ódio

“Tortos” e Direitos Humanos

Algo precisa ser estudado, refletido, pensado, questionado e debatido publicamente. E é urgente. Seja pelo ponto de vista da História, do Direito, da Sociologia ou da Antropologia. As humanidades precisam olhar com mais atenção para isso.

Há pouco li a seguinte nota a partir de um link no Facebook do Deputado Jean Wyllys:

“Alvos recentes de uma pesada campanha difamatória e caluniosa por sua firme oposição à eleição e permanência do deputado Pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, dadas as suas declarações públicas de teor racista, homofóbico e misógino em redes sociais e fora delas, os deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ), Erika Kokay (PT-DF) e Domingos Dutra (PT-MA) decidiram representar criminalmente – por calúnia, difamação, falsificação de documento público, injúria, falsidade ideológica, formação de quadrilha e improbidade administrativa – o deputado Pastor Marco Feliciano, o pastor Silas Malafaia, e os assessores parlamentares Rafael Octávio, Joelson Tenório, André Luis de Oliveira, Roseli Octávio e Wellington de Oliveira, por produzirem vídeos, notas, postagens em redes sociais, ou colaborarem ativamente na propagação destas, atribuindo aos deputados, entre outros, a defesa da pedofilia como bandeira política.”

Comecei a ler a representação criminal dos deputados e só consigo ficar mais perplexa com o tipo (baixo!) de disputa por autoridade e verdades que está em andamento. A busca desmedida pelo “poder” pela via da desclassificação do outro, não pela via da Política. Como historiodora e defensora do Estado Laico (pois isto é coisa do homem), manifesto meu desapontamento e insatisfação perante tudo isso. Como ser humano livre para amar o próximo – independente de seu sexo e opção sexual -, manifesto minha revolta pela Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da nossa Câmara de Deputados estar sendo presidida por um homem que tem se mostrado tão incapaz de compreender as diferenças que nos fazem tão maravilhosos.

Preocupa-me a campanha de ódio que se alimenta dessas brigas e utiliza a Internet para divulgar aos quatro ventos a sua intolerância. Preocupa-me uma política que busca a segregação calcada no preconceito. Preocupa-me a inocência daqueles que, emotivamente envolvidos, assumem o discurso do outro como seu, sem ter tido a chance de problematizá-lo. Eu sinto muito viver nesta sociedade em que algumas pessoas devam aceitar o constrangimento ao medo de serem quem são em nome de uma moral supostamente fraternal e critã como a que vem sendo esbravejada por “irmãos” como Silas Malafaia e Marco Feliciano. Eu realmente custo a acreditar que a associação absurda entre pedofilia e homossexualidade (já batida em blogs de ódio como o escabroso Silvio Koerich, cujos mentores foram presos ano passado) esteja sendo reproduzida na Internet sem maiores problemas, na cara (senão, pelas mãos e bocas) de políticos que deveriam zelar pelos Direitos Humanos.

O trecho da representação criminal que descreve os fatos motivadores da ação é mais do que suficiente para ilustrar minha incredulidade. Ler a transcrição do vídeo PASTOR MARCO FELICIANO RENUNCIA (até o momento que escrevo este post, visto 539.038 vezes), linha por linha, sem o envolvimento dos efeitos sonoros e imagéticos da montagem, me fez parar por mais uma vez para refletir sobre o que está acontecendo. Isto é coisa pública, não deve ser uma causa das minorias, deve ser, e é, um problema de todos. Eis a transcrição:

II. O vídeo manipulado e afrontoso conclamando os fiéis contra parlamentares ligados aos Direitos Humanos e acusando os deputados de defensores da pedofilia.

O Deputado Federal Pastor Marco criou uma produtora em nome de um dos seus assessores: a WAPTV Comunicações. Essa empresa fica encarregada da criação de diversas campanhas publicitárias de crimes contra a honra de defensores de Direitos Humanos. Um dos seus produtos recentemente criados foi o vídeo com o título “Marco Feliciano Renuncia”. Vejam a transcrição do instrumento de divulgação ilícita:

Locução: – “Marco Feliciano. Cansado. Sobrecarregado .
Caluniado.”

Vozes de manifestantes: “Feliciano! Racista! Feliciano! Racista!”

Locução: -“A sua última alternativa… Renunciar! A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados sempre foi presidida por simpatizantes de movimentos homossexuais. ”

Fala da deputada Érika Kokay: – “Houve um aumento muito grande de beijo na boca no Brasil em praça pública.”

Locução: – “Somente o anúncio de que poderia ser ele o presidente da Comissão já provocou revolta dos simpatizantes da causa LGBT. Pelos corredores, deputados organizaram de forma obscura a manipulação de protestos para coagi-lo a desistir

“Fala do deputado Jean Wyllys: “Ele não vai aguentar essa pressão que é uma pressão nacional.”

Locução: “Quem são esses manifestantes?”

Fala do deputado Jean Wyllys: “(…) receber quando todo mundo descer e que a gente decidir coletivamente, Tem que aprender a agir coletivamente (…)”

Locução: “Líderes que fazem discursos políticos, inflamados no preconceito contra cristãos…”

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “ (…) o casamento civil igualitário vai dar muito trabalho porque essa desgraça dessa palavra tá eivada de sentimento cristão (…)”

Locução: “Eles dizem ser política…”Voz de manifestante: “Isso aqui é um movimento pacífico. Esse movimento não é contra a religião do Feliciano, hein… ”

Locução: – “Mas a pergunta: por que receberam suas entidades na entrada de uma igreja evangélica?”

Cenas de manifestantes batendo tambores em frente a igreja do deputado Feliciano em Ribeirão Preto.

Locução: “Por que gritavam palavras religiosas?”

Vozes de Manifestantes: “Saravá! Saravá!”Locução: “E por que agrediram uma pessoa quando decidiu gravar a sessão de ritual macabro?”

Cenas com legenda de identificação do ativista LGBT Fábio Jesus, presidente da ONG Arco-Íris, que levou a mão à câmera do cinegrafista que filmava os protestos em frente a igreja do deputado Feliciano.

Fala do deputado Jean Wyllys no programa ‘Sem Sensura’ da Tv Brasil, exibido no dia 03/07/12: – “ (…) Daí a importância do meu mandato. Eu não temo não me reeleger. Eu não tenho medo de não me reeleger. [Corte de imagens] (…) Os orixás me
deram esse mandato.”

Cenas repetem imagens realizadas em frente a igreja do Deputado Marco Feliciano em Ribeirão Preto aonde manifestantes aparecem tocando tambores e um ativista LGBT
aparece impedindo a filmagem utilizada no vídeo ‘Pastor Marco Feliciano Renuncia” .

Locução: “Toni Reis, presidente da Associação de Lésicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Ele pede privilégios para essa classe, alegando ser eles perseguidos violentamente, mas na verdade a violência vem dele mesmo.”

Imagens da Comissão de Direitos Humanos do dia 13/03/2013 aonde mostra-se Toni Reis discutindo com um senhor, aparentemente um representante ou pastor de igreja evangélica.Legenda: “Toni Reis agride covardemente um idoso”.

Fala do Toni Reis: “Eu não sou cristão. Eu não sou obrigado. “

Toni Reis empurra o representante ou pastor de igreja
evangélica.

Locutor: “E chega nas Ruas…”

Legenda: “Apresentação de Gupo Católico e tumultuada por
ativistas LGBT”.

Imagens da “Cruzada pela Família” promovida pelo Instituto Plínio Corrêa na cidade de Curitiba, PR, 14/01/13, contra os direitos LGBT e contra os direitos das mulheres em que
cidadãos curitibanos protestam contra a manifestação discriminatória do Instituto.

Legenda: “Sem reações Grupo Católico é agredido Fisicamente
por ativistas LGBT”.

Legenda: “Seu Líder “É QUEM” dá O exemplo”; Repetição de imagens do Toni Reis discutindo com um representante evangélico na Comissão de Direitos Humanos no dia 13/03/2013.

Apresentação de manchetes/títulos de matérias em sites:
– “Universitário é espancado por travestis e homossexuais em Vitória” – O Globo.

– “Lésbica com ciúmes arranca lábios da namora. Elas são tão “românticas” – Blog resistenciacristaj.blogspot.com.br

– “Lésbica mata companheira com 2 facadas” – gazetadigital.com.br

– “Lésbica mata parceira em Cuiabá após descobrir gravidez,diz polícia” – G1.

– “Travesti diz que matou deficiente em legítima defesa” – campograndenews.com.br

– “Travesti preso é suspeito de matar mulher em São Pedro da Aldeia, RJ” – G1.

Legenda: “Agressão na Porta da Igreja”; repete-se cena de ativista LGBT impedindo filmagem em Ribeirão Preto.

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “Eu estou disposto a pegar em armas se preciso for”.

Locução: “Tudo isso apoiado por estes deputados”

Imagens dos deputados Érika Kokay, Jean Wyllys e Domingos Dutra.

Locução: “…. tendenciosos ….”

Fala da deputada Érika Kokay: – “Antes da faca entrar, ela é afiada, ela vai sendo afiada, e todo mundo vai vendo que a faca esta sendo afiada e nada é feito enquanto a faca está sendo afiada.”

Locução: “… Agressivos….”

Fala do Reverendo Márcio Retamero no Seminário Nacional LGBT 2012: “Eu estou disposto a pegar em armas se preciso for!”

Locução: “Eles visam a aprovação de leis como: a legalização do uso de entorpecentes como a maconha, a liberalidade sexual entre elas casamento de pessoas do mesmo sexo.“

Fala dá repórter da Tv Câmara: “Deputado Jean Wyllys, um plebiscito sobre o casamento gay, qual que é sua opinião?”

Fala do deputado Jean Wyllys: “A gente não pode deixar na mão de uma sociedade que não é bem informada determinados temas, eu acho que os deputados partem da mesma ignorância e dos mesmos preconceitos que grande maioria da sociedade parte.”

Locução: “A pedofilia justificando ser ela capaz de educar sexualmente uma criança de apenas 6 anos.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012: “Gostaria de iniciar abordando um tema um tanto controverso que é o da sexualidade infantil.”

Fala do pesquisador da UFRJ: “Trabalhar gênero e sexualidade não tem idade mínima.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012: “Meninos e meninas brincam inclusive sexualmente em seus corpos com outros meninos e meninas.”

Fala de ativista LGBT participante do Seminário Nacional LGBT 2012: “É que as crianças estão aparecendo.”

Fala da psicóloga Tatiana Lionço no Seminário Nacional LGBT 2012:: “Que deixem as crianças brincarem em paz.”

Legenda: APOLOGIA AO HOMOSSEXUALISMO PAGO SEU DINHEIRO.

Fala da representante da ONG Ecos no Seminário Nacional LGBT sobre suspensão do material “Escola Sem Homofobia”: -“E outra… esse material foi feito com recursos públicos.”

Fala do Toni Reis no Seminário do Plano Nacional de Educação por uma Educação sem Homofobia: “Gostaria de agradecer a comissão de direitos humanos ai dos nossos queridos deputados que inclusive aprovamos uma emenda de 11 milhões na semana passada, obrigado ao Chico Alencar que tem sido nosso grande articulador.”

Fala da representante da ONG Ecos no Seminário Nacional LGBT sobre suspensão do material “Escola Sem Homofobia”: – “Recursos da nossa população, que vem dinheiro publico.”

Legenda: “Para ensinar homossexualismo usam o seu dinheiro.”

Locução: “A regularização de profissionais do sexo.”

Fala do deputado Jean Wyllys: “A lei Gabriela Leite é uma lei que regulamenta a prostituição e descriminaliza as casas de prostituição no Brasil.”

Locução: “Sim, o reconhecimento de prostituição como profissão regulamentada e legalização do aborto. “

Imagens de bebês vivos e saudáveis e de fetos abortados posterior à 12ª semana.

Locução: “E por isso Marco Feliciano decidiu renunciar.”

Imagem de feto abortado com a legenda: “Não, não é hora de morrer”

Locução: “ Renunciar sua privacidade, renunciar noites de paz e sono tranquilo, renunciar momentos preciosos com a própria família, a fim de não renunciar a comissão de direitos humanos para que a sua família seja preservada. “

Imagens do deputado Marco Feliciano supostamente chorando.

Legenda: “Então disse Jesus aos seus di quiser vir após mim, renuncie
sua cruz, e siga

Locução: “Renuncie você também.”

Ler isto como um texto, me fez perceber ainda mais, a intencionalidade acusadora da montagem. A sequência de manchetes e crimes passionais envolvendo homossexuais e a seleção das falas dos deputados, seguidas de frases de efeitos da locução, certamente não consistem em uma simples compilação de meros documentos para ilustrar a mensagem do vídeo. Gostaria de ser uma exímia examinadora de discursos para esmiuçar este texto.

Fica um desabafo e um apelo aos colegas que se dedicam ao Tempo Presente: não fechemos os olhos.

UPDATE EM 02.04.2013:

Segundo matéria do Globo.com, após ser acusado de racista, o deputado Marco Feliciano procurou em Porto Velho por 30 pastores negros e tirou foto com eles para mostrar que não é racista. Peraí, minha gente, qual parte é a piada de mau gosto?

E ainda, “capitaliza” em cima do seu “sofrimento”:

“Em Porto Velho, Feliciano participou de um congresso da Igreja Assembleia de Deus. A milhares de fiéis, o pastor e deputado mostrou que a crise no Congresso não o constrange. Pelo contrário: na pregação feita na noite de domingo, o deputado capitalizou com o episódio. Disse estar precisando de ajuda e pediu aos fiéis que comprem seus produtos — CDs, DVDs, livros — e que fizessem ofertas a ele. Feliciano afirmou ainda no discurso ser exemplo para os fiéis, que estavam ali para ver um “mito”, que vem resistindo a “ameaças de morte”. O deputado chegou a falar que os brasileiros ainda ouvirão um presidente da República cumprimentar seus eleitores com “a paz do senhor Jesus”.” (grifo meu)

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O RETORNO: É PRIMAVERA EM ZWICKAU, ALEMANHA.

Preciosa pescada na página do Tempo Presente por sugestão do Prof. Dilton Maynard. É preciso encarar este passado de outra maneira. Mas como? 

—-

Por Francisco Carlos Teixeira da Silva

É comum que mulheres e homens voltem-se para o futuro com esperanças e expectativas de mudança deixando para trás o passado. Mesmo a poesia – como em Drummond, de versos tão belos sobre o tempo presente – costuma valorizar o presente e adivinhar um futuro sempre melhor. Mesmo no cotidiano, nosso dia a dia, a vasta e vaga sabedoria popular nos diz “para esquecer o passado” e viver “para frente!”. Mesmo o famoso verso da “Internacional Comunista” (a canção) propunha “fazer do passado tábua rasa!”.

Possivelmente tudo isso é certo, bom e vantajoso para as pessoas. Talvez não seja o mesmo para as nações. Compreender bem o passado, entender como se chegou a situações atuais – boas ou más – e o que homens e mulheres fizeram em situações difíceis, tempos de provação, é uma lição importante para as sociedades. Hoje, a sociedade alemã defronta-se mais uma vez com seu próprio passado. Um escândalo dito em meias palavras: durante 13 anos uma organização neonazista – Nationalsozialisticher Untergrund (“Clandestinidade Nacional-Socialista”) assassinou pelo menos 10 pessoas, fez mais de 14 ataques contra propriedades turcas e lugares de memória judeus, além de assaltar bancos. Ainda, assim, e apesar da conhecida eficácia da polícia alemã (ou talvez com o conhecimento dela, segundo o jornal “Tagesspiegel”), os terroristas permaneceram livres e atuantes, até novembro de 2011 – quando, sob perseguição, buscaram o suicídio.  Hoje, o Parlamento pede um inquérito visando estabelecer as ramificações e as condições em que agiram os três principais acusados, bem como as relações do grupo nazista e a polícia.

Não repetir o passado!
Mais uma vez,  por um tempo, vivo na Alemanha e busco entender este passado que se faz vivo a cada momento. O primeiro impacto, para olhos treinados,  é o exercício de conviver quotidianamente com os signos e ícones vivos de duas grandes guerras – a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1945-1991).  Além, é claro, da presença avassaladora dos genocídios – judeus, opositores, simples gente denominada de “anti-sociais”, gays, testemunhas de Jeová, ciganos, doentes mentais e deficientes físicos, todos considerados “sub-humanos” ( “Untermenschen” ) ou “gente de pouco valor racial”. Assim, ao esbarrar em cada ícone deste mundo que não passa, mais entendo o passado como algo vivo, real, pujante de signos. Aqui tropeçamos, literalmente,  na história, seja no caminho do trabalho, de casa ou do simples quando vamos barzinho para beber uma cerveja.

Aqui e ali a guerra mostra sua dura face: no pátio interno do meu prédio, na Rua da Comuna de Paris, os buracos de balas e as crateras dos morteiros soviéticos da Batalha de Berlin ainda são visíveis nos remendos apressados feitos nos fundos ( “Hinterhof” ) do prédio. A história banida para as paredes dos fundos, mostra uma cara cheia de cicatrizes.  Acordo e olho esta cara sem maquiagem do passado.  Diariamente estou  face a face com a guerra que foi a guerra de todas as guerras. Na esquina atravesso a Karl-Marx-Allee, que já foi a gloriosa “Avenida Stálin”, e que a revisão de Nikita Kruschev decidiu, em 1956, com mais pudor, denominar tão somente Karl-Marx-Allee.

No fim da minha rua o muro sobrevive com sua falsa alegria de pichações coloridas: são bons 200 metros de passado, com sua curva separando ruas, prados, quarteirões… E pessoas!

Para além dos lugares materiais, de pedra e concreto, a guerra sobrevive na mente de todos, um pouco zipada, para não fazer volume, mas está lá… Nos museus, em Karlshorst, onde o Marechal Keitel se rendeu ao Marechal Jukov, em maio de 1945, adolescentes correm com suas pranchetas e computadores, copiando datas, nomes, lugares, cifras… Nenhuma geração possui o direito de esquecer…

Rua da Primavera, Alemanha
E, no entanto esquecem… Em Zwickau, uma cidade industrial de 120 mil habitantes no estado da Saxônia, uma célula neonazista assassinou inúmeros estrangeiros (a polícia ainda trabalha para descobrir a extensão do grupo e dos mortos, até o momento chegou-se oito turcos, um grego e um policial alemão, como as vítimas conhecidas).  O grupo,  autodenominado “Clandestinidade Nacional-socialista” ( leia-se, nazista ), era composto – em sua base – por Beate Zschäpe, 36 anos; Uwe Mundlos, 38 anos e Uwe Bönhardt, 34 anos… Todos residentes na Rua da Primavera, 26, Zwickau. Eram quietos, calmos, respeitadores dos vizinhos, não cantavam ou faziam baderna durante jogos de futebol, e nunca ouviam música alto demais… O aluguel era pago pontualmente todo dia 25 do mês, incluindo todas as taxas. Identificados pela polícia, os dois Uwe se mataram e Beate explodiu a casa, na tentativa de evitar a identificação da rede nazista. Antes, porém, de forma piedosa pediu a vizinha para cuidar de seus dois gatos…
Beate escapou, e está presa: a polícia tenta estabelecer as relações da “Clandestinidade Nacional-socialistas” com outros grupos neonazistas em Berlin, Kassel e Hannover – e muito possivelmente com o Partido Nacional Republicano, que reclama a herança hitlerista. 

 O grupo era conhecido da polícia, que possivelmente tinha um agente infiltrado na rede. Os arquivos policiais sabiam também das reuniões e dos “cultos” praticados em honra do Terceiro Reich, além de atos de vandalismo e agressão contra judeus e estrangeiros. Além disso, o grupo havia divulgado (em 2010), com venda livre na Internet, um cd denominado “Adolf Hitler lebt!” (Adolf Hitler vive!), com um tremendo “hit” denominado “Donner Killer” – Donner, kebap, é a comida, e ao mesmo tempo o nome das pequenas lojas de lanches rápidos, dos turcos residentes na Alemanha.
Os crimes, cometidos ao longo de treze anos,  que estavam sem solução, eram conhecidos como “os assassinatos do kepab”!

Entender o ódio
A pergunta que não se cala é imediata: por quê? Ou melhor: por que ainda? Nenhum dos três principais acusados – são jovens – viram a guerra, não conheceram o Partido nazista em sua época de apogeu e não participaram de suas massivas demonstrações cenograficamente preparadas. Ou foram “doutrinados” pela imprensa do Dr. Goebbels…  Como historiador, e acima de tudo como educador, gostaria de refazer o percurso destas pessoas e voltar à escola, aos livros e aos professores que tiveram…

Gostaria de saber como estudaram história: o que leram, se foram levados a algum museu ou exposição sobre a guerra ou se leram sequer cinco páginas sobre o holocausto?  Teriam vista sequer um filme, um documentário sobre os horrores na Rússia ou Polônia ocupada? Sabiam o significado de Auschwitz ou Treblinka? 

O mal não é inato, não deve ser algo inscrito no DNA ou no “solo e no sangue” (“Blut und Boden”), como os próprios nazistas queriam… Não, a resposta não deve residir aí, ou caso contrário os nazistas teriam razão: a história seria construída pela determinação de raça. Não, a falha que permitiu o retorno do mal em Zwickau está, com certeza, em outros fatores. 

Houve uma falha, algo que quebrou no fundo da vida dessas pessoas banais, num bairro banal, de uma cidade industrial interiorana e também banal.  Em algum momento a educação – não só o ensino da história – mas, todo o processo educativo, falhou! A escola não soube, ou não pode com seus meios, evitar o nazismo (de novo)! O grupo de Zwickau é uma derrota da escola, para além de comprovar a leniência histórica da polícia alemã com a extrema-direita fascista.

Podemos, é claro, falar de uma sociedade hierárquica, por demais organizada, pronta para sacrificar o individual e o humano, ao rigor das agendas, das normas, dos parágrafos e artigos dos códigos, dos quais não se pergunta, ou questiona, a origem e significado.   

Podemos, é claro, falar de pessoas massivamente sozinhas, em rotinas enfadonhas, sem espaço para o diferente, onde até um passeio, uma “Pils” no bar da esquina, obedece a regras, horários e normas, que não podem ser contrariadas. 

Podemos é claro, falar de pessoas que não se cumprimentam, ou o fazem quase como um rosnado, que fingem não ver o outro e que lêem sempre o mesmo livro barato da “Reclamen” na viagem de metrô só para não falar com o passageiro ao lado.

Podemos, ainda, falar de uma pequena classe média, de uma burguesia de lojistas, de funcionários públicos e agentes do estado – todos na beira da proletarização ao estilo europeu! – que desconfiam naturalmente de estrangeiros.  Pouco importa que você fale alemão, já estão disponíveis a não entender, a não ajudar, a recusar uma informação ou mesmo um serviço. 

Mas, nada disso explica por si só o retorno. Mesmo rotineiros e solitários a grande maioria dos alemães é partidária da República, apóia a Constituição democrática e convive de forma normal com os seus vizinhos, mesmo se eles são estrangeiros. Muitos preferem bares, restaurantes e quiosques de turcos, gregos ou italianos e gostam de  pizza, kebap e de caipirinhas.

Mas, podemos também acreditar que existem aqui e ali pessoas caladas, bons vizinhos, que gostam de gatos e pagam suas contas em dia, que não fazem barulho e não perturbam os vizinhos, como Beate, e que tramam coisas terríveis.

Quem deseja o passado
Há, então, uma minoria disponível ao retorno da história, a sua repetição – e ainda esta vez não é como burla, comédia ou farsa, como atestam os mortos de Zwickau. Há um componente autoritário, há um componente de recusa ao diferente e de frieza nas relações interpessoais – incluindo aí as relações entre os próprios alemães, com seus próprios filhos – e, em torno disso tudo, uma profunda falha de educação – no seu sentido mais largo.

Por isso mesmo, pelo papel dos educadores, que o passado não é algo morto, não é um lugar que não existe mais. Muitos historiadores, colegas de grande valor, foram conquistados por matizes diferentes de uma leitura narrativista da história, onde o objeto do historiador não é o passado e sua reconstrução, mas sim as “falas” sobre o passado, todas dotadas do mesmo estatuto de valor. Penso que não. Nem todas as narrativas possuem o mesmo valor heurístico, para não falar em valor ético. Da mesma forma que as diversas vivências são irredutíveis.  A narrativa sobre os campos de concentração feita pelos seus guardas SS não possui o mesmo valor da narrativa de um prisioneiro do mesmo campo, embora ambos tenham vivido no mesmo espaço e tempo e inter-agido. O que cada um vive difere intrinsecamente da vivência do outro. E cada vivência é única, precisa ser resgatada e exposta. Ela é a verdade? Não toda a verdade, é a verdade vivida de cada um, ou seja, o passado num mosaico interminável. A multiplicação de verdades vividas, juntas, comparadas, cruzadas, constitui uma rede de veracidade.

Temos que nos apressar  em relatar estas vivências, num esforço contínuo para evitar rupturas nesta vasta rede de verdades vividas. Uma falha na malha, ampla, diversa, como uma tela iluminada de Matisse, é o bastante.  O risco de ignorar o que foi vivido avoluma-se, condenando-nos a viver de novo e de novo o “já existido” enquanto experiência única. 
Se os assassinos de Zwickau tivessem visitado, quando adolescentes, o Campo de Sachsenhausen ou Dachau teriam eles organizado o grupo neonazista que torturou e matou durante anos impunemente? Eis uma questão importante.

Quando na Alemanha, ou ainda agora no Chile, ou mesmo no Brasil muitas vozes declaram que o passado está morto ( “quem vive de passado é museu”! ) e não vale à pena ressuscitá-lo, cometem um erro basilar: nenhum passado é morto. São vivências, próprias e dos outros, que continuam a existir, alimentar-se mutuamente e, formando uma rede que envolve todos nós… e no limite, a repetir-se.
Olhando agora pela minha janela, vejo  todo o passado nos tijolos remendados apressadamente no bloco de apartamentos da Rua da Comuna de Paris – formam uma outra rede de buracos e ausências. O passado está lá, está na Rua da Primavera e está com aqueles que morreram porque o passado vive.

Francisco Carlos Teixeira Da Silva/Tempo Presente/UFRJ

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E ainda do Tempo Presente, outra recomendação de leitura para quem quiser descobrir um pouco mais sobre o neofascismo no Chile comentado pelo Prof. Francisco Carlos, fica o link para o neonazis.com: A nova extrema-direita chilena em tempos de internet de Luyse Moura. Deste artigo também fica outra pergunta aos colegas historiadores: Como lidar com os extremismos (e extremistas!) que driblam a clandestinidade de seus projetos racistas usando as ferramentas da Web como aliadas e a rede em si como espaço para fóruns, militância e cultos de ódio? Até quando a pesquisa e o comprometimento do historiador-professor-de-história-educador com o conhecimento histórico vai se limitar a (tentar) explicar aquele falso defunto convencido de ser passado sobre o qual líamos há pouco? Viveremos, tomando emprestado o termo irritantemente pós-moderno de Sygmunt Bauman, em tempos de ética líquida