Pesquisa

Debate online, ao vivo e totalmente gratuito sobre História Digital

UP DATING: 26.11.2013 às 23h10

O debate foi de altíssimo nível. Acabou de acabar! Parabéns a todos os envolvidos, participantes e debatedores. Com certeza marca um momento importante das discussões sobre História Digital no Brasil.

Segue o vídeo para quem não pode participar ao vivo:

Com muita alegria anuncio a iniciativa da rede Café História em organizar junto com a ANPUH-RJ o debate História Digital: ensino, pesquisa e divulgação.

O evento será na próxima terça-feira à noite, transmitido online pela página do Café! Espero que a esta hora muitas pessoas consigam acompanhar.

Participarão do debate: Bruno Leal, fundador do Café História e doutorando em história social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lise Sedrez, professora do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Keila Grinberg, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Flávio Edler, presidente da ANPUH-RJ e professor de história na Fiocruz, que fará a mediação do debate.

Perguntas poderão ser enviadas antes ou durante a transmissão por aqui.

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Meta-postagem, ou por que não confiar cegamente no Google?

Hoje percebi que, ao menos em minha máquina (isto é, com meu IP e minhas configurações pessoais de navegador), ao pesquisar no Google o termo “Leopold von Ranke” o link para o meu post Século XIX: História como disciplina (que fala sobre Ranke) aparece em 3º lugar entre os resultados da busca, antecedido apenas pela Wikipedia em português e por aquela em inglês. O post foi criado em junho de 2008, segundo mês de vida deste blog:

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Google: Leopold von Ranke

Diante disto, decidi fazer uma advertência aos leitores do post, concedendo-me a auto-licença de adicionar o seguinte UPDATE ao final do texto:

Curiosamente, quase cinco anos após a criação deste blog, este post tem sido um dos mais visitados e mais comentado. E o é embora não seja um texto com linguagem web friendly e, nem mesmo, trate do principal tema deste blog: Digital History / Storiografia Digitale. Até ontem (06.04.13), o termo de pesquisa “Leopold von Ranke” trouxe 913 pessoas a este blog. Apenas “Ranke”, 598. No total, este post recebeu neste período, 14.445 visualizações, sendo o mais visitado e comentado do blog, que conta com 109 postagens. Eu não sou uma especialista em Ranke e estou longe de ser uma autoridade em debates sobre historiografia alemã, gostaria que os leitores tomassem consciência disso. Sobretudo, pois notei através dos comentários recebidos, que alguns leitores talvez sejam, como eu à época, estudantes de graduação. Alguns buscando via Google respostas para as suas perguntas, possivelmente para suas provas e avaliações. É importante dizer que o texto, que assino com o colega Miguel Carvalho Rêgo, na verdade, foi produzido para uma avaliação da disciplina “Metodologia da História II”, ministrada pelo saudoso Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães, em 2007, na UFRJ (IFCS). Este professor, inquestionavelmente responsável pela minha escolha por este caminho da História, nos deixou precocemente, mas deixou também muita inspiração. O pensamento de Manoel (que amava ser professor), por si só, me lembra a feliz escolha de curso que fiz. Foi, provavelmente no curso (tópico especial) de “História, Memória e Patrimônio” que foi despertado em mim o desejo de estudar mais teoria, metodologia e me fez seguir, como tem sido até hoje, seduzida pelo tema até o mestrado. Reler o texto revela outra Anita (e provavelmente outro Miguel), revela a passagem inexorável do tempo e a imaturidade das ideias de uma menina de 21 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro para descobrir o que não era História. Obrigada, sempre, prof. Manoel Salgado.

De certo, este é um belo exemplo de como podemos ver o mundo através dos olhos do Google. É possível que algumas pessoas nestas milhares de visualizações tenham utilizado o tal texto para algum fim, parcial ou integralmente (torço pelo não plágio!). Nunca saberei o que esta leitura desencadeou em suas cabeças, nem se o texto foi lido até o final. Espero que não tenha sido tomado ao pé da letra como verdade. Porém, no fim das contas, não poderei saber nunca se, de fato, ele foi contextualizado como um artigo raso, bem questionável, escrito por não especialistas sobre a “história como disciplina”. Obviamente, a autoridade que o Google nos concede, (não deixa de ser um tipo de autoridade), este poder de voz, assusta. Isto me faz repensar a responsabilidade que temos com as informações que colocamos em circulação. Do ponto de vista da História, o quão complexo é o problema da classificação das informações dispersas na rede, não qualificadas, hierarquizadas ou vinculadas a instituições que confiram alguma “confiabilidade” a elas.

Gostaria que o meu post (que na verdade é um texto escrito a quatro mãos) não virasse uma espécie de cola-burra para estudantes de graduação, nem parecesse o resultado de uma grande investigação científica, nem fosse tomado como o mais correto blablablá, etc. Apenas o deixo na rede por considerar que ele faz parte da história deste blog e que, se lido criticamente, possa ser uma unidade a mais de divulgação científica no ciberespaço.

Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet

Estou republicando este curadíssimo artigo do Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá (afsa@ufs.br), do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (pesquisador envolvido no H-SEnet, do post anterior).

O artigo passa por questões como a aceleração do tempo, a desterritorialização, o problema da conservação dos arquivos digitais e muitos outros questionamentos indispensáveis para quem se propõe a pensar na historiografia digital e a reverberação das mudanças que os novas tecnologias têm na sociedade, como por exemplo a avaliação dos sites dedicados a temas históricos. Como fazê-lo?

Segue texto na íntegra, inclusive as notas bibliográficas, muito ricas.

Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet1

Fonte: Laboratório de Estudos do Tempo Presente

Ao longo das últimas décadas, a difusão massiva de computadores pessoais impôs aos profissionais de história o convívio com as pesquisas em rede ou a utilização de softwares para criação de banco de dados on-line, seja de imagens ou de estatísticas. Novas questões foram postas ao nosso ofício, destacando-se qual o papel das novas mídias tecnológicas nas mudanças da natureza da prática histórica, bem como sua repercussão no processo de ensino-aprendizagem em História.

Para início de conversa, as revoluções científicas, com suas vertiginosas descobertas, e os meios de comunicação com sua avalanche de acontecimentos cotidianos trouxeram uma nova percepção do tempo presente, provocando, ao mesmo tempo, uma aproximação da experiência do presente com o cidadão comum. Deste modo, a velocidade passou a redefinir o cenário cultural desde o final dos anos oitenta, transformando o sentido do tempo, marcado pelo instantâneo, o imediato, o encurtamento da espera. Essa aceleração também afeta a memória e a lembrança, tornando a memória em tema social, em que se busca a recuperação das memórias culturais, da construção de identidades perdidas ou imaginadas, da narração de versões e leituras do passado. Assim, o “presente, ameaçado pelo desgaste da aceleração, converte-se, enquanto transcorre, em matéria da memória” (SARLO, 2005: 95-96).

Como assinala Beatriz Sarlo, em tempos marcadamente contraditórios, “trabalha-se para que as coisas e as imagens envelheçam e, ao mesmo tempo, para conservá-las como signos de identidade em um mundo unificado pela Internet e pelos satélites”, no qual “as culturas definem cada vez com mais força aquilo que as diferencia, remetendo a passados tão construídos como as imagens do nosso presente” (SARLO, 2005: 96).O protagonismo da mídia na sociedade contemporânea é destacado por diversos autores, dentre os quais destacamos Muniz Sodré, que afirma que “a mídia torna-se progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido, modificando a ontologia tradicional dos fatos sociais”. Para ele, é a mídia (jornais, rádio, televisão, TV a cabo, Internet etc.) um dos principais espaços de produção histórica, introduzindo novas práticas de linguagem, novos ambientes culturais, novas relações de poder e parindo uma nova concepção de história (SODRÉ, 1996: 27-28).

Dentre esses espaços de produção histórica, o espaço cibernético é um fenômeno tão significativo para o homem contemporâneo que “suas manifestações culturais peculiares constituem-se em um novo e importante objeto de investigação acadêmica” (SILVA, 2007). Manuel Castells chega a afirmar que a “Internet é o tecido de nossas vidas”. Seu ponto de partida de reflexão é que a sociedade em geral transforma a tecnologia, apropriando-a, modificando-a, experimentando-a. Assim, essa tecnologia de comunicação explicita tendências contraditórias presentes no mundo atual, especialmente no que se refere à questão da memória (CASTELLS, 2003).

A aproximação entre a cibercultura, entendida como “um conjunto de técnicas (material e intelectual), de práticas, atitudes, pensamento e valores que definem o ciberespaço” (LEVY, 1999: p. 17), com a História pode ser percebida, de um lado, na multiplicação de sites que estão relacionados à produção de memórias sociais, ao mesmo tempo em se vive um vertiginoso crescimento do interesse pelo passado em um cotidiano individual marcado pelo registro em imagens (fotos e vídeos) e textos (blogs e páginas pessoais na internet) (DANTAS, 2005).

De outro, na forma que a própria noção de memória adquiriu, nos sistemas de comunicação e de informação, um sentido determinante. Como afirmou Jeudy, a “memória é operacional, participando tanto da estocagem da informação quanto de seu tratamento”, o que implica que essa “função lógica das memórias eletrônicas não deixa de incidir sobre a metáfora da memória. E a ordem reticular é também uma ordem de gestão de todas essas memórias eletrônicas que permitem seu funcionamento” (JEUDY, 1990: p. 88).

Não podemos esquecer também que as novas tecnologias podem viabilizar o sonho da existência de uma grande memória virtual que, à semelhança da utópica Enciclopédia, possa reter todos os conhecimentos e informações produzidas pelo espírito humano em todas as épocas. Contudo, há certa contradição entre a idéia de memórias coletivas e a via tecnológica, em que elas podem ser repertoriadas e geradas, na medida em que se “os novos patrimônios são o próprio objeto dos sistemas de informações, como conseguirão manter seu aspecto vivo?” (JEUDY, 1990: p. 89).

Para Carlos Fajardo, na “tecnovirtualização” da história explicita-se, com a desterritorialização, uma série de contradições, inclusive “construindo memórias, imaginários e sensibilidades massivas no público comprador e consumidor de produtos simbólicos e materiais”. Ao invadir lentamente a vida particular e coletiva de todos os continentes, a Internet, paralelamente aos meios transnacionais econômico-culturais, “está ajudando a construir uma memória coletiva mundial, que desterritorializa não só os processos autônomos nacionais e regionais, mas também a maioria de categorias que se gestaram na modernidade triunfante e na modernização industrial crescente”. Portanto, a cibercultura é trans-histórica e se determina desde o virtual. Ao mesmo tempo, o pensador colombiano afirma que a Internet também tem edificado uma memória que privilegia o presente ao submergir o futuro e o passado no aqui e agora. Neste sentido, os cibernautas estão em via de projetar outra concepção de memória que contradiz a tão exaltada e necessitada “memória histórica” da modernidade, fazendo surgir uma “história da imediatez” (FAJARDO, 2001).

Interessa observar que muitos historiadores não têm levado em consideração essa fonte nova, a Internet, especialmente no que se refere aos aspectos teóricos e práticos da forma como a história é representada no formato digital. Apesar de termos mais perguntas que respostas, a luta pela incorporação das possibilidades das novas tecnologias à prática do historiador levanta novas questões sobre os objetivos básicos e métodos do nosso ofício.

Um problema que ilustra a fragilidade da evidência na era digital é o apagamento de arquivos e sites da Internet. Assim, a simultânea fragilidade e a heterogeneidade dos dados digitais precisam também de uma reconsideração quanto à responsabilidade pela preservação do passado e como podemos encontrar e definir a evidência histórica. Vale ressaltar que, diferentemente da era do papel, a preservação dos itens digitais é relativamente cara.

Como a Internet tem se expandido dramaticamente, ao lado da rápida acumulação de dados digitais, o que se percebe com o trabalho do historiador atual é a passagem de uma cultura da escassez para uma cultura da abundância. Apesar dos arquivos da Internet ser quase infinitos e se não é possível preservar tudo, ao menos é urgente preservar algo, na medida em que algumas páginas são apagadas seja por questões econômicas, seja por razões técnicas ou ambas. Como o investimento das instituições públicas de pesquisa e guarda documental não tem contemplado, suficientemente, essa nova fonte histórica, há o perigo de, no futuro próximo, termos uma atitude deliberada de privatização deste patrimônio, colocando em cheque o futuro do passado, na medida em que tais iniciativas têm se restringido a empresas privadas que disponibilizam o acesso a documentos on-line (artigos, livros, ensaios, dissertações e teses), como é o caso do Google Scholar. Então, contra a privatização destas fontes históricas, é importante realçar que o vigoroso domínio público torna-se um pré-requisito básico para a pesquisa histórica (ROSENZWEIG, 2003).

Ora, muitos que escrevem ou ensinam história têm ficado intrigados ou mesmo excitados com a proliferação de sites relativos a acontecimentos históricos que se materializam no espaço volátil da Internet. Como a memória tem sido condicionada pelas novas tecnologias, talvez seja necessário pensarmos sobre a possível desvinculação de memórias estabelecidas como marcos formadores de identidades culturais. Concomitantemente, a noção de memória no processo de globalização efetua uma reafirmação das identidades culturais locais, como um movimento que busca a estabilidade e o equilíbrio de um passado comum, desfeito pelo fenômeno das diluições das distâncias e dos tempos.

Ao produzir sítios dedicados a temas históricos, a Internet nos coloca um problema de grande envergadura, pois a maioria de nossos alunos tem utilizado o recurso da Internet do que a biblioteca em nossas universidades: como avaliar esses sites?

Kelly Schrum (2003) indica que o primeiro passo é identificar o autor ou criador do site, onde estão hospedados e qual é o seu domínio (.edu, .org, .com, .gov, . net). Geralmente, essas informações estão disponíveis, caso não estejam contate por email ou consulte os créditos da página consultada.

Outro passo é localizar sites confiáveis na Internet. A produção de uma história “séria” na WEB deve seguir os seguintes pressupostos: originalidade e responsabilidade no trato das fontes primárias e, ao mesmo tempo, sua argumentação ou conjunto de argumentos são escritos de modo claro e objetivo (SMITH, 2005).

Essas ferramentas, por si, não são suficientes para avaliar os sites, mas possibilitam uma importante oportunidade para a aprendizagem, na medida em que, em meio à pluralidade de fontes primárias, os estudantes podem compreender o passado de modo mais sofisticado e nuançado (SCHRUM, 2003).

Um exemplo brasileiro de produção de uma história “séria” é o site do Centro de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (www.cpdoc.fgv.br). A consulta ao rico acervo deste centro de pesquisa e documentação, composto de manuscritos, impressos, fotos, discos e fitas, é feita através do ACESSUS, que é uma base de dados rápida e eficiente, composta de mais de um milhão de documentos referenciados de um universo total de um milhão e oitocentos mil. Para se ter acesso à base de dados o usuário precisa se cadastrar, gratuitamente, no portal do CPDOC.

A partir dessa ferramenta, é possível acessar cerca de 600 entrevistas de seus projetos de pesquisa desde a década de 1970, nem todas estão disponíveis para download, destacando-se os seguintes projetos: Propaganda Brasileira, 1964 e o Regime Militar, A atividade de seguros no Brasil, As faces do mago da economia: atuação e legado de Mário Henrique Simonsen, História das Comunicações no Brasil, História Política da Paraíba, Memória da Assistência Social no Brasil, Memória do Banco Central do Brasil, Memória da Petrobrás, Memória do setor de energia elétrica, Núcleo de memória política carioca e fluminense, Pioneiros e construtores da Companhia Siderúrgica Nacional, A política externa brasileira em transição e a Trajetória e desempenho das elites políticas brasileiras.

Além disso, estão disponíveis para download livros esgotados, artigos do seu quadro de pesquisadores, a maioria dos números da excelente revista Estudos Históricos (1988/1-2006/1) e seleção de verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Existem ainda os informativos eletrônicos na área de Ciências Humanas (arquivologia, ciências sociais, história e o Newsletter CPDOC), em que se relatam seleções para programas de pós-graduação em todo o Brasil, encontros científicos, chamadas de artigos para revistas nacionais e internacionais e lançamentos de livros.

Sua proposta de democratização do acesso às fontes históricas do Brasil Contemporâneo também é feita por meio de módulos temáticos da seção Navegando na história (Era Vargas, Os Anos JK, João Goulart e Fatos e Imagens), em que documentos, imagens e artigos encontram-se disponíveis para estudantes e pesquisadores.

Mas como utilizar os recursos eletrônicos em sala de aula?

A partir de sua experiência docente, William H. Mulligan Jr. (2001) lembra-nos das listas de discussão e da troca de informações entre endereços eletrônicos (e-mail) como forma de estimular os estudantes a entrar em contato com a discussão acadêmica profissional. Para ele, uma atividade interessante foi convidar os estudantes a participar de diferentes listas de discussão, pois isto mostra a diversidade de tipos de questões e perguntas existentes entre os profissionais em História e também a natureza do discurso profissional. Ao mesmo tempo, o acesso às listas de discussão proporciona aos historiadores vinculados a pequenas universidades localizadas em regiões periféricas a inteirar-se dos principais temas dos congressos internacionais e nacionais, através de sites de entidades profissionais.

Aproveitando a sugestão deste historiador norte-americano, gostaria de destacar uma experiência interessante no universo da historiografia digital: a rede Historia a Debate, liderada por Carlos Barros e sediada na Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). Sua proposta é manter um fórum permanente de debate sobre a metodologia, a historiografia e a teoria da história; sobre a prática renovada da investigação e da divulgação histórica; sobre a docência da história em todos os níveis; sobre problemas acadêmicos e profissionais dos historiadores e enfatizar o compromisso do historiador com a sociedade, a política e a cultura do nosso tempo.

Criada em 1993, essa rede já realizou três congressos internacionais (1993, 1999 e 2004) e logo depois do seu II Congresso em 1999 criou um Grupo para redação de um Manifesto Historia a Debate para explicitar suas posições sobre a escrita da história e o ofício do historiador. Disponibilizado em 2001, o manifesto se insurge contra a fragmentação de temas, métodos e escolas dos anos 1990 no campo historiográfico, propondo “novas formas de globalidade que façam convergir na investigação histórica diferentes espaços, gêneros e níveis de análise”. Uma de suas teses mais instigantes reside na percepção de que as comunidades transnacionais de historiadores, organizadas na Internet, têm desempenhado papel importante na formação de novos consensos a partir de uma historiografia latina crítica e de uma historiografia pós-colonial. Neste sentido, a “Internet é uma poderosa ferramenta contra a fragmentação do saber histórico se for utilizada com sua identidades e possibilidades, isto é, como uma forma interativa de transmitir informação instantânea de maneira horizontal a várias partes do mundo”. Para a rede Historia a Debate, a “generalização da Internet no mundo universitário, e no conjunto da sociedade, assim como a educação informatizada dos jovens, tornará esta nova historiografia um fator relevante da inacabada transição paradigmática entre o século XX e o XXI” (www.h-debate.com).

Como a aceleração da história substituiu o debate sobre o “fim da história”, essa rede mantém duas listas de discussão: H-Debate (1220 assinantes de 45 países) e História Imediata (283 assinantes de 24 países).  Merece destaque alguns temas presentes nesta última lista pelo intenso debate travado pela comunidade de assinantes, como “É possível uma história imediata?”, Hugo Chávez, Chiapas e a escrita da história e sujeito social.

Sobre esta temática pouco trabalhada no Brasil existe o Laboratório de Estudos do Tempo Presente (www.tempopresente.org.br) da Universidade do Brasil (UFRJ), liderada pelo professor Francisco Carlos Teixeira da Silva. Na tentativa de divulgar a produção científica dos professores, alunos e pesquisadores associados se optou pela construção de um site, em que se disponibiliza artigos, resenhas e relatórios produzidos pela equipe TEMPO e convidados, um banco de notícias formado por seleções que variam de acordo com as principais temáticas fundadoras das linhas de pesquisa em curso e dados sobre o acervo do Laboratório, seus participantes e linhas de pesquisa. Das linhas de pesquisa em curso, destaca-se a criação, em 2004, do Grupo de Análise e Acompanhamento do Terrorismo Internacional (GAATI), além dos recém-instituídos grupos: PRO SUL, ProAfrica e Movimentos Sociais, Nova Ordem Mundial, Fluxos Internacionais e História do Esporte, que balizam as discussões presentes em sua lista de discussão (http://listas.nce.ufrj.br/mailman/listinfo/tempopresente), proporcionando ágil alternativa de circulação de informações de seminários, congressos e sinopses de jornais.

Dentro de seu site, podemos destacar a Revista Eletrônica Boletim do Tempo (ISSN 1981-3384), além da seção Multimídia, que disponibiliza, além de entrevistas dos seus pesquisadores, reportagens veiculadas por televisões sobre temas como Hezbollah, Hugo Chávez e 11 de setembro de 2001.

Concluindo, sobre a vasta possibilidade de atuação do profissional de história neste admirável mundo novo da cibercultura, o que posso sugerir é que os currículos de história incorporem essas novas fontes da história do tempo presente, dentre as quais a internet, pois não basta formar historiadores apenas lendo livros. É necessário que os professores de história forneçam ferramentas teórico-metodológicas para que a formação intelectual dos estudantes esteja de acordo com o tempo em que vivemos.

Contudo, compartilhamos das idéias presentes no Manifesto Historia a Debate sobre a historiografia digital, quando propõe que este novo paradigma da comunicação social, que é a Internet, não vai substituir as atividades presenciais e as instituições seculares, na medida em que a historiografia digital deve ser complementada com livros e outras formas convencionais de investigação, difusão e intercâmbio acadêmicos.

Notas
1  Versão revista de conferência pronunciada no 1º Encontro Estadual de Professores de História: Ensino, Pesquisa e Novas Abordagens. Faculdade São Luís de França, Aracaju/SE: 24 de fevereiro de 2008.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

DANTAS, Camila G. O Passado em bits: Questões sobre a reelaboração da memória social na Internet. In: Anais do VI CINFORM (Encontro Nacional de Ciência da Informação). Salvador – Bahia, 2005. Capturado no endereço eletrônico: http://www.cinform.ufba.br/vi_anais/docs/CamilaDantas.pdf em 1 de fevereiro de 2006.

FAJARDO, Carlos Fajardo. Cibercultura y tecnovirtualización de la historia. In: Especulo. Revista de estudios literários. Madrid: Universidad Complutense de Madri, 2001. Capturado no endereço eletrônico: http://www.ucm.es/info/especulo/numero18/cibercul.html em 19/01/2006.

JEUDY, Henri-Pierre. Memórias do Social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.

MULLINGAN JR., William H. Electronic Resources and the Education of History Professionals. In: The History Teacher. Vol. 34, Issue 4, August 2001, p. 523-529. Consultado em 8 de fevereiro de 2008 na http://www.historycooperative.org/journals/ht/34.4/mullingan.html.

ROSENZWEIG, Roy. Scarcity or Abundance? Preserving the Past in a Digital Era. In: American Historical Review 108, 3 (June 2003): 735-762. Capturado em março de 2005 no endereço eletrônico: http://chnm.gmu.edu/resources/essays/essay.php?id=6.

SARLO, Beatriz. Tempo Presente: Notas sobre a mudança de uma cultura. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2005.

SCHRUM, Kelly. Making History on the Web Matter in Your Classroom. In: The History Teacher. Vol. 34, Issue 4, may 2001, p. 327-338. Consultado em 8 de fevereiro de 2008 na http://www.historycooperative.org/journals/ht/34.3/schrum.html

SCHRUM, Kelly. Surfing for the Past: How to Separate the Good from the Bad. In: AHA Perspectives (May 2003). Consultado em 8 de fevereiro na http://chnm.gmu.edu/resources/essays/d/7.

SILVA, Marcos. ESPAÇO CIBERNÉTICO, CIBERCULTURA E PESQUISA ACADÊMICA. São Cristóvão: Departamento de História/Universidade Federal de Sergipe, 2007 (texto digitado).

SMITH, Carl. Can You Do Serious History on the Web? In: AHA Perspectives (February 1998). Capturado em março de 2005 no endereço eletrônico: http://chnm.gmu.edu/resources/essays/essay.php?id=12.

SODRÉ, Muniz. Reinventando a Cultura: a comunicação e seus produtos. Petrópolis: Vozes, 1996.

SÁ, A. F. DE A. Admirável campo novo: o profissional de história e a Internet. Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 3, n. 07, Rio, 2008. [ISSN 1981-3384]


Digital History News – Feeds

Meu primeiro dia no Twitter.

Buscando alguns assuntos para seguir aleatoriamente achei este perfil do Digital History feeds. Muito legal! Seguindo este perfil é possível seguir as principais notícias do mundo da historiografia digital diariamente (pena, somente em inglês). Vale a pena conferir o site da idéia, aqui! Uma fonte importante de notícias atuais e de corte bem demarcado sobre o tema.

Super útil!

The Virtual Library History Project e The WWW-VL History of Brazil

Nao sei se voces conhecem o grande Index do Virtual Library History Project, o WWW-VL History Central Catalogue. Eu até pouco tempo, admito, que nao conhecia. Mas por conta da minha pesquisa (Digital History, Historia e Social Medias, enfim, tudo o que trata o Historiografia na Rede) estive em contato com um professor que é grande entendedor do assunto, prof. Serge Noiret, que ao final da nossa conversa me apresentou o projeto. [Alias, sobre a minha visita ao “ufficio” deste professor devo relatar quao grande foi o meu encanto ao me dirigir para o Instituto Universitario Europeu, onde ele fica: o lugar é lindo! Tem uma paisagem esplendida de Firenze e fica a poucos minutos do centro, porém bem em meio ao verde na Badia Fiesolana. Deve ser bem bom trabalhar ali!] Voltando: entao me foi apresentado este programa, que existe desde 1993 e acabei depois me comprometendo em fazer o index do Brasil, o jovem jovem WWW-VL History of Brazil

O portal central deste projeto é uma grande pagina com redirecionamento para portais individuais destinados a apresentar e manter atualizado um catalogo de sites de referencias sobre um pais (Historia, Biografia, Principais canais de pesquisa, etc) ou um tema em geral (Trabalho, Mulher, Historia). A qualidade do portal o transformou neste tempo em uma grande referencia, ao buscar pela historia de um pais (ex. “Italian History) no Google certamente voce se defrontarà com um link para a pagina do programa bem ao topo. Respeitavel e reconhecido, o Virtual Library Project é coordenado pelo Prof. Serge Noiret e mantido com a participaçao e colaboraçao de uma grande comunidade de “manteiners”, pessoas que desenvolvem e mantem um destes sites-catalogos. E’ um exemplo que o trabalho em conjunto na rede da (muito) certo e rende bons frutos.

Este ano o portal sera renovado com o objetivo se selecionar e manter os melhores portais agregados. O meu “piccolo” Index da Historia do Brasil ainda tme muito o que crescer e ser melhorado. Quero acrescentar ainda muitos links de referencia e penso em propor uma troca de links. A intençao destas paginas é ajudar nao so quem busca informaçoes de um pais para fins de viagens e turismo, como para estudo. O enfoque maior, claro, é em Historia.

Confesso que achei que seria mais facil fazer um levantamento de sites sobre Historia do Brasil, mas me deparei e me deparo todo santo dia com uma quantidade enorme de sites com conteudo nao muito confiavel e os linksmais cotados do googleas muitas das vezes nao significam que sejam de qualidade. E’ dificil achar uma produçao academica e também se sentir tranquilo de confiar na seriedade de alguns sites. Estou apenas acenando para um problema que na internet nos deparamos frequentemente, qual seja, esta enorme dificuldade em distinguir os sites realmente produzidos por historiadores e/ou estudantes e/ou intelectuais de outras areas,mas com comprometimento ético e academico, dos sites produzidos pelos escritores “comuns”, pelos amadores. Como fazer? Sobre este problema me falou bastante o prof. Stefano Vitali (do Arquivo de Estado de Firenze), um homem que tem muito presente esta problematica e tem se dedicado bastante aquestoes como a do Web 2.0 relacionado às humanidades, segundo ele é, este é apenas um dos agravantes (por exemplo) no caso das, muitas das vezes, incriteriosas pesquisas que nossos estudantes de Ensino Fundamental e Medio ou um internauta desavisado pode acabar fazendo e sendo erroneamente informado por este tipo de sites que se propoem a falar de Historia sem um compromisso com a ciencia.

Quem quiser torcar link com o WWW-VL History of Brazil basta me mandar um e-mail.

Visitem, critiquem, sugiram!