. Mas ano passado esse mês foi um mês articularmente doido. Abriu feridas inesperadas. Em 2010, no final do mês, partiu o querido Prof. Manoel Salgado e minha mãe sofreu um AVC.

Fazendo uma breve retrospectiva, maio/2010 foi um dos, senão “O” mês mais duro dos meus poucos 24 (quase 25) anos. Mas superamos! A pesquisa que quase abandonei por conta da desorientação (acadêmica e interna) já foi retomada. A minha mãe se recuperou surpreendentemente bem, seu reestabelecimento foi rápido e quase não deixou sequelas. Thanks God!

E anteontem recebi a notícia maravilhosa de que a minha mãe voltou a estudar. Bom né?! Nem sei fazer as contas de quanto tempo ela ficou fora de uma sala de aula. Também não sei se foi realmente e simplesmente pela sugestão da fisioterapeuta dela (foi o que me disse) ou se de fato,  ela resolveu atender algum dos meus pedidos. E por isso estou feliz. Feliz porque sei quanto a instrução pode mudar a nossa visão de mundo, a nossa vida. Feliz porque minha mãe superou muito bem o susto que a vida lhe deu e está dando valor a esta segunda chance.

E há pouco tempo também foi a minha vez de tomar contato com a instrução de forma diferente: agora sou eu quem fica lá na frente. Não, ainda não é em uma escola, nem numa universidade (ainda), mas estou fazendo parte de um projeto muito bacana que envolve aulas para alunos de pré-vestibular (PVS – CEDERJ – Fundação CECIERJ) e, confesso, há alguma coisa de mágico em dar aulas. Há sim. E espero, do fundo do meu coração, que o deleite não seja apenas meu nisso.

Fiquei feliz, enfim, por poder nessas minhas aulas passar um pouquinho da visão de História que tenho aprendido até aqui e espero colaborar para a formação daqueles quase 400 alunos de alguma maneira.

E qual não foi a minha alegria ao ver ontem em um dos murais do Instituto de História (ex-IFCS/UFRJ) um cartaz informando sobre o evento abaixo:

Inscrições aqui.

As mágicas aulas do Prof. Manoel deixaram uma marca indelével na minha formação e por isso (e outras razões não tão racionais assim) estarei lá na quarta-feira. E espero que alguns colegas possam ir. Depois desses primeiros parágrafos que escrevi acho que ficaria “demais” continuar escrevendo.

Bom final de abril pra vocês! O meu, aparentemente, será bem diverso do que foi em 2010. Felizmente.

História: Arte, Cultura e Indivíduos*

O historiador holandês Johan Huizinga, vivia e escrevia imerso no debate acerca do estatuto científico ou não científico da História. Huizinga pressupunha uma afinidade entre Arte e História que conferiria a história o estatuto de uma ciência verdadeira, não pelos seus métodos, mas pelo seu compromisso em buscar a verdade. O que a história faz em relação ao passado “não é nunca fotografar, mas é representar”[1], diz Huizinga, para quem a subjetividade deste “representar” constitui uma marca indelével para as narrativas que se faz do passado, as quais são marcadas pela imaginação histórica do seu autor. Neste sentido, o trabalho do historiador para Huizinga, tal qual acenara Wilhelm Humboldt, não se limita à crítica documental, mas vai além e passeia pela arte, pela criatividade histórica – o historiador se aproxima do poeta.[2]

Jacob Burckhardt, antes de Huizinga, alertou para a impossibilidade de se fazer história sem a sutileza e a sensibilidade necessária para compreender, imaginar e organizar, numa narrativa lógica, os elementos culturais de uma sociedade, tal como ele mesmo fez em seu clássico livro sobre a cultura do Renascimento na Itália[3].

As reflexões sobre a história, tanto de Burckhardt quanto de Huizinga, merecem um grifo para a atenção particular que estes autores concedem ao elemento individual, particular e subjetivo devido à ênfase que ambos dão à dimensão cultural e artística da história. Sobre o primeiro, Sabina Loriga nos diz:

“Para Burckhardt (…) o centro permanente da história era o homem mortal, geralmente sofredor, ‘o homem com suas dores, suas ambições e suas obras, tal como ele foi, é e será sempre’! Não o homem da providência dos filósofos e nem mesmo essa impostura romântica que é o herói, mas antes o indivíduo independente, livre (…) que conhece e admite sua dependência em relação aos acontecimentos gerais do mundo.”[4]

Esta característica também marca um outro traço da concepção de história nestes dois autores, que é a negação de uma história providencial[5], majoritariamente compreendida assim pelos historiadores mais positivistas, que acreditavam no Espírito hegeliano, que reduzem a importância das ações individuais e subordinam as artes, valorizando em contrapartida os grandes movimentos da história, pois para eles “as qualidades pessoais, inclusive as dos grandes homens, não bastavam para explicar o curso dos acontecimentos, e era preciso levar em consideração as instituições e o meio (a raça, a nação, a geração e etc.)”[6].

A desvalorização do significado das ações individuais traz consigo também o esvaziamento da responsabilidade dos homens frente aos rumos que a história toma e para Burckhardt este é um problema moderno:

“Burckhardt aponta uma diferença fundamental entre a pólis grega e o Estado moderno: enquanto na primeira os altos valores cívicos influenciavam positivamente a discussão filosófica, as artes e toda a vida social, o segundo torna servil toda manifestação do espírito humano, transformando pensadores, artistas e criadores em burocratas assalariados sem autonomia” [7].

O que Paula Vermeersch apresenta em seu trabalho, da cujo trecho acima fora extraído, sobre as anotações de aula de Burckhardt, é o ponto fulcral da nossa discussão – o ponto em que se cruzam história, indivíduos e ética, e que tem, como pano de fundo a querela entre antigos e modernos. Se pensarmos, portanto, na dimensão ética da história, quem melhor poderia representar os mais comprometidos com a ética, os antigos ou os modernos? Para Burckrhardt, a resposta mais acertada seriam os antigos, ou até mesmo os fiorentinos da Itália renascentista, uma vez que para o autor, Florença poderia ser comparada à Atenas. Achamos válido destacar aqui mais uma passagem do texto de Vermeersch que ilustra esta crítica de Burckrhardt à modernidade:

“O Estado e a Religião, por serem repressores, massificadores, contribuem negativamente para o florescimento de grandes individualidades, e isso é, para Burckhardt, o grande mal da modernidade: a massa vence o indivíduo, existe uma nivelação por baixo, todos se transformam em meros números da burocracia, todos se iludem que podem ser cultos, belos e jovens sem esforço ou dedicação.”[8]

Ora, se considerarmos que a modernidade é a geradora desta burocracia despersonalizante e produtora do businessman e, em se tratando de história, autora de muitas generalizações, começamos a entender porque Burckhardt vai tratar do Renascimento italiano com tanta nostalgia, ele que tanta atenção dedicou aos detalhes. E sendo assim, mais uma vez fica clara a recusa da parte dele a concepções mais positivistas da história, a história não caminha sempre em um sentido de progresso positivo, não é evolucionista.

Assim como Burckhardt, Huizinga também vai criticar esta máxima setecentista de que a razão aponta sempre para frente, bem como a racionalização exacerbada de tudo então, até mesmo da história que, para ele, permite e necessita de lirismo, de uma certa dose de amor pelo passado, que cada historiador soma aos trabalhos que se propõe a fazer. Neste sentido, Huizinga faz um forte apelo a tudo o que é lúdico, a imaginação, às faculdades humanas de criar e sentir, seu Homo Ludens, de que nos falou Naiara Ribeiro.

Percebe-se portanto, que não é somente a concepção de história que mudou no decorrer dos séculos, o indivíduo enquanto ente também veio sofrendo transformações e destas mudanças decorrem e incorrem novas situações políticas e surgem novos padrões comportamentais, outro sistema de valores e princípios passam a reger a ação humana, quais sejam, aqueles de uma sociedade regida pela racionalidade e obcecada pelo progresso a qualquer preço, a mesma que fora enfaticamente criticada por Nietzsche em todo o legado filosófico que nos deixou.[9]


[1] HUIZINGA apud RIBEIRO

[2] HUMBOLDT, Wilhelm von. “Sobre a tarefa do historiador” (1821). Anima 1(2), 2001.

[3] BURCKHARDT, Jacob. La civiltà Del Rinascimento in Itália. Roma: Newton Compton Editori, 2008.

[4] LORIGA, Sabina. “A biografia como problema”. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 239

[5] A recusa à Filosofia da História.

[6] Idem. p. 231

[7] VERMEERSCH, Paula. Jacob Burckrhardt e suas reflexões sobre a história. História Social – Revista dos pós-graduandos em História da Unicamp, No 10 (2003). Este artigo resume uma parte da monografia “Pão e circo: a imaginação como contra-poder”, defendida por Vermeersch em dezembro de 1998 sob a orientação da profa. dra. Amnéris Maroni, no departamento de Ciência Política, IFCH-Unicamp. Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/historiasocial/article/view/92 acessado pela última vez em: 09 de dezembro de 2009.

[8] Idem.

[9] MAYER, Arno J. “5. Concepções de mundo: darwinismo social, Nietzsche e Guerra”. In: força da tradição: a persistência do antigo regime, 1848-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 267-317.

VER TAMBÉM:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das letras, 1999.

JASPERS, Karl – Introdução ao Pensamento Filosófico – Ed. Cultrix, São Paulo, 1965.

RIBEIRO, Naiara. Johan Huizinga e a História da Cultura: a dimensão ética e estética da História Disponível em: http://revistadiscenteppghis.files.wordpress.com/2009/05/naiara-ribeiro-johan-huizinga-e-a-historia-da-cultura_a-dimensao-etica-e-estetica-da-historia.pdf Acessado pela última vez em 09 de dezembro de 2009.

*Este texto é parte do trabalho de conclusão do curso “Antigos e Modernos – A escrita da História” (Tópico Especial em Metodologia da História II, graduação em História), ministrado pelo Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães durante o segundo semestre de 2009, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ).