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Dica do amigo Vinícius Portella.

Compartilho a matéria:

Muniz Sodré

Especialista em comunicação pensa que a mídia se constitui como esfera existencial regida pela economia monetária

Gonçalo Junior – Edição Impressa – Revolução Genômica

Pesquisa FAPESP – julho 2008

As formas de se comunicar sofreram, nas duas últimas décadas, uma revolução intensa e transformadora e seu impacto na vida das pessoas pode ser até maior do que o acontecido ao longo do século XX, período em que foram difundidas novas formas de comunicação de massa como telefone, cinema, rádio, histórias em quadrinhos e TV. É a era digital, cuja impressionante velocidade e difusão de informação e conhecimento parece confundir a cabeça daqueles que estudam a comunicação. Aos poucos, no entanto, desenvolveram-se estudos, teses e teorias que tentam explicar o que está se passando. “Estamos num período realmente de rompimento, de pensar reflexivamente a comunicação, mas um belo momento dos estudos dessa área no Brasil”, avalia Muniz Sodré, um dos grandes pensadores contemporâneos da comunicação no Brasil, presidente da Biblioteca Nacional e professor titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A mídia se constitui, explica, numa nova forma de vida, um novo bios. “E, como esfera existencial, ela é inteiramente regida pela economia monetária”, afirma. Sodré falou sobre isso e outros temas da vida virtual que emerge das relações que os meios de comunicação estabelecem no espaço social na palestra organizada pela revista Pesquisa Fapesp para a exposição Revolução genômica, em São Paulo. Nos últimos anos, sua preocupação maior tem sido estabelecer a mídia não como transmissor de informação, mas como ambiência, uma forma de vida, segundo suas próprias palavras. “Mídia como o que Aristóteles chama de bios, isto é, a cidade investida politicamente. É a sociabilidade dapolis. Não é carne o que chamamos de biológico hoje”, acrescenta. Aristóteles falava de três bios: do conhecimento, do prazer e da política. “Eu descrevo a mídia como o quarto bios, que é o midiático, virtual, da vida como espectro, da vida como quase presença das coisas. É real, tudo que se passa ali é real, mas não da mesma ordem da realidade das coisas.”

Em Antropológica do espelho (Vozes, 2002), Sodré detalha esse estudo. O pesquisador observa que a informação, hoje, é espectro, representação, fantasma, palavra e discurso, o que faz da realidade da mídia algo essencialmente discursivo. “Entramos em um momento da história em que a esfera civilizacional que circunda o homem é espectral. Não é substancial, de toque. É feita do impalpável, de ausência/presença de luz, seja circuito fechado/circuito aberto, seja o pingo no papel, a imagem no cinema ou na fotografia.” Tudo é cada vez menos substancial e mais visual – cabeça e olho. “Ora, essa realidade, para mim, é outra forma de vida, é um outro bios. Se entendemos a mídia como ambiência, environment, um mundo em que cerca esse mundo, mudamos inteiramente o foco da análise.”

Segundo ele, todas as concepções antigas de jornalismo e da mídia como transmissão de informação – para educar, instruir – não têm mais sentido e não mais definem mídia no meio de comunicação. “É preciso, inicialmente, considerar que, mesmo pertencendo a um bios específico, a TV não é um ator social isolado, está sempre inserida em contextualizações de ordem socio-histórica.” Colocada dentro de uma tradição sociocultural patrimonialista como a brasileira, a televisão, apesar do transnacionalismo de sua forma, produz efeitos específicos e regionais. Enfim, no bios virtual, o objeto predomina sobre o sujeito.

A transformação de um objeto em imagem, enquanto isso, implica a negação de dimensões materiais – relevo, peso, cheiro etc. Mas também isso é o que interessa como estudo – o tempo e o sentido, que reduzem a duas, as três dimensões do Universo. Sodré refere-se a Baudrillard, que falava do preço da “desencarnação” que a imagem ganha com essa potência de fascinação e se torna medium – que ele chama da “objetualidade pura”. Para o francês, a imagem se tornaria transparente a uma forma de sedução mais sutil do que essa sedução da forma. “Ora, a mídia hoje não se define como um puro dispositivo técnico, embora o suporte técnico seja necessário. Não é também uma forma fechada em torno de uma gramática expressiva. É um conceito maior do que a definição de televisão, rádio, jornal, internet.”

O medium seria propriamente o conceito dessas formas e também do desdobramento tecnológico da cidade humana. Significa que a mídia é uma espécie de prótese odontológica para o controle das relações sociais e o controle das novas subjetividades por tecnologias informacionais. É preciso ressaltar, prossegue, que a manifestação mais evidente da virtualidade é o bios midiático, dentro do conceito aristotélico de bios como a esfera existencial da vida ético-social, distinta da natural – a vida crua em que se insere a revolução genômica e onde se mapeia o genoma. “É uma intervenção da tecnologia e no limite controle da vida nua e da vida crua. Ao lado dos bios tradicionais emerge essa nova forma de vida, dos fluxos digitalizados e redes artificiais definindo por uma materialidade leve ou mesmo pela imaterialidade dos circuitos eletrônicos.”

(…)

Continua no link. São três páginas!



O tema da “historiografia” ganhou mais um espaço na rede!!!

Começamos esta semana uma coluna na Revista Médio Paraíba, que aborda temas acadêmicos e multidisciplinares.

Abaixo segue o editorial desta edição, por Renato Barozzi:

logomarcaMedioParaibaHistoriografianaRede

Temos duas boas notícias: a primeira é que chegamos à terceira edição de nossa Revista Acadêmica. A segunda boa notícia é que já possuímos conteúdo a ser analisado para uma quarta e, quiçá, uma quinta edição. Realmente estamos muito felizes com o desenvolvimento deste projeto.

Algumas coisas precisam ainda de ajustes, nos falta tempo para uma dedicação intensa, mas, apesar dos sobressaltos, nada irá sobrestar o aprimoramento, o aperfeiçoamento e amadurecimento de nossa revista.

>> Confira aqui  o sumário da Edição no. 3.
>> Confira as edições anteriores

A presente edição deixa claro o estado de espírito com que encaramos nossas dificuldades. Nela expusemos, como artistas da palavra, a diversidade e a flexibilidade com que agimos para experimentar conteúdos e formas. Neste momento, lembro-me de uma passagem do livro “Contraponto” de Huxley que reflete bem o que sinto: “Lorde Edward e seu irmão estavam tomando ar no parque de Gattenden. Lorde Edward tomava-o caminhando. O quinto marquês tomava-o numa cadeira de rodas puxada por um burro cinzento. Era inválido. ‘o que, por felicidade, não impede o meu espírito de correr’, gostava de dizer Lorde Gattenden.”
Não somos inválidos e já provamos isto, caminhamos. Entretanto, as circunstâncias tentam invalidar nossos esforços. Por mais que somos alvejados pelas adversidades, nossos espíritos não soçobram. Temos o apoio de vocês leitores, temos a sofisticada participação dos autores e colaboradores e temos ainda, a alma cheia da necessidade de realizar.

Por falar em realizar, entre as novidades desta terceira edição temos: um texto sobre a formação do Funcionalismo Público no Brasil, que ressalta a característica estamental da sociedade portuguesa e o modelo patriarcal da família. Outro que explora a atividade de “julgar”, sobretudo diante da tarefa de cuidar do mundo, calcado nas constatações da teórica Hannah Arendt.
Entre outros, temos ainda um artigo que expõe a medicina no Brasil no período colonial e um ensaio cujo titulo é: “Sorria, você está sendo filmado!” – Câmeras, muralhas e outros símbolos: a modelação na paisagem carioca pelo medo da violência urbana. Bastante pertinente em sua função de registrar o momento “cívico” em que vivemos.

No mais, caminharemos. A Revista Médio Paraíba não é estática. Ela está num ambiente difuso. E difuso também são nossos interesses. Temos por fontes de inspiração revistas acadêmicas ligadas a universidades, mas também bebemos no manancial de Serrote, Dicta e Contradicta e Inteligência e Insight. “Mundo, mundo, vasto mundo.”

Aproveitem esta profusão de idéias e deixem-se levar pelo roldão. O mundo da arte, da literatura e da ciência possui seu próprio reino e convidamos todos vocês a entrarmos nele de mãos dadas.

Boa leitura!

Nossa contribuição, nesta terceira edição da Médio Paraíba, foi justamente falando da moderna concepção de História segundo Hannah Arendt. Nos vemos ou aqui! Até breve!

De Cuba, com carinho é este o nome do livro de Yoani Sánchez, do blog Generación Y, que será publicado em outubro aqui no Brasil pela Editora Contexto. Tem-se notícias de que as pré-vendas começarão até o final desta semana.

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No último dia 21, o senador Eduardo Suplicy (PT) defendeu em seu discurso no plenário o fim do embargo a Cuba e a vinda da escritora ao Brasil.

A movimentação dos políticos brasileiros em torno desta questão reflete quão relevante é a atividade que escritora desempenha em seu blog e é uma clara demonstração de que o espaço público virtual pode sim transcender as barreiras da web e fazer ecos (e mais que isso) na nossa vida real.

Vou acompanhar este processo de “liberação ou não liberação” do visto para a escritora, espero que desta vez ela consiga a tão esperada “permissão” para viajar e venha nos prestigiar com algumas palavras sobre o cotidiano da tão maravilhosa Cuba, para uns, e tão repressora, para outros.

Yoani também tem seus posts publicados em Português no site do Instituto Millenium. Recomendo “Bluetooth: dizer sem palavras”, onde ela revela por que a tecnologia bluetooth se tornou o pesadelo dos censores em Cuba. Graças ao bluetooth é possível ter acesso/repassar a materiais que normalmente seriam censurados pelo governo sob o rótulo de “propaganda inimiga”.

Me pergunto que tipo de historiadores estão pensando esta questão hoje. Quem? Faço referência ao uso da novas tecnologias de comunicação e informação.  Seria um belo case para aqueles amantes da Historiografia Digital.  (eu estou de olho).

Uma obs: Jaime Pinsky diretor da Editora Contexto é historiador. Sem dúvida esta questão não lhe passou em branco.

Que venha o livro!!!

Dica de leitura: Internet e história do tempo presente: estratégias de mémória e mitologias políticas*, por Denis Rolland**

A história tem uma vocação política ou, diríamos hoje, cívica. Mas todos os autores estão conscientes disto? Percebem eles, na sua justa medida, as questões envolvidas em sua publicação, sobretudo quando virtual – e, pois, doravante, freqüentemente sem filtro exterior, editorial, ideológico, econômico? A “socialização” está, além disto, inteiramente descontrolada, “selvagem”, sem a mediação da compra, do empréstimo ou da reprodução do livro ou da revista…

As instituições têm uma memória, e uma memória que tem uma relação muito variável com a história do tempo presente.

Há uma fonte nova, ainda pouco estudada, em rapidíssima expansão, totalmente inscrita no tempo presente e que deu ensejo a muito poucos exames críticos: a internet. Ora, a internet propõe história, apresentada com ou sem entusiasmo, com escalas históricas muito variadas, tempo longo ou muito curto: uma história que assume freqüentemente a forma de narrativas, recuperadas a partir de fontes – próximas ou longínquas – de reelaborações ou reconstruções mais ou menos coerentes… Mas esta história de costuras invisíveis, amiúde (embora nem sempre) desajeitada ou sumária, quando se trata de sites elaborados por particulares, é, de bom grado, quando se trata de sites mais oficiais, repleta de dissimulações, de amnésia – construtiva ou de mal-estar: história, compreende-se, de quantidade e qualidade muito variáveis.

O problema é que o espírito crítico do leitor não está, atualmente, à falta de limites conhecidos (geralmente, a única classificação disponível na rede é a da freqüência), em condições de funcionar para a internet da mesma maneira que para um livro ou uma revista: lendo-se, no Brasil ou na França, uma revista de grande divulgação, como História1, o leitor informado sabe que não lê uma revista científica como Tempo, no Brasil, ou Annales, Genèse ou Matériaux pour l’histoire de notre temps, na França. A internet apresenta um discurso muito indiferenciado e cujo nível de credibilidade científica é, muitas vezes, desconhecido. Assim, a extraordinária transparência da “tela” mascara, com freqüência, a opacidade de suas origens e o anonimato de seus criadores ou autores. Pois o escrito “virtual”, raramente assinado, oferece, amiúde, para os consumidores, sem que o internauta o saiba, uma história sem historiador. Ao contrário da produção impressa, para a qual se dispõe de instrumentos de discriminação (bibliografias, resenhas críticas, reputação científica…), para a “rede” não existem hoje senão muito poucos meios para avaliar a qualidade do que nela se oferece; e as “sitegrafias” não são numerosas nem muito confiáveis. Há, além disto, um agravante: a virtualidade da informação conduz facilmente a uma falta de distanciamento; em função de uma relação mais distante com fontes mais diversificadas, a informação que chega às telas é julgada e utilizada a priori por estudantes e jovens pesquisadores com menos filtros críticos ainda do que a informação impressa. De certo modo, a magia da acessibilidade de dados distantes, somada à juventude do meio de informação, prejudica em parte o olhar potencialmente crítico.

Tratar-se-á neste trabalho de um exemplo particularmente elucidativo da imensa variedade qualitativa desta cacofonia informativa, concebida com parâmetros e objetivos muito diversos, mas raramente anódinos: a relação com a história das instituições do Estado. Em todo o planeta, os Ministérios das Relações Exteriores equiparam-se com sites de internet, concebidos ao mesmo tempo como instrumentos práticos e como vitrines. A experiência comprova que serão, doravante, utilizados com maior freqüência como fonte de informação e documentação por estudantes e amantes de história ou relações internacionais. Estruturas de Estado, inscritas no longo prazo, por definição muito visíveis desde o exterior e conscientes do papel que desempenham na difusão de uma imagem nacional, estes ministérios, atores, entre outros, no âmbito das relações internacionais, têm uma forte ligação com a história do país, por via da história das relações diplomáticas (por muito tempo confundida com a história das relações internacionais).

Nem todos os Estados possuem sites ministeriais: muitos Ministérios de Relações Exteriores de países pouco desenvolvidos não os têm, muitas vezes por razões de pobreza, como a maior parte dos países africanos e o Paraguai; no caso de Cuba, a explicação para esta ausência é, sem dúvida alguma, mais complexa. Contudo, para se “navegar” pelos sites existentes dos ministérios encarregados das relações internacionais, impõe-se uma constatação: nos países desenvolvidos ou em vias de industrialização, a relação com a história, quando existe, não é vinculada à estrutura ministerial; parece bem mais ligada à vontade de seus responsáveis nacionais de mostrar ou não, total ou parcialmente, a história nacional. A construção de um site na internet é, geralmente, o resultado de uma agenda de tarefas bem definidas: então, a decisão de recorrer ou não à história parece ter sentido; ela tem a ver, notadamente, com uma representação que os governantes dos países desejam oferecer de si mesmos, numa certa concepção ou escala da potência nacional.

* Este trabalho é o resultado de pesquisas na internet, realizadas durante o segundo semestre de 2001 e apenas reflete a situação destes sites nesta data.

** Universidade Robert Schuman, IEP Institut Universitaire de France Pesquisador Associado ao CHEVS, FNSP Diretor de Estudos, Institut d’Etudes Politiques, Paris.

>> O texto contínua aqui [PDF disponível].

>> Fonte: Revista Tempo do Departamento de História da UFF.

DInternet e história do tempo
presente: estratégias de mémória e
mitologias políticas *
Denis Rolland**

Um depoimento muito interessante:

Brás Cubas acaba de me dar uma sugestão: “Guarda as tuas cartas da juventude”! Minhas cartas são exclusivamente digitais. Também tenho alguma coisa manuscrita, dentro de uma gaveta cheia de papéis do tempo da faculdade (será que estou ficando velho?). Mas as correspondências são digitais.

Todos os meus e-mails da adolescência a Microsoft incinerou. Fez isto automaticamente por eu me abster de conectar no seu sistema por mais de dois meses. Infelizmente é assim que os documentos são tratados hoje. É como se a minha gaveta, que não abro há uns 3 anos, resolvesse engolir tudo que tenho lá dentro e no momento em que eu a abrisse, deparasse-me com o recado: “Para reativar esta gaveta, aperte o botão abaixo”.

Será que corro o mesmo risco com este blogue? Quem me garante que tudo o que escrevi aqui irá permanecer por aqui? Estou preocupado com isto. Quero ter o prazer de no futuro “ver-[me], ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas-de-sete-léguas e longas barbas assírias, a bailar ao som de uma gaita anacreôntica”. Será que devo imprimir todos os posts, ou será que devo confiar no Google? Guardar numa mídia qualquer é suficiente? Não. Quem sabe como funciona um HD, um CD-R ou uma memória Flash dos fiéis pen drives acaba por não confiar muito neles. O papel será sempre a melhor escolha. A mais incômoda, também.

A decisão que falo no título é sobre os rumos do blogue. Continuarei escrevendo, sim. Talvez com mais regularidade, mas quero que este seja o registro da minha evolução. Falarei mais sobre as experiências que tenho passado. Comentarei mais sobre minhas impressões sobre leituras. Se terei a felicidade de me reencontrar por aqui, isto Deus é quem sabe. Mas farei minha parte.

PS: Depois de um longo tempo sem posts, volto à ativa. O aniversário de um ano do blogue passou em branco, mas ele não morreu! Compromissos do mestrado e, preciso reconhecer, abulia. Mas, enfim, voltei. :)

*direto do Blog SEDIVAGAR

[reproduzindo artigo]

Lançado oficialmente com acesso on-line a cerca de 3 mil documentos, o projeto Brasiliana Digital deverá disponibilizar integralmente o acervo de 40 mil volumes raros doados por José Mindlin à USP

Fábio de Castro escreve para a “Agência Fapesp”:

Foi lançado oficialmente, na última terça-feira (16/6), o projeto Brasiliana Digital, que disponibilizará pela internet, com acesso livre, a coleção de cerca de 40 mil volumes da Biblioteca Guita e José Mindlin, doada à Universidade de São Paulo (USP) em 2006, além de outros acervos da USP.

A versão inicial, que já está funcionando, oferece acesso a 3 mil documentos da coleção reunida por Mindlin ao longo de mais de 80 anos. O lançamento do projeto, realizado em conjunto com uma homenagem ao bibliófilo, ocorreu durante a cerimônia de abertura do seminário Livros, Leituras e Novas Tecnologias, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista.

“Desde que comecei a coleção, já sabia que a biblioteca não podia ser para sempre um patrimônio particular. Estava claro que éramos depositários e formadores desse conjunto, mas sem o viés da propriedade. Como toda minha família tem forte relação com a USP desde a década de 1930, quando entrei no curso de Direito da universidade recém-inaugurada, não tive dúvidas sobre a escolha da instituição para a qual deveria doar esse patrimônio”, disse Mindlin.

A fase piloto de implantação do projeto conta com apoio da Fapesp, por meio da modalidade Auxílio a Pesquisa – Regular. Os recursos fornecidos pela Fundação permitiram a compra de um sistema integrado de digitalização robotizada de livros encadernados.

“O robô foi adquirido em janeiro e neste primeiro semestre parte da nossa equipe foi para os Estados Unidos receber treinamento para operá-lo. Há sete semanas estamos trabalhando com ele. O robô permite digitalizar cerca de 2,4 mil páginas por hora, o que equivale a cerca de 40 livros por dia”, disse Pedro Puntoni, professor do Departamento de História da USP e coordenador da Brasiliana Digital.

A Biblioteca Guita e José Mindlin reúne diversos tipos de livros, folhetos e manuscritos sobre assuntos brasileiros. “O acervo cobre áreas como literatura, prosa e poesia, história, relatos de viagens, crítica literária, ensaios, filologia, dicionários, obras de cronistas, história natural, botânica e zoologia. Nem tudo está em português, mas tudo diz respeito ao Brasil”, explicou Puntoni.

Segundo ele, o projeto permitirá aliar a conservação das obras – muitas delas com vários séculos de existência – e a universalização do acesso a elas. “O governo brasileiro, em suas três esferas, tem investido muito em inclusão digital, que deverá aumentar imensamente a parcela da população brasileira com acesso à internet. A Brasiliana Digital dará acesso a esse acervo riquíssimo, preservando-o ao mesmo tempo”, afirmou.

O historiador explicou que ainda não há previsão do tempo necessário para a digitalização integral do acervo doado por Mindlin. Mas, com a tecnologia de digitalização avançada e um sistema de gestão de informação adequado, a equipe está pronta para ampliar o ritmo do projeto.

“Como o prédio no qual o acervo será instalado ainda não está pronto, não pudemos ainda definir a dinâmica do processo. O robô, apelidado pela equipe de Maria Bonita, é operado por conservadores. Quando lidamos com um livro do século 16, por exemplo, temos que diminuir o ritmo. Estamos ainda aprendendo a lidar com o equipamento”, disse.

O projeto recebeu da Fapesp até o momento cerca de US$ 980 mil, usados para a compra do robô e apoio a 15 bolsistas. Segundo Puntoni, a equipe envolvida com o projeto tem cerca de 30 integrantes, entre pesquisadores, bibliotecários, analistas e programadores.

A base do projeto Brasiliana Digital, segundo Puntoni, é o projeto Brasiliana USP, coordenado por István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. “A Brasiliana USP é um projeto da reitoria da USP que permitirá o acesso para pesquisa e ensino da maior coleção de livros e documentos de e sobre o Brasil custodiada por uma universidade em escala mundial, tornando-a disponível na internet”, explicou Puntoni.

Para abrigar o acervo doado por Mindlin e a nova sede do IEB, a Brasiliana USP está construindo um edifício com cerca de 20 mil metros quadrados no centro da Cidade Universitária, em São Paulo. O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com a assessoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

“O contrato com a construtora prevê o prédio pronto no fim de outubro, incluindo toda a parte estrutural, como ar-condicionado, cadeiras do auditório, elevadores, etc. A partir daí será preciso trabalhar na instalação de equipamentos, sistemas de segurança e no acabamento. Acreditamos que em 2010 o novo prédio estará operacional”, disse Puntoni.

A parte do prédio onde ficará o IEB, no entanto, deverá levar aproximadamente mais dois anos para ser finalizada. “A parte da construção voltada à coleção Mindlin foi privilegiada, para podermos trazer logo o acervo. Precisaremos ainda levantar recursos para a finalização da outra parte”, disse.

Integração digital

Segundo Jancsó, a concepção básica do projeto Brasiliana USP parte da ideia de criar uma estrutura de conservação de uma parcela do patrimônio cultural da nação, que é a Biblioteca Guita e José Mindlin.

“A partir daí, poderemos investir na conservação do extraordinário acervo documental guardado pela USP. A universidade tem, em suas bibliotecas, cerca de 6,5 milhões de livros. Tudo isso hoje está à disposição dos interessados quase que exclusivamente mediante acesso presencial”, disse.

A ideia do projeto, segundo Jancsó, é contribuir para a conservação de todo o acervo da USP por meio da constituição de um centro de formação de restauradores que levará o nome de Guita Mindlin – a esposa de José Mindlin, morta em 2006 aos 89 anos, pioneira nas ações de restauro de livros e documentos no Brasil.

“Por outro lado, é papel da universidade pública fazer com que a visão patrimonial seja superada e fazer com que esse acervo custodiado pela USP possa estar ao alcance, de modo universal e irrestrito, a todos os brasileiros interessados”, afirmou.

De acordo com Jancsó, os acervos do IEB e da Biblioteca Guita e José Mindlin são complementares e, juntos, deverão formar a principal coleção existente de livros e documentos voltados aos estudos brasileiros. “A construção desse prédio no centro da USP resgata a ideia de que essa universidade foi criada para pensar o Brasil”, disse.

Jancsó conta que a USP investiu R$ 15 milhões para a construção do novo prédio e o projeto captou mais R$ 18 milhões junto a fundações e recursos provenientes de mecanismos de renúncia fiscal. Já os recursos da Brasiliana Digital foram integralmente fornecidos pela Fapesp. “Agora, conseguimos autorização para captar mais R$ 11 milhoes pela lei Rouanet, para finalizar a obra. E vamos ter que buscar mais recursos. A obra é do tamanho do projeto”, destacou.

O site Brasiliana USP reúne informações sobre o projeto, sobre a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e Brasiliana Digital, com destaques como o primeiro livro impresso no Brasil (A Relação da Entrada[...], por Antonio Isidoro da Fonseca), cenas da vida urbana de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e o relato do marinheiro Hans Staden (1525-1579), de 1557.

“A edição de 1557 de Marpurg é a verdadeira primeira edição da obra de Hans Staden. Comprei-a encadernada com mais três livros (Varthema, Federman e um romance de cavalaria alemão), numa encadernação de 1558. A biblioteca possui também uma edição pirata de Frankfurt, provavelmente do mesmo ano, que, não dispondo das matrizes da primeira edição, foi ilustrada com gravuras da viagem de Varthema ao Oriente, sem qualquer relação com o Brasil e com os índios”, disse Mindlin.

Brasiliana Digital: http://www.brasiliana.usp.br/bbd
(Agência Fapesp, 18/6)

A modernidade e as novas tecnologias da informação e comunicação (TIC) têm criado novas maneiras de agir e interagir na sociedade, sobre isto não há dúvida. Aqui se discute sobre a forma como estas mudanças afetam a organização do espaço e do tempo do mundo e como os estudiosos das ciências sociais devem se mover ao interno das redesenhadas estruturas sociais, políticas, econônicas e culturais, questões emergem neste cenário saturação de mídias e diferentes redes sociais que é a era digital. O que nos interessa aqui é lançar luz aos problemas relevantes à fluidez dos dados – aparentemente soltos – na teia da web e tentar extrair destas reflexões algumas diretrizes pata uma necessária atualização do ofício do historiador.

Uma das questões centrais aqui é relativa ao estatuto da fonte. O advento da informática e do World Wide Web levou a uma redefinição epistemológica das. Não  muda  somente o suporte  – do tradicional para o digital – mudam também as formas de acessar, manipular e gerenciar as fontes. Surge também um novo tipo de fonte – aquele que já nasce em formato digital – que infere a necessidade de se revisar o método e prucurar uma nova abordagem para as fontes históricas digitalizadas, transformando também a relação entre o leitor-usuário e o texto. Um outro problema é a da corrosão da autoridade e da linearidade do texto, e  mesmo da autenticidade da fonte e dos variados documentos disponíveis hoje na rede. Projetar um modo para distinguir os dados oficiais dos não-oficiais é um dos desafios para os historiadores contemporâneos. E as produções “amadoras” de história na rede constituem uma outra problemática. Será justo ignorar a validade destas produções e julgar inadequado o seu uso para fins historiográficos? Este é um debate vital que está em andamento e merece muita atenção.

Na era do World Wide Web  a hipertextualidade transforma a relação entre texto e fontes, as torna disponíveis e acessíveis também para o leitor, permitindo uma criação, por parte do público, de diferentes percursos de leitura e viabilizando a verificação dos documentos utilizados na investigação, através de links e outras referências online, diferenciando ainda mais o texto digital daquele escrito em papel. A interatividade do leitor-usuário com a obra é potencializada no ambiente virtual.

Acontece que a rede em si se transforma em uma espécie de grande arquivo-Frankstein, no qual as classificações e vínculos arquivológicos são por demais instáveis e se faz necessário ainda abrir os caminhos para alcançar e classificar de forma inteligível todos os documentos, mas nem mesmo isto poderia garantir uma estabilidade dentro da liquidez do arquivo virtual, tudo é muito fluido e cada sujeito vai criando indivudualmente os percursos que deseja utilizar para chegar até uma informação. O crescimento da Web 2.0 e da blogsfera também são relevantes quando se fala em uma maior interação entre os diferentes atores e comunidades. Hoje é possível, por exemplo, realizar uma mesa redonda virtual, graças às novas tecnologia de informação e comunicação que  viabilizam as conferências áudio-vídeo com mais de duas pessoas ao mesmo tempo, é possível que um professor oriente seu aluno à distância, é possível que uma comunidade de estudioso promova debates ao interno de lista de discussões por e-mail… enfim, existe uma gama enorme de novas possibilidades, de novas relações que  merecem a atenção dos estudiosos das ciências humanas. O que significa tudo isto?

Para dar conta de todos essas transformações não é necessária uma de uma refundação do ofício do historiado, a base epistemológica deste permanece a mesma, o que muda e merece ser repensado são os métodos de análise crítica e como eles podem ser aplicados a novas fontes com uma nova abordagem. Com isto quero dizer que as bases da disciplina não devem ser revisadas, mas o método deve ser atualizado.

Encontrei uma entrevista interessante realizada pela revista Cantareira em sua oitava edição  (iniciativa de alunos de História da UFF) a Carlos Barros, coordenador do projeto Historia a Debate, que se propõe também a uma reflexão sobre a relação da internet com a historiografia. É impossível que passemos por esta revolução informativa impassíveis. É sem dúvida necessária uma atualização do nosso ofício (de historiadores). Reflexão que pretende discutir em um post à  parte.

Trancrevo a décima e última pergunta da entrevista que é sobre o tema que inspira este blog, falas obre história e internet, data de 2005:

10. Devido a grande importância atribuída pelo Historia a Debate ao papel da Internet para a produção historiográfica do século XXI, seja como meio de democratização de reflexões sobre a escrita da História, em contraponto ao “colonialismo” de centros tradicionais de produção, seja como forma de romper as amarras impostas pelas exigências do mercado editorial, instituições políticas e grandes meios de comunicação, gostaríamos que o senhor citasse e comentasse exemplos de trabalhos, ou projetos em andamento, que têm utilizado a Internet dentro dessas características.

Infelizmente não conhecemos outro exemplo como Historia a Debate que congregue assim historiografia e Internet, que pesquise, reflita e debata na rede o imediato com o objetivo de construir uma nova alternativa historiográfica. Faltam esforços homólogos, o que limita as nossas alianças a aspectos parciais ao mesmo tempo em que explica que a nossa expansão acadêmica não tenha ainda tocado no seu teto. Paralelamente à nossa experiência latina constituíram-se ou reconstituíram-se, no âmbito anglo-saxão, interessantes páginas web e listas de discussão de história (o servidor de listas H-Net, por exemplo, se bem não é ele mais do que uma página de serviços), os tradicionais congressos mundiais de história (organizados pelo International Committee of Historical Sciences, não costumam tratar a temática historiográfica e utilizam Internet de forma secundária), redes digitais de historiadores politicamente comprometidos (a mais recente Historians Against the War, embora não lute de maneira explícita por uma mudança global de paradigmas na nossa disciplina), revistas dedicadas à teoria histórica e à metodologia (um exemplo clássico é History and Theory, se bem usa subsidiariamente a Internet e não possui um programa claro e integrador de alternativa historiográfica).
A semelhança parcial de cada um destes projetos com HaD, todos com influência e origem norte-americanos (salvo o CISH-ICHS) e desenvolvidos também na última década, confirma o caráter universal e sintético da nossa aposta acadêmica, as possibilidades inéditas que são oferecidas ao mundo acadêmico latino e à superioridade da nossa estratégia historiográfica de síntese de futuro entre (A) o melhor da experiência, em organização e em conteúdos, das vanguardas historiográficas do século passado, e (B) as novas tecnologias da comunicação acadêmica e social. Desconhecemos em outras disciplinas, seja humanidades seja ciências sociais, um exemplo tão claro e organizado como o nosso, de paradigma disciplinar misto e global nos âmbitos (local / nacional / mundial), nos meios (digital / presencial) e nos conteúdos (histórico / historiográfico, passado / presente, debate / consenso, inovação / compromisso).
Alentamos, portanto, os colegas interessados a acompanhar o nosso trabalho, a seguir conosco, dentro e fora do âmbito acadêmico latino, dentro e fora da história como disciplina, completando com novas dimensões as experiências isoladas de sucesso nos campos da Internet e das ciências humanas, para as quais é preciso desprender-se definitiva e claramente dos anacrônicos resíduos da mentalidade “dependente” ou “colonial” imperante durante décadas nas nossas relações internacionais acadêmicas. A Internet já está sendo um lugar de encontro multilateral das melhores experiências internacionais da historiografia e das ciências sociais. Pode-se dizer que o novo academicamente se não está na rede é porque não é realmente novo. Aproveitemos, pois, a possibilidade democratizadora implicada pela rede de redes para mudar juntos a face da nossa profissão no mundo através de alianças historiográficas, intra e inter disciplinares, cimentadas no respeito mútuo, no debate e no consenso, sabendo que com isso contribuímos a um mundo melhor para todos.
Como você bem sugere na sua pergunta, a nova sociabilidade digital torna possível, na medida em que sigamos além da oferta acadêmica de novos serviços e lugares para publicar, uma democratização da historiografia e da academia assim como a recuperação da autonomia dos historiadores relativamente à influência –fragmentadora e às vezes inclusive mercenária– dos poderes políticos, dos meios de comunicação social, das grandes editoras. Haveremos de refletir mais sobre isso e de experimentar tudo, também a partir do Brasil. Estão todos convidados, vamos lá, e muito obrigado.

Entrevista na íntegra aqui.



A National Science Foundation (Virginia – USA) disponibiliza em seu site um excelente material, sobre a breve e impressionante história da Internet dos anos 60 aos dias atuais, passando pelas primeiras experiências de networking, à personalização dos pcs, o hipertexto e a criação do World Wide Web de Tim Berners-Lee (pesquisador do CERN) ao fenômeno contemporâneo do Web 2.0. E ainda, no final da apresentação, lança uma pergunta instigante: como será a internet em 2027? Muito interessante. Vale uma reflexão. Outro dado relevante é que acompanha a linha do tempo o número dos computadores “on the NET” e usuários de Internet (nos anos 90 248000000).

Confiram:

internetbirth

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